CLÁUDIO MONTEIRO
 
 ATUALIZAÇÕES ÀS QUINTAS
 


Queda-de-braço dos juros altos

No episódio deste mês de maio da queda-de-braço pela manutenção, ou não, da política de juros altos, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,  quis testar se estava de pé  o pacto-compromisso que fez com  o presidente Lula para aceitar assumir o cargo.

Deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás, Meirelles teria, por exigência da lei,  que renunciar definitivamente ao mandato na Câmara  —  sem direito a arrependimento  —  para poder assumir a presidência do BC. Fosse por um mês, fosse por 4 anos. Como nunca rezou na cartilha do PT e como sabia que o cargo é de confiança do presidente; sujeito à pressões políticas e às mudanças de humor do mercado, cuidou da própria estabilidade no emprego.                              

Pactuou com Lula e os expoentes do PT  —  que encontravam dificuldades para fechar um nome digerível pelo mercado  —   que aceitava a função desde que o BC fosse completamente autônomo já no início do novo governo. Henrique Meirelles conseguiu mais. Conseguiu obter o compromisso e a garantia de que o governo, com sua maioria no Congresso Nacional,  encaminharia e faria aprovar a transformação do  Banco Central em órgão totalmente independente do poder executivo. Mais ainda: com mandato fixo para toda diretoria e que o presidente do BC passaria a ser indemissível. Nem mesmo o próprio presidente da República poderia demitir o indicado durante o mandato estabelecido em lei.

Pois bem, desde que assumiu,  Meirelles defendeu e conseguiu convencer Lula e os membros da equipe econômica do governo,  em manter a equivocada política de juros altos do governo FHC. Nas reuniões mensais do Comitê de Política Monetária do BC (COPOM) é obvio que prevalece sua opinião, respaldada, também é óbvio, pelo Palácio do Planalto. É balela afirmar que Lula não tem conhecimento prévio do percentual estipulado pelo BC para a Taxa Selic.

Neste quinto mês consecutivo de juros altos,  Meirelles resolveu fazer um tour de force com seus críticos internos e externos e manteve a Selic nos estratosféricos  26,5%, sem nem ao menos indicar viés de baixa para junho... Bateu de frente com muita gente graúda de dentro e de fora do governo. Entre os que chiaram o vice-presidente da República, José Alencar, publicamente; e o braço direito de Lula, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que reclamou dos juros para militantes do PT, sem saber que a reunião estava sendo gravada por uma emissora de TV. Meirelles ganhou a parada. Ganhou o round. Está prestigiado por Lula e o pacto de autonomia do BC mantido. Ganhou Meirelles, perderam a Nação e os brasileiros !!

Sem duvidar da competência dele, é preciso que se diga que a visão da Economia, os interesses e o pensamento de Meirelles são diferentes dos empresários e dos trabalhadores. Comunga ele, que foi presidente mundial do Banco de Boston, como é de todo natural, com o ideário e os interesses dos banqueiros. Tanto é assim que o único segmento da sociedade que defende, de forma unânime,  a atual política de juros é o dos bancos e instituições financeiras. Raciocinem comigo: se Lula tivesse escolhido para presidente do BC um diretor da FIESP ou um economista do Dieese, é óbvio que qualquer um dos dois  —  cristalizando, também naturalmente, os interesses de suas respectivas classes de atuação —  já teria promovido a baixa dos juros.

Independente de quem esteja no leme do Banco Central, já caíram por terra todos os argumentos para manter os juros em patamares escorchantes. Todos os índices apontam queda acentuada da inflação para cerca de 0,5% ao mês; há uma visível retomada da estabilidade econômica; o risco-Brasil despencou de 3 mil para 700 pontos com os investimentos estrangeiros voltando;  e o dólar que bateu nos 4 reais, flutua no bom patamar de 3 reais. De 48 meses, Lula já cumpriu mais de 10% do seu mandato! Esperar mais quanto para determinar a baixa dos juros ???

Uma boa semana para todos  —  retomada a estabilidade é necessário retomar o crescimento econômico que gera empregos. Isso só acontecerá com a queda dos juros  —   quinta-feira   (05/06)  eu volto. Traduzindo a Economia para o seu dia-a-dia!  

 

CLÁUDIO MONTEIRO

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Mossoró-RN, quinta-feira, 29 de maio de 2003