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Entrevista

Dr. Ronaldo Fixina

Reconhecido como um dos mais competentes profissionais da área médica de Mossoró, o médico anestesiologista Ronaldo Fixina Barreto, de 45 anos de idade, é o entrevistado deste domingo no caderno Universo de O Mossoroense. Nesta entrevista que gravamos numa das salas da Casa de Saúde Dix-sept Rosado, onde ele também presta seus serviços à população, Ronaldo Fixina fala da importância de haver o mínimo contato possível entre o paciente e o profissional em anestesia, uma distância e falta de informação que ao longo do tempo só tem gerado muito tabu e insegurança. Ele traça ainda um perfil da saúde pública local e fala da importância de o profissional em Medicina empenhar-se em acompanhar as evoluções e novidades de seu meio. Paraibano da cidade de Catolé do Rocha e formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), tendo também obtido especialização em Santos-SP, Ronaldo Fixina é o principal representante da Associação Médica de Mossoró, onde ele organiza projetos e coordena trabalhos junto à classe menos favorecida dos mossoroenses.

Por MARCOS FERREIRA
Foto: Luciano Lellys

O MOSSOROENSE – Doutor Ronaldo Fixina, o senhor é paraibano, de qual cidadede?

RONALDO FIXINA – Eu nasci em Catolé do Rocha, sertão paraibano, aos 23 de setembro de 1957. Vim à luz na minha própria casa, num tempo em que a assistência à mulher grávida não oferecia as oportunidades que dispomos nos dias de hoje.  

OM – Há quanto tempo o senhor está em Mossoró?

RF – Cheguei a Mossoró em 1992, portanto são onze anos que resido aqui. Inicialmente, eu comecei a fazer uns plantões na Maternidade Santa Luzia, isso apenas aos finais de semana, como também no Tarcísio Maia, que à época era Tancredo Neves, sob a administração do doutor Eider. E pouco depois foram aparecendo outras oportunidades na Santa Luzia, passando de um para dois dias, depois três dias, e assim se passaram dez anos, com diz o compositor.

OM – Como foi a sua vinda para a cidade?

RF – Eu concluí minha residência na cidade de Santos-SP, e minha família sempre teve vontade que eu viesse morar em alguma cidade aqui por perto. Então, a oportunidade surgiu quando eu voltava de um passeio por Fortaleza. Eu passei ali por perto onde funcionou o antigo Banco do Estado, aqui em Mossoró, e achei uma cidade muito interessante, com um comércio bastante movimentado, de uma gente simpática, e eu acho que, assim à primeira vista, foram esses os motivos que me fizeram ficar aqui até os dia de hoje.      

OM – Sua formação foi mesmo em São Paulo?

RF – A conclusão do meu curso de Medicina se deu na cidade de João Pessoa, no ano de 1987, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mas fiz especialização na cidade paulista de Santos.  

OM – Como foi a sua opção pela área da anestesiologia, o senhor que é hoje em Mossoró a maior autoridade nesse assunto?

RF – Dentro de uma universidade, mesmo se tratando de uma instituição federal, a gente não tem a oportunidade de aprender praticamente nada. Entretanto, sob o amparo de leis hipócritas e levianas, é conferido ao médico recém-formado o direito de exercer todas as especialidades, da maneira que melhor lhe aprouver, isso a depender unicamente de sua consciência. Pois, se a pessoa não tiver consciência, ela sai fazendo de tudo com o simples diploma de Medicina na mão. Então, assim que concluí o meu curso na Universidade Federal da Paraíba, eu fui imediatamente fazer uma especialização em anestesia em Santos. E hoje eu posso dizer que anestesia já faz parte da minha vida. Eu respiro anestesia durante as vinte e quatro horas do meu dia.  

OM – Houve algum momento, durante a sua vida acadêmica, em que o senhor cogitou ingresso em outra área da Medicina?

RF – Se é que existe alguma coisa de vocação nesse meio, então eu posso lhe dizer que sou um vocacionado para esta área em que atuo. Eu sempre quis fazer anestesia. Nunca tive nenhuma dúvida, nunca vacilei sobre essa questão. Passei por todas as cadeiras do curso sem que nenhuma outra me seduzisse. Inclusive, quando eu já estava fazendo o nosso estágio final, que a gente chama também de estágio rotatório, eu fugia um pouco às outras disciplinas para me dedicar com mais aproveitamento ao estudo da anestesia.

OM – Nos dias de hoje, já existe, por parte das pessoas, o interesse de se conhecer os procedimentos do médico especialista nessa área?... Como o senhor avalia a importância de o paciente buscar esse contato prévio com o profissional em anestesiologia?

RF – Até que em Mossoró a gente já dispõe de um consultório de anestesia. Eu mesmo, na medida do possível, presto esse serviço num consultório que trabalha justamente sobre esse propósito, mas isso tem algumas implicações. Por exemplo: pra você ter um consultório desses, é necessário que você esteja ali disponível todas as horas e, infelizmente, esse tipo de trabalho ainda é economicamente inviável em Mossoró. A saída vem sendo a consulta marcada com alguma antecedência. Porque se você ligar, a gente disponibiliza um telefone (o contado com o doutor Fixina pode ser feito pelo número 972-2992), você marca e a gente consulta, e isso é de fundamental importância.   

OM – As pessoas ainda têm muito receio de ficarem paralíticas durante um processo dessa natureza?... Qual a possibilidade disso ainda ocorrer nos dias de hoje?

RF – Infelizmente, ainda existe muito tabu com relação a esse assunto, embora seja bem menos do que noutros tempos. Mas o paciente tem muito medo, ele pensa que não vai mais acordar ou que vai ficar aleijado, coisa desse tipo. Porque tudo isso fazia parte da grande distância que havia entre o paciente e o profissional anestesiologista. Pois é muito comum que, ao submeter-se a uma cirurgia, você tenha hoje várias oportunidades de relacionamento com o médico que determina a necessidade da operação, já que o médico pede exame, você volta, trás o exame, telefona, ele passa remédio, conversa, e isso em numerosas oportunidades gera uma mínima aproximação de ambas as partes. Já com algumas pessoas da anestesia, você vai ter o contato com o médico somente na sala, quando o cara já está de gorro, de mascara, e na correria desse trabalho você não tem a oportunidade de conversar nada com o anestesista. Portanto, isso é tão ruim para o paciente quanto para nós. Quando temos chance de conversar com a pessoa algum tempo antes do procedimento, isso é mais importante e vale mais do que a medicação pré-anestésica que a gente faz na sala de cirurgia ou na hora do internamento. Apesar dos tabus e da falta de informação de muita gente, há também ocasiões em que o paciente faz questão de dizer que só entra na sala de cirurgia se lá estiver para atendê-lo um determinado profissional em anestesiologia. E isso é algo que nos gratifica muito e que representa também que muitas de nossas metas estão sendo alcançadas.

OM – Como o senhor avalia o papel, a importância do anestesiologista na sala cirúrgica?

RF – O médico anestesiologista é um anônimo vital. A gente faz tudo de heroísmo, a gente fica monitorizando o coração, a gente faz o seu pulmão respirar a contento, enfim, a gente faz todas essas coisas e, às vezes, quando você não dispõe de um consultório, isso tudo pode passar despercebido. Daí que também ocorre de passarmos por certas situações até desmerecedoras. Algumas pessoas que trabalham dentro do próprio hospital, por exemplos, costumam dizer o seguinte: “Olha, lá vem um médico e um anestesista”. Isto é, dizem assim que a gente não é nem médico.

OM – E qual a diferença entre anestesiologista e anestesista?

RF – O anestesista é um prático, ele é um médico qualquer que se arvora de um profissional, um sujeito ousado, corajoso e eu vou mais à frente e chamo até de irresponsável, pois essa pessoa também faz a anestesia sem uma especialidade. Porque eu não admito, na minha cabeça não entra de jeito nenhum, que um médico que se formou há no mínimo dez anos, com as limitações e deficiências que possui o nosso sistema de ensino superior, se esse médico não fizer uma especialização, representará um risco para todo mundo. Já o anestesiologista, este é um estudioso, um profissional que entende da farmacologia, da fisiologia, da clínica do paciente e possui uma visão mais abrangente de todas as situações que estão acontecendo com o paciente, isso antes, durante e depois da cirurgia.

OM – Como o senhor classifica o nível da medicina de Mossoró, visto sob a ótica da Associação Médica local?

RF – A medicina de Mossoró, atendo-me tão-somente a este período em que estou aqui, eu posso dizer que ela evoluiu em muitos aspectos, mas tem algumas coisas que considero esquisitas, pois a gente consegue determinados instrumentos ou alguns avanços na medicina e, inexplicavelmente, ocorrem alguns retrocessos.

OM – Quais retrocessos seriam esses?

RF – Por exemplo: aqui em Mossoró, a gente já teve um intensificador de imagem, um aparelho que usamos quando precisamos fazer a redução de uma fratura e você pode acompanhar, através de um monitor, todo o processo de aproximação e encaixe. Isso a gente já teve aqui e hoje não tem mais. Outro detalhe é que, em Mossoró, a gente já fez grandes cirurgias da ortopedia e hoje há uma redução espantosa nesse número de cirurgias, o que atribuímos a alguns fatores talvez fáceis de explicar, que seriam possivelmente devido à má remuneração ou descontentamento de algumas categorias.

OM – E por que ocorrem tantas transferências de pacientes para tratamento clínico e cirúrgico em capitais como Natal e Fortaleza?... Mossoró não dispõe de profissionais ou equipamentos para atender a esses casos?

RF – Essas são situações que eu também não entendo e que discordo firmemente. Por exemplo: se você hoje em Mossoró não tiver dinheiro ou um convênio e um filho seu tiver um fratura do rádio, que é uma cirurgia aparentemente simples, podendo ser resolvida com uma incisão e uma haste de metal intramedular; ou, para darmos outro exemplo, se uma companheira sua passou por um aborto e necessita fazer uma curetagem, certamente você encontrará muito obstáculo para contar com atendimento para esses dois procedimentos extremamente simples. Por outro lado, aqui se fala em cirurgia cardíaca. Tudo bem, eu acho que a gente deve pensar nessas coisas, vamos pensar grande pra gente fazer cinqüenta ou setenta por cento, só que eu também penso que isso deveria ocorrer gradativamente. Pois é enorme a transferência de pessoas para outros centros. Nós, que convivemos com as dificuldades no Tarcísio Maia, sabemos muito bem o quanto a situação é precária. Portanto, no mais das vezes, isso depende muito das condições técnicas que oferece a estrutura hospitalar. Eu posso estar superpreparado na minha anestesia para resolver determinada situação, mas, se eu não tiver o equipamento mínimo necessário, minha mão somente não pode resolver nada.

OM – No que diz respeito a médico-cirurgião, Mossoró conta com bons profissionais nessa área?

RF – Aqui nós contamos com cirurgiões excelentes. Já realizamos cirurgias grandes, como tivemos a oportunidade de mostrar agora numa exposição que fizemos. A mesma cirurgia pela qual passou o finado governador Mário Covas, em São Paulo, a gente já fez aqui cerca de oito, com a feliz diferença de termos obtido sucesso. A gente fez agora no Tarcísio Maia, quando só há relato em toda a literatura médica de apenas cem casos no mundo inteiro, uma cirurgia de grande porte que em qualquer outra cidade se mobiliza o hospital todo, e aqui nós realizamos quase sem condições, embora sempre agindo dentro da responsabilidade e da consciência médica necessárias.

OM – Sobre a Associação Médica de Mossoró, da qual o senhor é o principal representante, que projeto essa instituição apresenta hoje em benefício da qualidade de vida do mossoroense?

RF – Um dos projetos que considero de grande importância nesta minha administração diz respeito a um trabalho que a gente ainda está desenvolvendo chamado “Conhecendo o Trabalho Médico”. Como isso é feito?... Nós estamos passando nos colégios da rede pública de ensino, onde supostamente estão aquelas pessoas com as quais a classe médica precisa estabelecer uma relação médico/paciente o mais humana possível. Porque são essas pessoas, inseridas numa categoria social menos favorecida, que precisam ser esclarecidas e conscientizadas da situação em que se dá o trabalho de um médico dentro de um hospital que, no mais das vezes, tem uma estrutura precária e ineficiente. Então, esse nosso trabalho busca estabelecer o melhor relacionamento possível com essa gente. Porque se não for assim, também através da palavra e da prática de uma medicina o quanto mais humanizada possível, nós não estaremos fazendo grande coisa pela sociedade.

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Mossoró-RN, domingo, 18 de maio de 2003