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A corrente dos sessenta homens

LÍRIA NOGUEIRA ALVINO – Escritora – antonialiria@uol.com.br

Sempre aos domingos saio às seis e meia da manhã com meu reloginho humano chamado Heitor. Saímos para dar uma voltinha pelo quarteirão e tomar banho de sol que, dizem, é bom para menino. Penso que banho de sol é bom para todo mundo, mas esse assunto agora não vem ao caso, porque não é disso que quero tratar.

Nesses passeios observamos a vida das pessoas às seis e meia da manhã, e veja, amigo leitor: não é todo mundo que vive nesse horário. Só uma parcela considerável, feita de senhoras que vão à missa, dos padres que a celebram, de médicos que vêm de seus plantões, padeiros, tarados e adjacências circulam por esse horário, aos domingos nas ruas solitárias do Nova Betânia. A parcela restante está em casa dormindo, porque chegou tarde da balada ou porque não quer mesmo acordar cedo para ir à missa.

Acontece, então, que nos sentamos sempre na esquina do quarteirão, na calçada do juiz Expedito, que é uma calçadona alta que deixa a gente à vontade e bem posicionado, dando para sentar e por os pés no chão, o que é uma coisa confortável.

Temos uma vizinha que quase não conhecemos, mas que sabemos que ela existe porque a vemos entrar e sair de sua casa com as crianças, mas tudo sem muito comentário. Ela é discretíssima e nunca a vemos abrir a porta para uma alma viva.

Num domingo em que acordamos mais cedo do que de costume, lá fomos nós para a calçada do juiz Expedito, e eis que avistamos um senhor na altura dos seus... digamos cinqüenta anos, trocando os passos num andar característico de quem já tomou todas e enfiado dentro de calças compridas manchadas de barro como quem já tivesse caído na lama ou coisa parecida. Ele parecia não nos ver, mas, por precaução, repeti a frase que sempre digo quando alguém não-identificado surge do nada e parece ameaçador de carreira.  Espero o sujeito chegar mais ou menos perto e digo em voz alta:

–... É porque aqui na calçada do juiz Expedito... – e completo dizendo qualquer besteira.

Importante, para mim, é dizer que aquela calçada é a do juiz, não é de outra pessoa, não. E o juiz nem sonha que uso o nome dele para me defender dos mal-feitores que assediam o povo às seis e meia da manhã. Talvez ele agora sabendo disso me proíba. O fato é que só de estar sentada na calçada dele o povo me tem um respeito danado.

Esse dito cujo senhor vinha segurando em sua mão esquerda uma garrafa de bebida que de longe não identifiquei o que era. E veja, leitor, que o quarteirão de minha casa é bem esquisitinho: do lado direito só tem duas casas e do lado esquerdo um muro que vai de uma ponta à outra da rua. O homem pisou na minha calçada e pensei que ele ia tocar a campainha.  Não tocou, só olhou e foi para a calçada da vizinha. Lá, ele tocou.

– Triiiiiiiiiiiiiiim. – pelo interfone.

– Quem é?

–       Bom-dia, senhora (numa voz dura que só vendo), estamos aqui angariando

donativos para uma missão evangélica... A senhora tem um minuto?

E isso eu assistindo de camarote, sem poder dizer à minha vizinha que ele não estava em missão evangélica coisa nenhuma, que ele estava era bêbado.

– O que é que o senhor quer?

– Estamos num grupo, senhora, numa corrente de sessenta homens espalhados pelo quarteirão angariando donativos para uma missão evangélica.

– Só um instante.

Eu pensava mil coisas: e se esse homem atacar minha vizinha? Mas ela nunca abria o portão para ninguém, abriria para aquele homem? Ele não estava com sessenta homens, estava sozinho e até achei que ele podia estar querendo dinheiro para beber mais. Que agonia, a mulher ia mesmo abrir o portão e eu não podia nem gritar que ela não abrisse que o cara era malandro.

– Está aqui, meu senhor.

– Obrigado, senhora.

Ele guardou o dinheiro no bolso, não sem antes observar a expressão de minha vizinha que, acredito ter naquele instante notado a quem dera o donativo. Era tarde.

O homem que dissera ser de uma corrente de sessenta foi embora trocando seus passos.

Mais tarde, quase tardinha, meu interfone toca:

– Triiiiiiiiiimmmm!

– Quem é?

– Boa-tarde, senhora, estamos aqui num grupo de sessenta homens empenhados em angariar fundos par uma missão evangélica...

Pode até ser que eu tenha cometido uma injustiça, mas respondi sem o menor remorso:

– Desculpe, meu senhor, mas a dona da casa não está.

Que Deus nos traga a paz e até domingo que vem, leitor!

Livro no sebo

RUBENS COELHO – Escritor e jornalista –

E-mail: Rubens_coelho@hotmail.com

Tenho um amigo que é viciado em sebo. Nesse caso, trata-se de lugar onde se vendem livros usados, mas nem sempre velhos, como muita gente pensa. Pelo contrário. Às vezes, lá é encontrado livro novinho em folha denunciando que seu antigo dono não deve ter lido sequer as orelhas da obra, pelo menos não deixou vestígio quanto a isso. Conheço o assunto, pois também sou, sem nenhum constrangimento, verdadeira traça de sebo, razão pela qual afirmo o que estou dizendo.

Mas, voltando ao meu amigo chegado a um livro de segunda, terceira, quarta ou quem sabe de que mão, certo dia, visitando uma dessas casas de escritos rejeitados, deparou-se com um livro de poemas de minha autoria: “Navegando em mar revolto”, tristemente mal-posto numa tosca prateleira ao rés-do-chão. Ele, como escritor-poeta, ficou transtornado com o achado e as condições em que se encontrava. Mesmo já tendo a obra em sua biblioteca, o poeta tratou de imediatamente adquirir aquela que estava no inconveniente lugar. A surpresa e indignação foram maiores quando, ao folhear a segunda página do trabalho, leu a dedicatória feita por mim ao primeiro adquirente daquele exemplar.

Embora revoltado, meu amigo escritor-poeta escondeu-me o episódio, achava que a ocorrência poderia trazer-me desgosto e constrangimento, mas desabafou para outras pessoas de nosso relacionamento comum. Como o assunto logo se expandiu, terminou chegando ao meu conhecimento. Ao saber do caso, não vou dizer que gostei, pois ninguém fica satisfeito quando vê um filho maltratado, extraviado, abandonado, como diria o poeta Marcos Ferreira, outra vítima da mesma vileza. No entanto, identificando o causador da perrice, compreendi tê-lo feito talvez não por maldade ou desfeita, mas provavelmente premido pela carência de dinheiro para suprir suas necessidades básicas, o que é perfeitamente justificável. Essa hipótese plausível faz-me complacente em relação ao presumível ingrato.

Além do mais, não sou o primeiro, nem serei o último, a ter livro autografado em sebo. Isso acontece todos os dias até com escritores consagrados. Minha esposa Clarice contou-me que viu na televisão um depoimento do ator global Rogério Cardoso em que ele, dizendo-se um aficionado em livros e sebo, certa feita, visitando uma dessas livrarias, entusiasmou-se ao ver na prateleira uma obra de Coelho Neto. Retirou-a do local e perguntou ao vendedor quanto custava. O balconista, de maneira ríspida, respondeu: um real. O Rogério pagou o livro com a maior satisfação do mundo, apesar da inamistosidade do comerciário. Mas, por ter adquirido uma obra clássica a um preço tão irrisório, considerava uma glória. E ficou mais alegre ainda quando volveu a contra-capa do livro e se deparou com a dedicatória de nada mais nada menos que o próprio autor a uma pessoa de sua estima, segundo o patenteado no manuscrito pelo grande escritor brasileiro. Verdadeira relíquia.

Esse exemplo é a demonstração evidente do desprezo como são tratadas a literatura, as letras e a cultura em nosso país. Portanto, um escriba de província como eu não estaria isento de manifestações de indiferença intelectual em relação às suas publicações. Quanto a isso, jamais me aperrearei diante de comportamento incompatível com a inteligência virtuosa, desipuit, cunetis studuit quicumque placere (ensandece todo aquele que se esforça para agradar a todos), diz a máxima latina, da qual devemos tirar ensinamentos para melhor compreender as pessoas e viver melhor.

O relacionamento do Crato com o RN

O Crato mantém o melhor relacionamento com o Rio Grande do Norte, nos mais diversos setores culturais, educacionais e artísticos, principalmente com Natal e Mossoró.

No setor cultural, podemos destacar o relacionamento e amizade do escritor Câmara Cascudo, pai do folclore brasileiro, com os escritores e historiadores J. de Figueiredo Filho, padre Antônio Gomes de Araújo e Irineu Pinheiro; com o Instituto Cultural do Cariri e a Revista Itaytera, exaltando sempre a cultura e o folclore do Crato e do Cariri. Ultimamente, registra-se também um intercâmbio com a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC, sediada em Mossoró. O presidente da Academia de Cordelistas do Crato – ACC é um potiguar, o poeta Edésio Dantas. As poesias do norte-rio-grandense Zé Praxédi, o poeta vaqueiro, servem para abrir a programação da maior audiência diária já registrada pela Rádio Educadora do Crato, sob o comando do poeta e jornalista Antônio Vicelmo, das 5 às 7 da matina.

Na área educacional, podemos salientar os professores cratenses Vicente de Paula Madeira e Vera Lúcia Gomes Maia, esta que defendeu, inclusive, uma tese sobre o Caldeirão do beato José Lourenço, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Além disso, vários estudantes universitários do Crato cursam escolas superiores das Universidades de Natal e Mossoró – já tendo muitos deles se formado e se tornado bons profissionais nas diversas áreas – além do intercâmbio com a Faculdade de Filosofia e Universidade Regional do Cariri.

No campo artístico, o grande cantor, tenor e ator potiguar Agnaldo Raiol, de renome internacional, iniciou a sua carreira artística no Ceará, participando da programação inaugural da Rádio Araripe do Crato, pioneira do interior caririense, em 1951. Enquanto isso, a Orquestra Padre David Moreira, da Sociedade Lírica do Belmonte, regida pelo padre Ágio Moreira, se apresentou na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Mossoró, onde foi aplaudida de pé pelo grande público.

No setor técnico e científico, o engenheiro cratense Antônio Eduardo Gonçalves Esmeraldo já chefiou setor da Petrobras, na área de atuação desta na bacia potiguar, onde fez sucesso com a criação de um equipamento que aumentou a produção dos poços de petróleo, através da manutenção destes poços, que foram importantes para os trabalhos realizados por esta grande empresa no Rio Grande do Norte e Ceará.

Finalmente, nas áreas comercial e industrial, existe um intercâmbio do Crato com o grupo comercial e industrial da família Rosado.

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Mossoró-RN, domingo, 30 de março de 2003