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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Somos inéditos
Natal, março de 1983.
Na verdade, tirando
Câmara Cascudo, norte-riograndense porque se refugiou
no sobradão natalense 377 da Junqueira Aires, uma exceção
da regra geral, não há nenhuma presença potiguar na
literatura nacional.
Auta de Souza? Desde
Jackson de Figueiredo, ninguém fala nela.Nísia Floresta
é apenas nome de uma cidade. Luiz Carlos Wanderley é
desconhecido a partir da Dr. Barata. Ferreira Itajubá
sequer é nome de cidade sertaneja. Polycarpo Feitosa?
Quem diacho é Aurélio Pinheiro?
Lá onde as coisas acontecem,
que nomeada têm os nossos referidos ou não referidos?
Necas de pitibiriba. Mesmo porque, enquanto formos editados
localmente, seremos editados para o ineditismo. Ou para
as nossas tardes e noites de autógrafos, com canudinhos,
empadinhas, palmadinhas, chistes.
Mas não se veja aqui
desfazimento da obra sacra que fazem os melhores sacerdotes
da terra. Não, nunca. Benditos sejam Carlos Lima, Gilson
Pinheiro, Valério Mesquita, Gonzaga Chimbinho, Vingt-um
Rosado. Benditos sejam.
Além do mais, prestígio
não é juízo de valor. Graças a Deus, não é.
Ocorre que ninguém
escreve para não ser lido. Escrevesse com tal desprendimento
filosófico, quase cínico, faria como Afonso Laurentino
Ramos, que produz ensaios argutíssimos sobre semiótica
para depois rasgá-los, os papeizinhos jogados nas tristes
águas do Rio Potengi, em forma infantil e lúdica de
barquinhos.
Claro que temos osso
com tutano. E isso eu já confessava às bordas da piscina
inteligente de Leda-Leide de Morais, em êxtase diante
do bouquet de seu vinho generoso e gaulês.
Jorge Fernandes tivesse
morado no Rio, não tivesse trabalhado na Fábrica Vigilante,
seria um papa da poesia moderna, pondo na chinela muita
gente arretada.
E José Bezerra Gomes,
sobre quem sempre me inquiria meu falecido amigo José
Geraldo Vieira, cachimbo sustentado na mão esquerda
próximo ao queixo, pose de Picasso?
No Sul maravilha, que
sucesso não faria o estilo de Edgard Barbosa e a suspicácia
de Hélio Galvão?
"Balada daquela
casa", de meu irmão Augusto Severo Neto, seria
um desbunde. Declamado no Teatro Municipal de São Paulo
para o delírio das torrinhas ávidas.
Zila Mamede é poeta
aqui e na China, pra homem nem mulher botar defeito.
E o lirismo de anjo
de Myriam Coeli?
E a poesia boa de Luiz
Carlos Guimarães, de Sanderson Negreiros, de Jarbas
Martins?
E a verve de Celso
da Silveira, é ou não é ziraldiana, jaguariana?
Falei em Nei Leandro
de Castro ao falar em Lula Capeta?
Falei em Franklin Jorge,
cuja ternura ele esconde por trás de suas polêmicas?
E Gilberto Avelino,
que é um soneto ambulante?
E Newton Navarro, que
é excelente como poeta, excelente como pintor, excelente
como orador, excelente como cronista, sendo mais excelente
ainda como natureza humana?
Sei dos velhos, sei
dos novos. Américo de Oliveira Costa, que poderia nos
dar 100 por cento e avaramente nos concede 10. João
Medeiros Filho, que deveria ser nosso historiador oficial.
Esmeraldo Siqueira. Nilo Pernambucano do Ceará Mirim.
O grão-mestre Manuel Rodrigues de Melo. Volonté. Esse
extraordinário Alex Guimarães. Socorro Trindad, Edna
Duarte, Marize de Castro, Falves, Rubens Lemos, Iaperi
e Iaponi Araújo. Sem esquecer os manos Deifilo e Tarcísio
Gurgel.
Só e somente? Nada!
Não falei em Walflan de Queiroz, Alvamar Furtado, Raul
Fernandes, Antônio Soares Filho. Sequer citei o monstro
sagrado que é Renato Caldas. Quem disse que eu esqueci
João Lins Caldas? Uma noite de inteligência na casa
inteligentíssima de Elenir-Roberto Varela, diante dos
cachórros (sim, com acento na segunda sílaba), não me
faria deslembrar dois sujeitos que sumiram, mas que
são poetas com todas as letras, do p ao s, graúdas:
meu primo Ferdinando Couto e meu saudoso João Batista
Pinto - "Margarida/talvez nem sejas mais aquela
que minh´alma procura"...
A enfiada poderia continuar,
vigília de Natal a Macaíba, entusiasmo cívico ímpar
e bom.
Eu poderia citar Everaldo
Gomes, dos Porciúnculas de Lagoa dos Gatos, cujo livro
do umbigo foi freneticamente festejado pelas forças
vivas (e mortas) deste pedaço de planeta padecente.
Poderia lembrar Vicente
Serejo, que compõe uma das melhores cenas urbanas de
Natal ao produzir páginas que independem do calendário
de Gregório, algumas com tutano para permanência na
antologia do que melhor escreveram os menestréis da
terra nossa, por exemplo Berilo Wanderley (que saudade!)
e Newton Navarro (que beleza!).
E Manoel Onofre Júnior,
que está a transformar-se em consagrado autor de vasta
bibliografia ao abandonar os autos e se dedicar à história
literária da província.
Resultado? Síntese?
Somos inéditos. Gloriosamente inéditos. Conhece-se mais
a literatura de Bangladesh do que a literatura do Rio
Grande do Norte.
E daí, e daí?
A gente se lixa com
o ineditismo. Se o Rio Grande do Norte não descobriu
Mossoró e tudo que é norte-riograndense exclui a terrinha
da abolição, de Lampião e do histórico e geográfico
art nouveau, o que podemos reclamar?
Dançar um tanto argentino,
ser bicão nas festas de Roberto Varela, bancar o importante
a proclamar intimidades com Mário Moacir Porto, ir às
missas de Dom Nivaldo Monte e sonhar, um dia, brincar
no Bataclan de Darly Couto e Jarbas Bezerra.
Mas na verdade, não
existimos. Fora Câmara Cascudo, nada de coisa alguma.
E talvez, quem sabe?, aí resida a nossa glória, aquela
situação rousseniana do bom selvagem, o oba-oba local,
o prazer de não sermos conterrâneos de Ledo Ivo e somente
vizinhos de Gilberto Freyre.
É a terra nostra. Regozijemo-nos!
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