Mossoró-RN, domingo 29 de abril de 2007

A palavra de Dorian Jorge Freire

Somos inéditos

Natal, março de 1983.

Na verdade, tirando Câmara Cascudo, norte-riograndense porque se refugiou no sobradão natalense 377 da Junqueira Aires, uma exceção da regra geral, não há nenhuma presença potiguar na literatura nacional.

Auta de Souza? Desde Jackson de Figueiredo, ninguém fala nela.Nísia Floresta é apenas nome de uma cidade. Luiz Carlos Wanderley é desconhecido a partir da Dr. Barata. Ferreira Itajubá sequer é nome de cidade sertaneja. Polycarpo Feitosa? Quem diacho é Aurélio Pinheiro?

Lá onde as coisas acontecem, que nomeada têm os nossos referidos ou não referidos? Necas de pitibiriba. Mesmo porque, enquanto formos editados localmente, seremos editados para o ineditismo. Ou para as nossas tardes e noites de autógrafos, com canudinhos, empadinhas, palmadinhas, chistes.

Mas não se veja aqui desfazimento da obra sacra que fazem os melhores sacerdotes da terra. Não, nunca. Benditos sejam Carlos Lima, Gilson Pinheiro, Valério Mesquita, Gonzaga Chimbinho,             Vingt-um Rosado. Benditos sejam.

Além do mais, prestígio não é juízo de valor. Graças a Deus, não é.

Ocorre que ninguém escreve para não ser lido. Escrevesse com tal desprendimento filosófico, quase cínico, faria como Afonso Laurentino Ramos, que produz ensaios argutíssimos sobre semiótica para depois rasgá-los, os papeizinhos jogados nas tristes águas do Rio Potengi, em forma infantil e lúdica de barquinhos.

Claro que temos osso com tutano. E isso eu já confessava às bordas da piscina inteligente de Leda-Leide de Morais, em êxtase diante do bouquet de seu vinho generoso e gaulês.

Jorge Fernandes tivesse morado no Rio, não tivesse trabalhado na Fábrica Vigilante, seria um papa da poesia moderna, pondo na chinela muita gente arretada.

E José Bezerra Gomes, sobre quem sempre me inquiria meu falecido amigo José Geraldo Vieira, cachimbo sustentado na mão esquerda próximo ao queixo, pose de Picasso?

No Sul maravilha, que sucesso não faria o estilo de Edgard Barbosa e a suspicácia de Hélio Galvão?

"Balada daquela casa", de meu irmão Augusto Severo Neto, seria um desbunde. Declamado no Teatro Municipal de São Paulo para o delírio das torrinhas ávidas.

Zila Mamede é poeta aqui e na China, pra homem nem mulher botar defeito.

E o lirismo de anjo de Myriam Coeli?

E a poesia boa de Luiz Carlos Guimarães, de Sanderson Negreiros, de Jarbas Martins?

E a verve de Celso da Silveira, é ou não é ziraldiana, jaguariana?

Falei em Nei Leandro de Castro ao falar em Lula Capeta?

Falei em Franklin Jorge, cuja ternura ele esconde por trás de suas polêmicas?

E Gilberto Avelino, que é um soneto ambulante?

E Newton Navarro, que é excelente como poeta, excelente como pintor, excelente como orador, excelente como cronista, sendo mais excelente ainda como natureza humana?

Sei dos velhos, sei dos novos. Américo de Oliveira Costa, que poderia nos dar 100 por cento e avaramente nos concede 10. João Medeiros Filho, que deveria ser nosso historiador oficial. Esmeraldo Siqueira. Nilo Pernambucano do Ceará Mirim. O grão-mestre Manuel Rodrigues de Melo. Volonté. Esse extraordinário Alex Guimarães. Socorro Trindad, Edna Duarte, Marize de Castro, Falves, Rubens Lemos, Iaperi e Iaponi Araújo. Sem esquecer os manos Deifilo e Tarcísio Gurgel.

Só e somente? Nada! Não falei em Walflan de Queiroz, Alvamar Furtado, Raul Fernandes, Antônio Soares Filho. Sequer citei o monstro sagrado que é Renato Caldas. Quem disse que eu esqueci João Lins Caldas? Uma noite de inteligência na casa inteligentíssima de Elenir-Roberto Varela, diante dos cachórros (sim, com acento na segunda sílaba), não me faria deslembrar dois sujeitos que sumiram, mas que são poetas com todas as letras, do p ao s, graúdas: meu primo Ferdinando Couto e meu saudoso João Batista Pinto - "Margarida/talvez nem sejas mais aquela que minh´alma procura"...

A enfiada poderia continuar, vigília de Natal a Macaíba, entusiasmo cívico ímpar e bom.

Eu poderia citar Everaldo Gomes, dos Porciúnculas de Lagoa dos Gatos, cujo livro do umbigo foi freneticamente festejado pelas forças vivas (e mortas) deste pedaço de planeta padecente.

Poderia lembrar Vicente Serejo, que compõe uma das melhores cenas urbanas de Natal ao produzir páginas que independem do calendário de Gregório, algumas com tutano para permanência na antologia do que melhor escreveram os menestréis da terra nossa, por exemplo Berilo Wanderley (que saudade!) e Newton Navarro (que beleza!).

E Manoel Onofre Júnior, que está a transformar-se em consagrado autor de vasta bibliografia ao abandonar os autos e se dedicar à história literária da província.

Resultado? Síntese? Somos inéditos. Gloriosamente inéditos. Conhece-se mais a literatura de Bangladesh do que a literatura do Rio Grande do Norte.

E daí, e daí?

A gente se lixa com o ineditismo. Se o Rio Grande do Norte não descobriu Mossoró e tudo que é norte-riograndense exclui a terrinha da abolição, de Lampião e do histórico e geográfico art nouveau, o que podemos reclamar?

Dançar um tanto argentino, ser bicão nas festas de Roberto Varela, bancar o importante a proclamar intimidades com Mário Moacir Porto, ir às missas de Dom Nivaldo Monte e sonhar, um dia, brincar no Bataclan de Darly Couto e Jarbas Bezerra.

Mas na verdade, não existimos. Fora Câmara Cascudo, nada de coisa alguma. E talvez, quem sabe?, aí resida a nossa glória, aquela situação rousseniana do bom selvagem, o oba-oba local, o prazer de não sermos conterrâneos de Ledo Ivo e somente vizinhos de Gilberto Freyre.

É a terra nostra. Regozijemo-nos!

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