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Uma década etílica
Tom Cavalcante
Tom Cavalcante completa este mês dez anos de sua primeira aparição na televisão. A estréia do humorista aconteceu em 1993 com o bêbado João Canabrava, na “Escolinha do Professor Raimundo”, da Globo, com o “mestre” Chico Anysio. O personagem deu impulso à carreira do artista e hoje, nas noites de sábados no “Zorra Total”, deixou de ser aluno para se tornar um psicanalista nada convencional.
Após sua saída da “Escolinha”, Tom teve uma passagem bem-sucedida pelo dominical “Sai de baixo”, como o porteiro Ribamar. “Nós tínhamos um elenco fantástico. O ‘Sai de Baixo’ foi um acontecimento; causamos um grande frisson”, empolga-se.
No ano 2000, a Globo lançou o programa “Megatom”, projeto solo de Tom que ficou pouco mais de um ano no ar. Depois, ele emplacou o polêmico Pitbicha, no “Zorra Total”. A caricatura de um homossexual contrariou os grupos de defesa dos “gays” e, ao mesmo tempo, o colocou novamente em evidência. Atualmente, ele está no ar justamente com seus dois primeiros tipos na tevê: João Canabrava e Ribamar. “A tevê dá só uma amostra rápida do meu trabalho, até por falta de tempo”, garante Tom, que já viveu mais de 40 personagens, incluídas as imitações.
P - Há dez anos você surgiu na tevê com o Canabrava. Como manter o público interessado pelo personagem?
R - Oxigená-lo sempre, com novos textos, novas situações. O Canabrava nasceu na “Escolinha do Professor Raimundo” e era mais um aluno. No “Megatom” ele funcionou bem, mas apareceu pouco porque o programa era à tarde. Existia uma série de restrições por causa da criançada. Agora, no “Zorra”, consigo trazê-lo de volta com sucesso porque dá para ter uma abordagem para adultos.
P - Você está no ar com seus dois primeiros personagens na tevê, o Canabrava e o Ribamar. Porque outros tipos - além do Pitbicha - não se destacaram na “telinha”?
R - Na verdade, eu não pude experimentá-los. Alguns apareceram no “Megatom”, que foi um grande teste de personagens. Mesmo assim seis foram “limados”: um não podia entrar porque falava das sogras; outro de corno; tinha um que mexia com religião. Eu não podia fazer nem o Pitbicha já que era à tarde. Por causa do horário fui muito prejudicado.
P - No quadro do Canabrava no “Zorra” você aborda de forma escrachada o problema da saúde pública no Brasil. Como fazer essa crítica social com um personagem tão debochado?
R - Meu trabalho passa por isso, inclusive nos palcos. Fico muito feliz de a Globo ter aceito que eu pudesse mexer com isso. Hoje, existe todo um público das classes C, D, E, que agora tem acesso à televisão. Seja fazendo “gato”, puxando a antena do vizinho; todo barraco tem tevê. Então, me importa muito que minha linguagem atenda a esse público menos favorecido. É um recado para o cara que tem acesso à vida normal, com estudo e saúde, mas também saciar o humor desse povão que está com o “pires na mão”.
P - Seria uma forma de atender àquela máxima que diz que pobre gosta de rir da própria desgraça?
R - Eu não penso muito por aí, não. O que me motiva a fazer é, exatamente, uma idéia de “quem pode falar por nós”? Porque, na seriedade, ninguém fala nada. Politicamente, não acontece nada. Parece até piada. Em Fortaleza, há pouco tempo morreram 17 pessoas em 20 dias no SUS. Eu pego essa tragédia, transformo em humor e causo polêmica. Tem um lado muito sério por trás do meu humor, do meu escracho. É uma forma de dar voz a esse povão.
P - Há algum projeto para um novo programa solo?
R - No momento, não. Pelo meu contrato, eu estaria esperando para fazer um projeto de um novo programa. Então, aceitei o convite do Maurício Shermann para fazer o Canabrava como psicanalista no “Zorra”. Agora, meu projeto é lançar o show “Tom é Dez”, no Rio de Janeiro, em julho. Trabalhei nele por quase quatro meses. Como protagonista da história, posso dizer que está muito interessante. É um show com começo, meio e fim.
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Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003