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Paulo Locatelli

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Com os dias contados

À moda de muita gente que trabalha em jornal, também possuo meus quatro ou cinco leitores — tola e falsa modéstia. Sei perfeitamente que sou lido por mais de quinze pessoas, senão vinte. Anteontem, quando esperava um ônibus na parada do Hotel Caraúbas, um senhor veio me perguntar por qual motivo não escrevi no último domingo. Escrevi, sim. O porquê de minha ausência justifico semana que entra. Tenciono aqui responder a uma outra pergunta que ele me fez: “Por que o jornalismo literário é tão fraco no Rio Grande do Norte?”. Fiquei surpreso, dei uma opinião rasa e saí pela tangente. Hoje, portanto, sob o resguardo do tempo e da comodidade, retomo a pergunta e me arrisco neste comentário. Pois bem, professor Alceu — vou chamá-lo assim —, eis o que eu tinha a dizer-lhe e não disse. Só após o meu ingresso nesta escola chamada O Mossoroense (cujo contrato provisório fará dois anos neste primeiro abril), eu pude conhecer melhor a produção lítero-jornalística desta aldeia potiguar. Daí que ao longo desses vinte e quatro meses também observei como a categoria é diminuta, mal-amada e de pouca influência perante o caráter populista que a imprensa de agora assume. Cada dia mais, portas e janelas são fechadas para o jornalismo literário. Não existe audiência para outra coisa que não a tragédia, o escândalo e o sangue. Assim mesmo, repare que não estamos em tão completa inércia. Ainda reluzem na mina escura do verbo-arte pepitas de grande quilate como Dorian Jorge Freire, Carlos de Sousa, José Nicodemos, Vicente Serejo, Crispiniano Neto, Líria Nogueira, Franklin Jorge, Antônio Alvino, Mário Gerson, Carlos Meireles, Rubens Coelho, além de outro moço de luz própria chamado Cid Augusto. São operários e joalheiros da palavra, gente que sabe pensar o que escreve e escrever o que pensa. E retornando a Cid, falo de sua postura digna, de sua sensibilidade e convicção ao lhe pedirem o sepultamento deste encarte de prosa e verso que partilhamos nestes abençoados dias de domingo. Apesar de todo o prejuízo que o departamento financeiro sempre nos creditou, esta banca literária tem ganho algumas apostas e se mantém ativa neste universo da cultura potiguar. Por outro lado, quando passada a vez desses recalcitrantes que ainda colocam seus idealismos à frente de seus umbigos, num sacrifício da matéria perante o espírito, a indústria da ignorância e da alienação deve fazer rodarem, a todo vapor, as impressoras do jornalismo fútil mas rentável — esta a palavra-chave. Aqui mesmo, onde o Diabo perdeu as botas e o vento faz a curva, temos empresa de notícias que sacrifica um caderno cultural de oito páginas por um frívolo e nauseante painel de vaidades podres, tudo em nome da cifra e do cifrão. Certo que temos alguns jovens e competentes repórteres nos mais variados segmentos da informação, mas o homem de letras propriamente dito, este está com os seus dias contados. Como falei noutro momento, a alma é bronze e a carne é ouro. Mais vale para o térmico rendimento das bancas de jornais um corpo estendido sobre a pista do que a mulher que pare o filho no lastro balançante de uma carroça, a caminho da maternidade. É devido a esse gosto que se tem pelo fatalismo, que as páginas literárias despencam como folhas secas no estio da sensibilidade e da inteligência humanas. Posso assegurar-lhe, mestre Alceu, que mais nada nesta paróquia de santos e demônios, de homens e feras, me põe a folhear um jornal senão a pequena e brava trincheira literária. Pois meu compromisso enquanto leitor não é com as danças de cadeiras nem com o rútilo jogo de interesses praticado sobre os salões da vida postiça. Não tenho fígado nem prestígio para coisas dessa ordem. Meu coração é periférico e minha renda diária não chega a vinte dinheiros. Tenho sim, diariamente, a cada semana ou mês, encontros sagrados com esses parcos devotos da palavra que ainda mourejam sobre este solo glorioso de Poty. Eis o que eu tinha a dizer-lhe e não disse, mestre Alceu.

Autores & Obras

Alceu: A luz do nosso Farol

Por CARLOS MEIRELES
Bibliófilo
www.carlosmeireles.com.br

Quando comecei a ler os livros de crônica de Dorian Jorge Freire – Os Dias de Domingo e Veredas do meu caminho – fui apresentado a vários autores que, direta ou indiretamente, influenciaram na formação literária deste nosso “farol literário”. Muni-me de caneta e papel e tomei nota de todos os nomes por ele mencionados. A lista é um verdadeiro cânone literário: Jacques Maritain, Giovani Papini, Aldous Huxley, Goethe, Sartre, Machado e... Alceu Amoroso Lima. Este último, ele saudava sempre como mestre. Parei ensimesmado. “Se o mestre Dorian chamava alguém de mestre, só podia ser um escritor muito especial”, pensei. Saí, de anotação em punho, em busca da obra de Alceu. Infelizmente, sua grandiosa produção se encontra quase toda esgotada. Praguejei contra todos os editores. “Cambada de cultuadores de best-sellers sucesso de sonrisal”. Mas fã que se preza e bibliófilo de carteirinha de boa estirpe não se abate na primeira derrota. Invadi os sebos. Sofregamente pesquisei... No último visitado, fui brindado com um pequeno exemplar de Alceu, o nosso Tristão de Athayde, intitulado Ensaios N. 10 – Da inteligência à palavra, editado pela Editora Agir em 1962.

Chegando em casa, resolvi entabular minha primeira conversa-leitura com Alceu. Este pequeno-grande livro reúne cinco estudos/ensaios sobre “essa marcha do nosso espírito do silêncio interior à sua comunicação verbal”. Comecei a ler, aliás comecei a refletir. Mestre Alceu não é escritor que só se lê. Mestre desta envergadura, ensina-nos a pensar. Logo na introdução, ele deu o tom: “E o homem é tanto mais homem, isto é, tanto mais se aproxima da sua condição eterna, quanto mais sabe ouvir o silêncio e aproximar a sua palavra do Verbo que se fez carne para nos ensinar o silêncio de Deus.” Trata-se do melhor abre-alas literário que eu já li na minha vida. No primeiro ensaio, uma comissão de frente de arrepiar os nossos flácidos neurônios, sinta o tom: “O reconhecimento dos diferentes tipos de inteligência entre os povos, longe de nos levar ao isolamento, leva-nos naturalmente à compreensão recíproca. E esse é, pelo menos, um passo para evitar o pior, que é o antagonismo irredutível e destruidor pregado pelos fanatismos contraditórios. Como é o caminho no sentido de um ideal de aproximação maior entre os indivíduos e os povos.” Isto foi publicado em 1962! Devíamos enviar para os Bush deste mundo.

O pequeno-grande clássico está repleto de magias desse mestre. No último texto/ensaio, ele arremata e nos leva a apoteose: “As palavras, portanto, para aqueles como nós que delas vivemos, sejam sempre, do ponto-de-vista social, como do ponto-de-vista moral, um laço de união entre os homens e não um pomo de discórdia.” Parei, respirei fundo, fiquei de pé para aplaudir e reverenciar o mestre do mestre. Enfim, conheci Alceu: a luz do farol de Dorian Jorge Freire. Ave, Alceu! Bendito és tu entre todos os filhos das letras.

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Mossoró-RN, domingo, 30 de março de 2003