Mossoró-RN, domingo 29 de abril de 2007

Seu Jorge, o cego sanfoneiro

Ana Paula Cadengue
Editor Geral

Quem nunca ouviu falar de cegos tocando realejo? Bom, isso era antigamente, quando existiam realejos e macacos "tirando a sorte" por aí. Quando também se podia chamar um deficiente visual de cego sem correr o risco de ter suas orelhas puxadas por alguém politicamente correto.

Mas, Jorge de Queirós Santos, o seu Jorge Potiguar, não se incomoda em ser chamado de cego e pode não ter realejo, mas toca uma sanfona para ninguém botar defeito.

Nascido em Almino Afonso há 51 anos, seu Jorge perdeu a visão em maio de 1974, por causa de um glaucoma. Segundo ele, se tivesse tratado do problema a tempo não teria ficado cego, mas o fato de morar num sítio com a família agricultora que não tinha lá muito tempo para dar atenção a problemas de vista, acabou causando uma situação sem volta.

O que poderia ser o fim dos tempos para muitos, foi o começo de uma nova vida. Após um período de adaptação à nova condição, seu Jorge resolveu que ia aprender a tocar um instrumento e escolheu a sanfona por lhe parecer mais fácil para um deficiente visual. E foi.

Meio sem vontade no início, ele foi pegando gosto pela coisa enquanto ia mudando de cidade, andando pelo Seridó, até acabar em Mossoró, aonde chegou há mais de 13 anos, pelos cálculos dele. E olha, que datas não são o forte de seu Jorge, que de vez em quando troca uma por outra...  

De uma coisa ele tem certeza, o Trio Seridó, no qual ele toca, existe há... existe...  "há uns 15 anos", responde depois de pensar um pouquinho. Mas, ele está certo, não são as datas que importam e sim a música.

E a música tocada pelo Trio Seridó - em homenagem às origens familiares - é de primeira qualidade. Do forró tradicional, xote, xaxado e baião às versões mais modernas. De Luiz Gonzaga, passando pelo Trio Nordestino a Dorgival Dantas.

Formado por sete integrantes, o Trio (trio?) Seridó tem esse nome porque na  atual formação há três sanfoneiros: seu Jorge, Jonas e Jaíza - seus filhos. Além deles, tem também Antônio (Tóia) no baixo, Gleiber, voz e guitarra, Demétrio no triângulo e Antônio "Coquinho" na zabumba.

Acostumado a fazer show por todas as plagas - Forró da Lua Cheia, Carcará, Mossoró Cidade Junina, Aceu, Areia Branca, Natal, Recife - seu Jorge não se importa com o tamanho da festa, o que ele quer mesmo é tocar. "Me sinto feliz, o tempo passa rápido, a gente espairece", diz ele. E o negócio fica melhor ainda quando é acompanhado de uma cervejinha bem gelada: "É quando me sinto mais à vontade, tocando e tomando uma...".

Enquanto os shows não chegam, já existem 12 marcados para o mês de junho, seu Jorge vai tocando uma pequena mercearia que tem em casa para reforçar a aposentadoria e os cachês de R$ 400,00 por quatro horas de um bom forró. "A música que eu mais gosto é Asa Branca", declara ele.

E se não pode mais   "olhar a terra ardendo qual fogueira de são João", pode sim ter muita alegria de viver. Sorrindo, confessa: "Eu podia ficar reclamando da vida, mas não, eu só sonho colorido".

Contatos: 3316 - 4750

Copyright,© 2000-2006 - Editora de Jornais Ltda - Todos os direitos reservados
Site melhor visualizado em 800x600

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site