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Coisas que gostamos de ouvir, coisas que gostamos de falar
LÍRIA NOGUEIRA ALVINO – Escritora – antonialiria@uol.com.br
“Mamãe”.
Penso ser esta a número um em termos palavriais no quesito o que gostamos realmente de ouvir. Fiz uma pesquisa rápida, para não dizer relâmpago, com três ou quatro pessoas de meu convívio social e descobri que as palavras que geralmente nos parecem doces aos ouvidos são mais ou menos as que parecem doces também aos ouvidos de todo mundo. E a palavra mamãe, segundo os meus entrevistados, nunca cai de moda. Sendo dita por uma boquinha saudável de um filho que se quer bem, me asseguraram que essas cinco letrinhas tomam forma gigantesca e é como se o filho dissesse: venha aqui, maior das mulheres!, ao invés de simplesmente: mamãe.
“O que você fez no cabelo hoje?”
Logicamente, ouvir isso de alguém que está com o semblante tranqüilo e um certo ar de aprovação, característico de quem está gostando do que está vendo, é muitíssimo agradável. Dá até vontade de dizer: que é isso... são seus olhos....
“Quer carona?”
No sol de Mossoró, talvez essa seja uma das frases mais adequadas. Difícil. Ninguém mais oferece carona hoje em dia. Nem para conhecido se oferece mais. Pensasse logo no preço da gasolina e na desvalorização do carro no seu uso constante e no gasto do banco do passageiro e no incômodo de parar no caminho, e pensasse também que quando você não tinha carro dificilmente alguém parava para você, mas que é bom ouvir um oferecimento de carona no pingo do meio-dia, no começo da Leste-Oeste, há! Isso é!
“Não, pode dormir tranqüilo, aqui não tem muriçoca.”
Essa eu baseei em mim mesma, que durmo com fome, durmo com sede, durmo com raiva, durmo com frio ou com calor, só não durmo com a danada da muriçoca. Pequeníssima peste repelenta com aquele zunido infernal antecedendo à picada inevitável no seu quase, quase soninho bom. Se, por acaso, estou para ir a algum lugar, não me sirvam regalias, nem guloseimas, sirvam-me um bom mosquiteiro da pedra do mercado ou a certeza de que o lugar está livre, todinho, de muriçocas.
“Não tem problema, pode demorar mais um pouquinho.”
Um leitor, sabendo da confecção desse texto, enviou-me e-mail exigindo a publicação dessa frase como muito conveniente quando vindo da esposa na oportunidade do aviso que o marido não chegará, como de praxe, às seis horas da tarde na sexta-feira porque topou tomar um chope com o pessoal, como disse ele. Só que ele não sabe que eu mesma o vi com o pessoal. E esse pessoal era uma única pessoa, do sexo feminino, com uma cabeleira loira e uma minissaia. Estavam os dois num hapy hour danado. Mas deixe para lá, porque frase é frase e ele disse que gostaria de ouvir isso da esposa. Tudo bem.
E tem também o que adoramos falar. E não sei por que sentimos um certo prazer em emitir os sons dessas palavras como se a expressão delas nos tornasse pessoas mais interessantes, cheias de informações de última hora, ou como se até nos tornássemos pessoas melhores, o que quase sempre acaba sendo verdade.
“Rapaz, o carro ficou um maracujá, mas todo mundo escapou!”
“Não, pode deixar, fui eu que autorizei”.
“Estou levando um presente para você”.
“Pense, como a blusa que eu comprei é linda!”
“Vamos sair hoje?”
“Pode vir que já tenho o dinheiro para lhe pagar.”
“Não estou devendo nada este mês.”
“Ligue para meu celular.”
“Sou o pai daquele menino que está com o troféu na mão.”
Di Rocha, Grande Di Rocha do Rebouças, como disse o ilustre Emery Costa, você mereceu o posto. E lembrando de você, tem esta frase que já é a sua cara e que tanto é boa de ouvir como é ótima para falar:
“Posso ajudá-lo em alguma coisa?”
E como não podia ser diferente, meus entrevistados também asseguraram que frases como essa a seguir deixam o ser humano mais humano e mais forte, fazem do homem mais homem e do mundo um espaço melhor. E disseram ainda que ela pode ser dita, pensada, sair expressa apenas com um olhar e afirmaram que depois de dizê-la, geralmente as coisas, sem erro, dão certo. Como diz padre Sátiro, portanto, quando tiver a oportunidade, não deixe de dizer para quem precisa:
“Não tenha medo, eu estou aqui do seu lado.”
Até domingo que vem.
Carta aberta ao meu vizinho
MÁRIO GERSON – Escritor e editor do Clandestino
Prezado vizinho,
Sei que já nos conhecemos há muito tempo. Você cresceu conosco, jogou futebol conosco, aqui mesmo nesta rua! Um dia nos deparamos em encrencas e resolvemos tudo pacificamente. Creio que você lembra do dia em que assistimos, de perto, àquela horrenda e lamentável exibição de seus panos em plena rua? Você veio todo sem jeito, me contando, me contando... e eu só a escutá-lo. Lembro de você escutando Chico, Caetano, Gal, Elis, Tom Jobim, e ainda me lembro que você cantava, no banheiro, é claro, aquela:
“Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia!(...)”
A gente escutava coisas boas, brasileiras... Você me convidava, eu acompanhava e no final tudo terminava em boa música, em alegria, em inspiração... A gente refletia, lembra? Você elaborava uns versinhos pobres, mas, afinal, era um esforço. Não reclamava de nada, você, a não ser aquela choramingada clássica com respeito às finanças e à inflação. Lembra que sentávamos e tomávamos refresco de caju, porque você me dizia que a Coca-Cola era uma opressora, uma empresa que oprimia? Você não consumia os refrigerantes importados, as blusas com nomes em inglês ou em francês... e você, vizinho, nem se achava démodé, achava bom ser brasileiro, desses bem mulatos que carregam a espontaneidade nas veias. Uma vez, quando a gente tomava uma dose da mais pura caninha nossa, lembro que você se levantou e proferiu uma frase de Mário de Andrade: “Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil!” Foi uma euforia só; todos nós nos levantamos para aplaudir você. Você, meu vizinho, era um forte inimigo dos estrangeirismos, dos galanteios de Portugal, das agressões e invasões das línguas inglesa e francesa... Você me dizia:
– Olha, não agüento essa mania de estrangeirismos, esse consumismo exagerado da cultura alheia! Vamos dar um basta nisso!
E você protestava, alegre e bom brasileiro. Mas aos poucos, companheiro, você foi se esquecendo da gente, das reuniões que fazíamos aos domingos para lermos os escritos dos nossos autores, para debatermos a cultura brasileira, para enumerarmos nossos problemas lingüísticos. Aos poucos você foi se deixando levar, devagarzinho... devagarzinho... Já permitia que o refrigerante que patrocinava, na sua opinião, os males de povos pobres, chegasse à sua boca; já admitia, aqui e acolá, uma expressãozinha estrangeira e dizia:
– Ora, vamos compartilhar!
Hoje, vizinho, você chegou ao extremo: além de desvalorizar sua cultura, a empobrece. Encontrei-o, nas surdinas, a escutar uma música animal, degradante e ridícula... e você ainda pulava feito um asno! Depois o seu carro, que era onde a gente escutava Chico e Caetano e outros bons cantores e compositores, se transformou em “marmita”, em “locadora”, de quê?
Ora, vizinho, poupe-me! Que eu soube de suas novas manias: uma é dar boa-noite ou bom-dia noutra língua; primeiro, porque os outros vizinhos desconhecem; segundo, porque você acha sonoro... Até os meses, os dias, as estações do ano, disseram-me que você os fala em outra língua! Até sua pequena mercearia, daquelas bem à brasileira, hoje traz um enunciando, além de cômico, estranho: Mercearia Pop Estar. Agora, caro vizinho, só tenho a lamentar. Além de não valorizar mais aquelas boas músicas, você regrediu a estágios animalescos, chegando a imitar as vozes e os gestos de animais que se tivessem os sentidos que temos, ririam muito de você...
“Quem te viu,
Quem te vê!”
Por uma questão de segurança
IVANALDO XAVIER – Jornalista – Reg. 324-DRT/RN – E-mail: jidx@bol.com.br
Fala-se muito hoje em dia em segurança, especialmente os políticos, que tendem a prometer como uma das metas principais de seus mandatos, ditos populares. Pouco se tem feito para se proporcionar segurança para a população. Adquirir viaturas novas e desfilar com elas pelas ruas das maiores cidades do Estado, tem sido a prioridade número um dos últimos políticos detentores do poder no Rio Grande do Norte.
Porém, equipar a polícia com belíssimos e potentes automóveis e motocicletas rápidas e barulhentas não significa propriamente investir em segurança, e sim, investir em marketing. Se observarmos as viaturas das polícias militar e civil, dois anos depois de adquiridas, vamos perceber um amontoado de ferro velho que, na maioria das vezes, nem ao menos sai do lugar.
É necessário que procuremos culpados para esta situação, pois milhares de reais que saem dos nossos bolsos, pobres contribuintes, são investidos nessas viaturas e esses mesmos contribuintes estão carentes de segurança, à mercê dos assaltantes, estupradores, arrombadores, seqüestradores e outros “profissionais” diplomados pelas próprias escolas que deveriam recuperar e socializar bandidos, que andam livres pelas ruas da cidade, algumas vezes ao volante de máquinas muito bem “azeitadas”.
Difícil é culparmos os policiais, que algumas vezes não dispõem nem ao menos de combustível para sair à rua com as belas viaturas. É difícil de acreditar, mas a única manutenção que os veículos da polícia recebem são as ordens de abastecimento de 10 litros de gasolina ou um pouco mais por dia e passam, às vezes, dois anos para trocar o óleo do carter, que, de tão usado, termina por virar uma água de tão fino.
Mais difícil ainda é acreditar que essa “pobreza” tem determinado o nível de segurança que é oferecida para a população, pois os poucos policiais civis que ainda existem nas delegacias de Mossoró e outras cidades, acreditem se quiser, receberam dos delegados titulares de suas delegacias, segundo fonte segura, a recomendação de que não poderão mais fazer diligências sobre os delitos praticados contra os cidadãos e as suas residências, como arrombamentos ou assaltos.
De uns tempos para cá, os policiais somente saíram das delegacias para diligenciar sobre os assaltos às grandes empresas e bancos, envolvendo somas vultosas ou mesmo quando as vítimas foram pessoas importantes e conhecidas. A população está entregue aos delinqüentes. Para comprovar isso, é preciso apenas fazer um levantamento nas delegacias especializadas em furtos e roubos para checar os casos de arrombamentos residenciais solucionados ao mês.
Aos pobres que procuram uma delegacia de polícia, hoje em dia, é somente dado o direito de sair de lá com o famoso papel chamado BO – Boletim de Ocorrência, que no fundo, no fundo, não vale nada, pois não garante a devolução dos bens surrupiados pelos bandidos que resolveram levar dos pobres, quem sabe, para entregar a um chefão rico, invertendo a história de Robim Hood.
Segurança não pode ser praticada com marketing ou jogo de cena, nem muito menos com medidas de aparência, mas com atitudes firmes que dêem resultados, mesmo que de médio e longo prazo. Medidas como um verdadeiro aparelhamento da polícia, com armas e munições para os policiais, salários decentes, manutenção séria nas viaturas e um trabalho inteligente, baseado em levantamentos, estatísticas e investigações realizadas por policiais de um serviço de informação, bem remunerados e bem formados em uma academia única, para a polícia civil e militar, a fim de unificar os procedimentos.
Não se pode esperar competência em trabalhos realizados por policiais mal remunerados, sem equipamentos e ainda com uma formação voltada para a competição e a rivalidade entre si nas ruas das cidades. Não se pode exigir dedicação ao trabalho, de um policial que recebe um contra-cheque vergonhoso no final do mês e que tem uma única certeza na vida: vai faltar salário no final do mês para as despesas básicas de sua família. Não se pode esperar que um pai de família ponha a própria vida em risco, quando nem em vida consegue atender as necessidades mínimas de sua família com o salário que ganha.
O trabalho da polícia, tanto civil como militar, deve ser científico e até acadêmico. Não podemos mais lidar com o crime, hoje organizado, apenas com suposições e o famoso faro policial de alguns bons profissionais que ainda atuam nas delegacias e batalhões militares. Os bandidos que são presos hoje, amanhã serão soltos porque as provas contra eles não são convincentes. É preciso que a polícia comece a preparar os policiais como peritos em busca de provas concretas e evidências convincentes. As polícias mais avançadas do mundo já estão na era do DNA e DNA para nós ainda significa: De Nada Adianta.
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Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003