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Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br

Imperfeição e amor

“As nossas capacidades provêm das nossas fraquezas
e nossa  eficácia das nossas fragilidades”.

(Michel Serres, filósofo)

Ao contrário das máquinas artificiais que precisam estar perfeitas para funcionarem maravilhosamente bem, o ser humano tem a imperfeição como condição de sua vida.

A falta, a necessidade, a incompletude ou, em uma palavra, as carências humanas fundam a nossa condição, a condição de Ser-no-mundo. O amor é uma de nossas carências. Ele é vital à vida humana e suas relações societárias. Ele denuncia a nossa condição de sujeitos desejantes.

Há certas coisas na vida que somente os outros podem nos proporcionar, mesmo sem eles quererem, mesmo sem eles saberem: o amor é uma dessas coisas.  Ele nos diz que precisamos do outro em nossa vida. Ora, o amor é despertado pelo outro, é falta do outro; do outro que idealizamos como completude e plenitude de nosso próprio ser. Ao amar, buscamos no outro aquilo de que precisamos: reconhecimento, aprovação, valorização, paixão.

Isso ajuda a compreender, em parte, a carência humana. Carência do outro, antes de tudo, pois sem ele não existiríamos.  O neuropsiquiatra Boris Cyrulnik percebeu em seus estudos que há homens, por exemplo, que têm ereções eróticas de caráter essencialmente psicológico: precisam fazer amor para se sentirem seguros, para provarem a si mesmos que são campeões, para valorizarem sua imagem narcísica. Portanto, assim como o amor, o outro nos faz nos revelar para os outros e para nós mesmos.

Na verdade, só amamos porque não somos auto-suficientes. O mito de Narciso é emblemático a esse respeito. Narciso não amava ninguém porque se achava perfeito. E quem é perfeito não estabelece relações com os outros, não precisa de ninguém. Assim, Narciso vivia sozinho, era um “ninguém” se entendermos, como Cyrulnik, que “não amar ninguém é transformar-se em ninguém”.

        É nessa perspectiva que Clarice Lispector concebe a solidão em seu romance A paixão segundo GH. Para ela, “solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só. Precisar não isola a pessoa, a coisa precisa da coisa”. Em sua concepção, “o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente”.

        Assim sendo, o amor é antropogênico: é tão antigo quanto à humanidade e tão novo como cada nova forma de vivê-lo.

        Ao contrário do que se pensa comumente, não amamos quem é igual a nós. Amamos o diferente. “Cada um é um”, disse Clarice. Portanto, somos, cada um de nós, iguais a nós mesmos. Assim, podemos nos amar, mas esse amor não é exclusivo nem excludente do amor pelo outro e do outro.  Nosso amor não é auto-suficiente. Um amor não substitui outro. Nós não nos bastamos. Por isso precisamos do amor que nos faz diferente, do amor diferente que vem do outro ser diferente de nós.

        Ao que parece, pessoas “boazinhas”, lindas, educadas, elegantes, comportadas, assim como aquelas que são parecidas conosco são no máximo admiráveis, desejáveis, idealizadas até, mas geralmente não são apaixonantes. Na verdade, nas relações afetivas, os defeitos são extremamente marcantes. Eles ferem, nos fazem sofrer, às vezes. O sofrimento é como tatuagem que marca a nossa pele com o próprio sentimento que sentimos. Nas narrativas clariceanas “o sofrimento por um ser aprofunda o coração dentro do coração”.

        Assim, são nossos defeitos que nos fazem humanos, extremamente humanos. Pessoas perfeitas são desinteressantes, diz o mitólogo Campbell. Além do mais, elas não existem (há não ser no imaginário humano). Sendo imperfeitos, sonhamos com a perfeição possível. O amor é um desses sonhos românticos de perfeição. Mas ele também não é perfeito, pois como escreveu Clarice, “amar nunca impediu que por dentro eu chorasse lágrimas de sangue”. Nesse contexto, não existe amor perfeito. Só há sonhos e ilusões perfeitas. E essa é uma de nossas capacidades de sapiens-demens: capacidade de criarmos ilusões como verdadeiras realidades de nossa vida.

        Ora, imaginar, se enganar, se iludir, sofrer, amar: tudo isto é importante porque viver simplesmente não basta. Nessa perspectiva, o amor torna-se uma grande e necessária ilusão, real e intensa.

        Amar é desejo de ser amado. Portanto, sofremos pelo outro se não temos dele a correspondência que desejamos. Ora, quando amamos desejamos muito, mas, às vezes, o amor se satisfaz com pouco. Ele se alimenta de estimulantes sensoriais, como demonstrou Cyrulnik. Ou seja: de cheiro, de som, imagem, toque, lembranças.

Nessa perspectiva, é possível até amarmos em silêncio. Mas amar é uma coisa e ter o amor de quem amamos é uma outra coisa. Na verdade, só temos o amor que nos têm, pois é a força do amor que nos possuem, que nos faz fazer as loucuras sem as quais vida não valeria a pena. Na verdade, é ele, o amor, que nos tem, que nos possui e nos domina. Mas o amor que sentimos, o amor que nos tem, pode não ter quem tanto ama. Dessa forma, enquanto mais forte for o amor mais vulnerável a sofrimentos fica aquele que ama. Assim sendo, quem tem medo de sofrer pode não conseguir amar ninguém. E quem não ama não permite o sopro da vida pulsar dentro de si.  Como disse Cyrulnik, “não posso me tornar eu mesmo a não ser pagando o preço do amor que me mutila”. Portanto, amar e admitir isso exige coragem, determinação, confiança em si mesmo. Só ama aquele que se aceita, que se entrega a si, aceitando o outro como ele é. A emoção do amor parece gerar uma espécie de subconsciência, como aquela que gerou no “meca”, no robô, do filme inteligência artificial.

O amor é uma das frágeis forças que faz nossa vida resistir à crueldade da própria vida e do mundo. Ora, dor e prazer, alegria e decepção, falta e busca, necessidade e  insatisfação, vazio e plenitude, ódio e amor, encanto e desencanto fazem parte da nossa vida. Como disse Clarice, “só tenho o que sou”. E o que temos? Temos todas as cicatrizes de tudo que aconteceu em nossa vida. Somos todos os riscos e rabiscos; somos todos os fragmentos de vida; somos mais do que a totalidade de tudo que vivemos.

SOBRE O AUTOR:

É doutorando na PUC de São Paulo, prof. do Departamento de Ciências Sociais na Uern, pesquisador do GRECOM/UFRN e coordenador desta coluna (ARTE & IDEIAS).

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Mossoró-RN, domingo, 30 de março de 2003