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Seu
Jorge, o cego sanfoneiro
Ana Paula Cadengue Editor
Geral
Quem nunca ouviu falar
de cegos tocando realejo? Bom, isso era antigamente,
quando existiam realejos e macacos "tirando a sorte"
por aí. Quando também se podia chamar um deficiente
visual de cego sem correr o risco de ter suas orelhas
puxadas por alguém politicamente correto.
Mas, Jorge de Queirós
Santos, o seu Jorge Potiguar, não se incomoda em ser
chamado de cego e pode não ter realejo, mas toca uma
sanfona para ninguém botar defeito.
Nascido em Almino Afonso
há 51 anos, seu Jorge perdeu a visão em maio de 1974,
por causa de um glaucoma. Segundo ele, se tivesse tratado
do problema a tempo não teria ficado cego, mas o fato
de morar num sítio com a família agricultora que não
tinha lá muito tempo para dar atenção a problemas de
vista, acabou causando uma situação sem volta.
O que poderia ser o
fim dos tempos para muitos, foi o começo de uma nova
vida. Após um período de adaptação à nova condição,
seu Jorge resolveu que ia aprender a tocar um instrumento
e escolheu a sanfona por lhe parecer mais fácil para
um deficiente visual. E foi.
Meio sem vontade no
início, ele foi pegando gosto pela coisa enquanto ia
mudando de cidade, andando pelo Seridó, até acabar em
Mossoró, aonde chegou há mais de 13 anos, pelos cálculos
dele. E olha, que datas não são o forte de seu Jorge,
que de vez em quando troca uma por outra...
De uma coisa ele tem
certeza, o Trio Seridó, no qual ele toca, existe há...
existe... "há uns 15 anos", responde
depois de pensar um pouquinho. Mas, ele está certo,
não são as datas que importam e sim a música.
E a música tocada pelo
Trio Seridó - em homenagem às origens familiares - é
de primeira qualidade. Do forró tradicional, xote, xaxado
e baião às versões mais modernas. De Luiz Gonzaga, passando
pelo Trio Nordestino a Dorgival Dantas.
Formado por sete integrantes,
o Trio (trio?) Seridó tem esse nome porque na atual
formação há três sanfoneiros: seu Jorge, Jonas e Jaíza
- seus filhos. Além deles, tem também Antônio (Tóia)
no baixo, Gleiber, voz e guitarra, Demétrio no triângulo
e Antônio "Coquinho" na zabumba.
Acostumado a fazer
show por todas as plagas - Forró da Lua Cheia, Carcará,
Mossoró Cidade Junina, Aceu, Areia Branca, Natal, Recife
- seu Jorge não se importa com o tamanho da festa, o
que ele quer mesmo é tocar. "Me sinto feliz, o
tempo passa rápido, a gente espairece", diz ele.
E o negócio fica melhor ainda quando é acompanhado de
uma cervejinha bem gelada: "É quando me sinto mais
à vontade, tocando e tomando uma...".
Enquanto os shows não
chegam, já existem 12 marcados para o mês de junho,
seu Jorge vai tocando uma pequena mercearia que tem
em casa para reforçar a aposentadoria e os cachês de
R$ 400,00 por quatro horas de um bom forró. "A
música que eu mais gosto é Asa Branca", declara
ele.
E se não pode mais
"olhar a terra ardendo qual fogueira
de são João", pode sim ter muita alegria de viver.
Sorrindo, confessa: "Eu podia ficar reclamando
da vida, mas não, eu só sonho colorido".
Contatos: 3316 - 4750
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