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Mães superprotetoras em tempos de meninas superpoderosas
O medo, a paranóia e a tensão diante da crescente violência urbana estão fazendo com que muitas mães queiram “superproteger” as filhas, que, por sua vez, não abrem mão da liberdade e independência. Quais os limites entre orientar para a vida nas ruas e querer controlar a vida das garotas?
Segundo a psiquiatra Vera Lemgruber, presidente da Aperj – Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro, a violência urbana atual é uma realidade incontrolável e insuportável dentro dos padrões de vida adequados a uma sociedade civilizada. “Por isso, infelizmente, não são poucos os pais que tomam atitudes de proteção e precaução semelhantes às de períodos de guerra declarada”, explica.
“Seria inconseqüente se os pais hoje, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, não se preocupassem muito com a segurança dos filhos”, diz. Para ela, nesse contexto, a característica “superprotetora” de muitas mães não remete, necessariamente, a um distúrbio de personalidade, nem tampouco a uma doença, “ainda que mulheres com algumas dificuldades pessoais possam apresentá-la”.
A “idish mama” judia, “la mama” italiana e a mãe do filme “Meu casamento grego” são exemplos caricatos de mães que “superprotegem” os filhos. “Muitas vezes, são formas de criar os filhos próprias de determinadas culturas e enfatizadas pelos meios de comunicação”, analisa. Mas quais seriam as características predominantes de uma “mãe superprotetora”, independente da cultura à que pertença?
A psiquiatria responde: interferência exagerada nos assuntos dos filhos, tolhendo a liberdade de ação e de escolha deles; dificuldades de viver a própria vida, o que leva a uma tentativa desastrosa de viver a vida dos filhos; projeção de anseios e expectativas pessoais não realizadas, o que pode levar à “supermãe” a planejar, decidir e até realizar para os filhos projetos que nem sempre têm a ver com os desejos deles; etc.
Na opinião da médica, quais seriam as conseqüências mais comuns na vida adulta de um filho “superprotegido”? “Geralmente, há uma tendência à dependência das figuras de autoridade ou mesmo dos próprios pais. Menos freqüentemente, podem surgir rebeldia ou revolta ante às autoridades. A situação de inferioridade pode se manifestar de várias formas, como alcoolismo ou dependência de drogas; incapacitação profissional, sexual ou afetiva; fobia social, etc.”, afirma.
Hoje, vive-se em tempos de “meninas superpoderosas”, que, desde muito cedo, querem ter os mesmos direitos e, não raro, os mesmos comportamentos “caçadores” dos rapazes. “Superprotetoras” ou não, como as mães devem lidar com essa nova postura das garotas “liberadas”?
“A questão dos limites é uma variável que mudou demais nas últimas décadas. As mulheres criadas antes da revolução dos costumes dos anos 60 tiveram de batalhar por liberdade e mudaram significativamente os comportamentos e a moral vigente. Para conquistar independência financeira, profissional e sexual, elas precisaram se opor à geração de suas mães, educadas ainda no esquema antigo”, explica.
Porém, para a psiquiatra, o excesso de valorização da liberdade de ação e sexualidade acabou criando problemas para os pais de hoje. “Alguns problemas são relativos à dificuldade de se colocar qualquer restrição e limites à liberdade dos filhos, que acabam sendo expostos a situações pouco saudáveis, como, por exemplo, a sexualização exagerada da infância. Muitas vezes, as crianças são impedidas de usufruir de um período de desenvolvimento tão importante como a infância”, conclui Vera Lemgruber.
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Mossoró-RN, domingo, 18 de maio de 2003