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Tom sobre tom

Rodrigo Faro

Toda vez que entra em cena como o íntegro Joaquim, de “A Casa das Sete Mulheres”, Rodrigo Faro sente-se no fio de uma navalha. Afinal, cabe a ele interpretar um personagem que não tem arroubos de paixão nem ódio. Mas sofre, resignado, por amar Manuela, de Camila Morgado, sem ser correspondido. Por isso mesmo, o ator acredita que tem nas mãos o papel mais maduro de sua carreira. “É um personagem dificílimo, que exige muito de mim. O Joaquim é um cara sensível, que sofre, chora... Mas tem a sua força. Se errar no tom, ele se perde”, analisa o ator, que também canta a música-tema do personagem.

Rodrigo emenda sua terceira produção de época na Globo. Antes de receber o convite de Jayme Monjardim para a minissérie, chegou a ser escalado pelo diretor para “O Clone”, de Glória Perez. Mas a Globo optou por encaixá-lo em “A Padroeira”, de Walcyr Carrasco, que ia mal de audiência. No mesmo horário das seis, ele já havia atuado em “O Cravo e a Rosa”, também de Walcyr. “Só sinto falta das produções contemporâneas na hora que olho meu figurino cheio de golas e veludos... Camiseta e jeans são uma bênção!”, confessa, bem-humorado.

P - Joaquim ama Manuela, que ama Garibaldi... Como é viver um personagem preterido?  

R - No meu caso, está sendo maravilhoso. O Joaquim é humano, verdadeiro. Com o Garibaldi, a Manuela vive momentos de romance, de paixão, de altos e baixos. Com o Joaquim, é só sofrimento. O dele, por amá-la e não ser correspondido. E o dela, por só vê-lo como primo. Mas cabe ao Joaquim trazer Manuela para a realidade. Mostrar que o amor dela por Garibaldi não tem a menor importância diante da guerra, da morte e da miséria. Que ela reduz sua vida a uma frivolidade. Agora, o difícil mesmo é dar o tom exato da emoção do personagem.

P - Como assim?

R - Ele é um cara contido, mas de grandes sentimentos. Se cair para um lado ou para o outro, o personagem perde sua razão de ser. Fica frio, chato ou bobo... Mas tenho uma boa base. O texto da Maria Adelaide Amaral e do Walther Negrão é perfeito! Outro dia gravei uma cena linda, em que o Bento Gonçalves consola Joaquim. Ele diz: “Filho, o Garibaldi é valente, é quase um deus. Mas você também é um deus. Você é médico. E só você pode salvar a vida dessas pessoas”.

P - Com tantas cenas emotivas, o trabalho não fica mais desgastante?

R - Não, porque o clima das gravações é o melhor possível. O Jayme é um diretor excepcional, que sabe tirar o melhor de cada um. Trabalhamos com o maior prazer mesmo. Lógico que, no momento de gravar, é preciso ter concentração. Mas quem está acostumado chora, se descabela e, no final, sai de cena aos risos... Acho que o resultado desse entrosamento fica perceptível no vídeo.

P - Seu personagem existiu na realidade. O que é referência histórica e o que foi acrescentado a ele?

R - Realmente, o Joaquim existiu. Mas a gente sabe pouco dele. Então, tivemos toda a liberdade de criar. Há várias licenças poéticas, como por exemplo, o gosto dele por música. Meu personagem canta e toca violão. E eu tive, pela primeira vez, a oportunidade de mostrar meu trabalho como músico dentro da emissora. Já tinha tentado emplacar minhas músicas em trilhas de novela... Mas o Jayme foi o primeiro que ouviu e disse: “É bom. Vamos usar”. E eu gravei logo o tema de Joaquim com Manuela!

P - Esta é sua terceira produção de época consecutiva. Gosta mesmo de trabalhos do gênero?

R - Gosto. Mas não é uma preferência. Eu fiz três novelas atuais, depois emendei três de época. É um trabalho mais apurado, em que você tem de estudar o contexto social e histórico em que o personagem está inserido. Exige cuidados com linguagem, além do figurino... Produção de época tem bota, chapéu, casaco, cinto, colete... Nossa, é muito quente! Confesso que estou com saudades de usar apenas camiseta, calça jeans e tênis. É só vestir e pronto! Uma maravilha!

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Mossoró-RN, domingo, 30 de março de 2003