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Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br
Les regards croisés
Walter
Benjamin em seu célebre relato sobre as Paisagens Urbanas é enfático
ao narrar seu sentimento quando de sua viagem a Moscou: “Plus rapidement
que Moscou lui-même c’est Berlin q’on apprend à voir de Moscou”.
Benjamin narra um sentimento produzido pela memória involuntária,
que diante de uma nova realidade insiste em nos restituir uma outra,
que faz parte de nossas lembranças. Através de um movimento, que
na maioria das vezes escapa a nossa vontade, nossa memória remete-nos
a nosso passado, levando luz a territórios que, por estarmos demais
familiarizados, éramos incapazes de diferenciar e reconhecer.
De fato, essa estadia em Paris tem proporcionado não raro esse sentimento de estranhamento e familiaridade, fazendo lembrar sempre a máxima antropológica, na qual: “Conhecer o outro é na verdade conhecer-se a si mesmo”. Trata-se da experiência única e intransferível de ser estrangeiro; ser Outro, que conduz a uma reflexão sobre nossos limites, nossas possibilidades, nossos defeitos e virtudes. Com isso pode-se ir além do olhar fotográfico e consumista do turista, acostumado a apreender a superfície das coisas e começar a exercitar o olhar antropológico, próprio àquele que vive no limiar e na fronteira e é capaz de experimentar a fluidez das identidades. A começar pelos embaraços da língua, a experiência do estrangeiro remete a um (re)aprendizado dos códigos e signos que balizam o convívio social.
Mas, não quero aqui reconhecer o obvio, isto é, que o Brasil ainda é um país de terceiro mundo com uma dívida social secular enquanto a França, com sua historia milenar, povoada de dinastias e revoluções seria uma espécie de modelo de Republica, com seu Walfere-state e sua rede de proteção social. Ou ainda, que enquanto São Paulo é uma cidade marcada pela desigualdade e violência, Paris seria a eterna cidade-luz cheia de glamour e poesia. Ao contrario, o que o olhar estrangeiro permite visualizar é, de um lado, uma França, tradicionalmente conhecida como a “terra da imigração”, às voltas atualmente com o problema da imigração ilegal, com seus “sans papiers”, oriundos de ex-colônias africanas e de paises do leste europeu e, de outro, uma Paris que vai além de seus museus e monumentos; uma Paris intra-muros, tecida nos corações e mentes de seus habitantes.
Com efeito, o que salta aos olhos é uma França às voltas com seus dilemas e embaraços ao relacionar-se com uma população de origem árabe cada vez mais numerosa e que faz do Islamismo a segunda religião do país. De fato, o problema da alteridade esta no centro na vida política e social francesa. Como criar mecanismos que integrem a população mulçumana ao estado laico francês? Como conciliar o direito à liberdade de expressão e religião com os ditames e as exigências da République? Há alguns dias a França foi sacudida por um debate sobre se as meninas mulçumanas teriam ou não o direito de freqüentar as escolas usando o foulard (o tradicional lenço que cobre as cabeças das mulheres adultas mulçumanas).
Pois bem, parece que o modelo do contrato social, construído há pelo menos duzentos anos e que fundamenta a construção da republica francesa expõe seus limites. Pois, se de um lado, o estado francês relega as identidades étnicas à esfera privada, buscando, assim, facilitar a assimilação individual dos imigrantes pela escola e outras instituições, de outro, percebe-se os limites dessa proposta, que visa, em ultima instância, uma assimilação jurídica e formal dos imigrantes.
Nesse ponto, talvez o Brasil apareça como uma luz, pois parece que a duras penas construímos ao longo de nossa historia um modo original de integração e convívio entre as diferenças. Vendo os dilemas que a França vive com seus imigrantes, em particular de origem árabe, o Brasil parece que conseguiu criar uma forma de sociabilidade diversificada e contraditória, capaz de integrar a todos, independente de suas origens étnicas e culturais, numa matriz comum, na qual cada um pode exprimir suas crenças e convicções.
Mas é, sobretudo, no cotidiano, no convívio diário com os franceses, que percebemos os limites e os contornos de uma forma de sociabilidade que é a marca característica da sociedade francesa: a polidez, com seus códigos de civilidade. Com efeito, parece que os franceses só visualizam a possibilidade de integração do Outro através do Estado e pela garantia de seus direitos políticos e sociais. Assim, no dia-a-dia, o que se vê é uma espécie de indiferença; um distanciamento que contrasta muito com a sociedade brasileira que, apesar da desigualdade social, ainda consegue mobilizar energias em torno da solidariedade e da reciprocidade; valores fundamentais de uma verdadeira ética da alteridade, na qual o reconhecimento do Outro é a base para a construção de uma cultura política democrática.
SOBRE O AUTOR:
Professor licenciado da Faculdade Casper Libero. Atualmente é estagiário de doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. E-mail: edicampos21@hotmail.com
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Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003