Baixos salários é o principal fator de investimentos no RN

CRISTIANO ROJAS
Da Redação
rojas@omossoroense.com.br

Praticamente inexistem aptidões efetivas no Rio Grande do Norte para atrair investimentos, seja em relação ao tamanho do seu mercado, seja no que tange à presença de capital humano.

Essa foi a conclusão a que chegaram a economista Sandra Cavalcanti, da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN), e a professora Ângela Ferreira, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN.

As duas apresentaram em agosto de 2002 um estudo publicado pela Universidade de Barcelona, na Espanha, em que analisam a inserção espúria do Rio Grande do Norte na globalização, considerando a mão-de-obra barata como fator de atração.

Nesse tocante, o estudo pode, talvez, explicar o porquê o crescimento industrial do Estado nos últimos cinco anos foi tão inexpressivo, segundo o Cadastro Industrial apresentado na semana passada pela Fiern.

A princípio uma coisa não tem nada a ver com a outra. E não há sequer uma co-relação. Mas o fato é que o número de indústria no Rio Grande do Norte entre 1998 e meados de 2003 pulou de 1.950 para apenas 2.050 unidades fabris, o que é muito pouco.

ATRAÇÃO – O estudo das pesquisadoras levou em consideração as potencialidades econômicas, política local de atração de investimentos, nível de renda, salários e qualificação da mão-de-obra.

De acordo com ele, os principais motivos de atração de investimentos para o Estado são os baixos salários e a mão-de-obra abundante, apesar das potencialidades e da existência de estímulos governamentais.

Aliado a isso tem um outro problema, que é a precariedade escolar da população potiguar, o que só faz reforçar a inserção espúria do Rio Grande do Norte no mercado.

Ainda segundo as pesquisadoras, “embora os contrastes de desenvolvimento façam parte da realidade histórica do País, a política adotada pelo governo federal de priorizar a construção de uma infra-estrutura seguindo apenas as tendências apontadas pelo mercado, acabaram por reafirmar as desigualdades internas e reforçar a condição dos espaços relativamente desenvolvidos como os mais aptos para atração de investimentos”.

Entrada de capital privilegiou regiões mais ricas

A entrada do Brasil no mundo globalizado no início da década de 1990 trouxe muitas mudanças e aprofundou ainda mais as desigualdades regionais, visto que a entrada de capital privilegiou em doses generosas as regiões mais desenvolvidas do país.

“A menos que se trate de empreendimentos intensivos em mão-de-obra, onde o custo do fator trabalho passa a ser estratégico para a acumulação. Nesse caso, as empresas tenderão a se localizar onde a mão-de-obra é abundante e barata”, diz o estudo.

Dessa forma, o fator atrativo de investimentos para o Rio Grande do Norte no processo de globalização acabou resultando em baixos níveis salariais. Acrescente-se a isso as grandes desigualdades de desenvolvimento dentro do próprio estado.

Os investimentos feitos maciçamente na capital acabaram por não contemplar igual e uniformemente todas as regiões do Estado, de modo que hoje os problemas ligados à mão-de-obra e até de oportunidades de trabalho e investimentos são muito mais acentuados no interior que em Natal.

Dificuldades não devem ser superadas
a curto prazo

No Rio Grande do Norte, os incentivos e projetos locais ensaiados na tentativa de dispersar investimentos para o seu espaço, quando chegaram a se concretizar, não foram capazes de renovar o perfil da economia.

Essa foi outra conclusão a que chegaram Sandra Cavalcanti e Ângela Ferreira. As mesmas velhas atividades em sua versão reestruturada emergiram e renovaram o perfil dos postos de trabalho.

“Ao mesmo tempo, o núcleo dos serviços industriais de utilidade pública diminuiu de tamanho, mas sem compensar na mesma proporção, o corte dos empregos de melhor qualificação e salários”, diz o estudo sobre a inserção do estado no mercado globalizado.

DINÂMICA – Para as pesquisadoras, a nova dinâmica da economia não tem conseguido oferecer oportunidades de trabalho para perfis extremos de qualificação. Dos melhores aos menos qualificados.

Elas crêem, e chegam a ser categóricas ao afirmar que não deverá ser nada fácil superar essa inserção espúria tão cedo. Um desafio que em curto prazo não deverá ter solução.

Apontam ainda que “políticas locais ativas voltadas para o desenvolvimento das potencialidades naturais podem ser exeqüíveis, entretanto, elas poderão encontrar o próprio limite em uma insuficiente educação básica ou formal para o trabalho”.

A solução definitiva, segundo o estudo, deve incluir o ciclo educação, trabalho, emprego, renda, mercado. Entretanto, o tempo de espera por seus resultados efetivos não deve ser inferior a vinte anos. Cabe a opção aos nossos governantes. 

 

 

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Mossoró-RN, sexta-feira, 30 de maio de 2003