Capa

Poesia

Janela Aberta

Artigos

Especial

Informática

Arte & Idéias

Paulo Locatelli

Interligados

Entrevista


Moça Branca

Foi a primeira vez que nos olhamos honestamente. Era dezembro e ela fazia vinte anos naquele domingo primeiro. Daí a audácia e a necessidade premente de oferecer-lhe o poema. Sabia de sua estima por essa arte e fui adiante. Confiei ao papel as palavras que sempre emudecera sob a língua. A Poesia era o símbolo e o instrumento da confissão. Enviei-lhe o envelope por um amigo comum, lacrado com excesso de cola. Dentro, dobrado em duas partes, o seu poema de aniversário, mais passional que poético. Assinei com mão trêmula o seguinte pseudônimo: “Francisco Bordel”. Era um nome que eu já lhe informara há duas semanas. Daí a pouco a máscara de nossa amizade foi se despregando do rosto. Abrimos o peito e escalamos a verdade. Quanto ao poema?... Era assim magro e comprido. Ocupou meia página do papel ofício. Todo em versos brancos, sem metro e sem rima, isento de outros brilhos e glórias. No entanto, ela gostou. Guardava-o com muito zelo e interesse, a exemplo de outros versos que lhe fiz. Mas quanto segredo inútil, meu Deus!... Quanto platonismo e ansiedade experimentamos no crisol daqueles dias, sob o ópio vulcânico de nossa juventude! Pois Moça Branca — vamos chamá-la assim daqui por diante, em simples e clara referência à sua pele de perfumosa açucena — foi o meu cálice tardio, a embriaguez extemporânea de minh’alma. Assim nos entregamos e nos amamos por quase trinta segundos. Isso mesmo que você ouviu. Menos de trinta segundos. Um único e eterno beijo na esquina do jornal. Depois o recuo e o medo, o silêncio e a distância. Naquele tempo eu acabara de me casar pela segunda vez. Ela puxava um namorico insosso com um rapaz do Fórum. Mas uma relação de muitas penas e decepções. O cara só tinha fantasias e vigor para a magistratura. Um tipo alheio a sentimentalidades e romantismos, arraigado em seu mundo prático e confortável. Moça Branca não era aquilo. Havia muita insatisfação e urgência em seus negros olhos. Uma pressa ardente e dissimulada de viver e sentir cada hora de seu dia, de beber a vida em enormes e apinhados cântaros. Achei mesmo que se comovera com a carne viva de minhas palavras, com a luxúria e o apelo de meu verbo. Deu-me a entender mais ou menos isto a sua fala contida e cheia de recatos, próprio de seu espírito de pomba assustada. Mas era a sua maneira tímida e às vezes preocupante de contar-me algo, ali entre a inocência e a sedução. Foi sobre meus ombros, junto a este peito amante, que outro dia ela veio desmanchar-se num forte e inesperado abraço. Isso bem antes de nos confessarmos atraídos um pelo outro. Sussurrou ao meu ouvido a sua indignação e chorou nervosamente quando um colega de trabalho lhe disse absurdos numa discussão comercial. Veio diretamente entregar-se ao meu abraço, ignorando outras personagens daquele ambiente. Fiquei basbaque e ao mesmo tempo honrado. Os dois ali expostos aos olhos incrédulos e invejosos de outros senhores da empresa. Levei-a até a cozinha e ela explicou-se melhor, ainda magoada e constrangida, entre um e outro soluço. Daí que muitas águas rolaram sob a ponte de nossas vidas e fomos perdendo a cumplicidade, a Poesia daquele amor proibido. Até que certa noite, insegura de nossa sorte e do próprio amor que sentia por mim, Moça Branca virou-me as costas e foi-se embora com o jovem e promissor advogado. Durante muito tempo eu não obtive qualquer notícia de seu paradeiro. Mas o diabo é que nos últimos três anos, sem falhar um só mês, ela vai ao correio paulista e manda uma cartinha dessas para me tirar o sossego. E agora só fala em livrar-se do esposo. — Você tem coragem?... — Pergunta-me ela aqui num trecho da carta. Coragem pra isso eu não sei se tenho. Mas também não sei dizer o que eu não faria nesta vida para estar com Moça Branca outra vez em meus braços. Ainda que por apenas vinte ou trinta miseráveis segundos.

Janelão   

Engoli a corda e, como se diz popularmente, arranjei esta sarna pra me coçar. Pois está visto que nossa Janela Aberta tomou ares de janelão, o que também aumenta a nossa responsabilidade e requer do amigo leitor um tantinho mais de paciência para com este tangedor de mulas e ex-sapateiro.       

Furta-livros

Aqui na ponta da pena, quase caindo, o nome de respeitado intelectual desta cidade que revelou-se (ou foi descoberto?) exímio ladrão de livros. Mas não há quem me faça dizer de quem se trata, como querem alguns. Lamento só que todo o roubo desta aldeia não seja o literário! Oh, raça desunida!  

Traços

Colaborador desta página literária, o poeta e desembargador Carlos Newton Pinto  lançou há pouco o CD Traços, que intercala alguns de seus melhores versos com músicas de ótima qualidade. Algumas faixas do disco serão executadas logo mais às 18h no programa Beatlemania, da FM 93,7.    

Airton Cilon

Poeta, músico, artista plástico e pai solteiro, nosso bravo Airton Cilon aceita mais um desafio. A partir do dia 25 deste mês, ele estréia como locutor de rádio. O poeta da luxúria apresentará a cada domingo, das 15 às 16 horas, pela FM 96.5, o programa Vesperal Cultural. E viva a arte!

Seminário

Com o apoio da Federação Espírita do Rio Grande do Norte, o Centro de Estudos Espíritas Allan Kardec encerra hoje o III Seminário Espírita de Mossoró, que está sendo realizado no auditório Kiko Santos, do Colégio Estadual Jerônimo Rosado. Das 9 ao meio-dia e das 14 às 17 horas.

Chap-Chap

Fazendo jus à diversidade cultural que sempre abrigou, o Chap-Chap estará apresentando sempre às quartas-feiras o exotérico Mago Woldan, um jovem e estudioso mossoroense com ampla experiência no sul do País, onde trabalhou por vários anos com cartomancia, tarô, runas e leitura de mãos.  

Débito

Mesmo sob o descaso e a demagogia barata que o ronda de quando em vez (esta a pior das amebas sociais), Raimundo Soares de Brito não renega seu amor a este chão ingrato ao qual pertenço. O que Mossoró deve a Raimundo e a Vingt-un não cabe em três caminhões, como coube o dinheiro levado do Iraque.

Clássico

“E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. (...) Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...” (Fragmento do clássico O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry).

Baseado no livro de Stephen King, o Pax apresenta hoje O Apanhador de Sonhos, estrelado por Morgan Freeman, e Carandiru, do diretor Hector Babenco. Vai de mal a pior a qualidade dos nossos telefones públicos. Além de inúteis, muitos aparelhos ainda “roubam” as unidades do cartão. Mas a empresa faz ouvido de mercador. Após três anos de lançado, o Jornal de Mossoró perde Paulo César e José Antônio, os dois últimos acionistas de sua fundação. Hoje o semanário é dirigido pelo reitor Walter Fonsêca. Segue até 31 deste mês, na Ótica Brilhante, a mostra Tela Vista, do pintor mossoroense Ney Morais, que celebra trinta anos de carreira com esta que é a sua quarta exposição individual. Sempre em busca da perfeição, o poeta Da Costa Rêgo nos informa que mudou o título do seu próximo livro. Em vez de Enquanto o Tempo Passa, sairá, até junho, Céu de Diamantes. Sonetos. Sob a batuta do colega Mister Freitas, o programa Conexão 93, levado ao ar sempre aos domingos, agora ocupa também um pouquinho das manhãs de sábado. Das cinco às sete horas. A quem esta nossa heróica, humilhada e ultrajada polícia deve prestar queixa quando ela própria se vê assaltada e insegura?

Autores & Obras

“Conversas com Cortázar”
– Encontro de amigos

Estávamos caminhando soltos e imersos em nossas tristezas e nossos sonhos. Revoada de pensamento na alma, dor moribunda nos nervos, esgar contido nos lábios e uma vontade imensa de mudar o mundo pela literatura. Cada um com sua dor, cada qual com o seu labutar literário.

Quando, fantasticamente, deu-se o encontro: eu, bibliófilo de província, o professor Eduardo Andrade e sua dor catada, e a poetisa Mara Ersterne, acompanhada de suas elegias doídas de solidão.

Dá-se a saudação protocolar dos livros: boa leitura, que a dor dos livros esteja convosco. Muitas letras, etc... Coisas que só quem pertence ao fantástico clube dos viciados pela literatura entende e suporta.

Deste ponto, passamos a comentar o que estávamos lendo. Eu saltei com Bandeira e sua Libertinagem, professor Andrade irrompeu com Camus e Sartre e a poeta Mara com “Conversas com Cortázar”. Resolvemos “papear” sobre Cortázar. Relembramos O Jogo da Amarelinha, O Bestiário, suas obras críticas... quando recebemos a visita de um homem grande, forte, sempre educado. Foi se achegando e quando nos demos conta, éramos quatro.

O colóquio se aprofundou, passamos a falar cada vez menos e a ouvir aquele homenzarrão cada vez mais. Ele destilava candura. Justificava a literatura como bálsamo para a sua vida, que só fora feliz por pertencer a espécie humana e por ter a linguagem e tantas cositas mas. Ele falava de uma forma tão serena e nos interpelava com um jeito tão aprendiz que parecia ser o mais “novo” e o “mais aberto” naquela mesa de serelepes iniciados, mas já pondo nossas manguinhas de certezas de fora.

Falou-nos que todo grande escritor deveria iniciar com a poesia e só então poder se aventurar na prosa. Começou a discorrer sobre a importância de conhecer outras línguas, de se beber na fonte, evitando o travo do tradutor traidor. Ele que se considerava um notívago nas letras, aprendia muito se metendo a traduzir grandes autores.

Saltou sem nos apercebermos (nesta hora professor Andrade já estava de queixo caído e Mademoisélle Ersterne, como ele sempre saudava, já banira as elegias e só queria afogar suas tristezas neste papo grande de literatura) para a importância de se sair da província e promover nossa conversão na nossa estrada de Damasco. Propôs-nos a “fuga” pelo mundo como condição de isenção para poder entender a nossa província.

Eu puxei a corda salva-vidas de um assunto novo. Aquele homem com seu mundo inundava-nos, faltava-nos ar e sobrava medo. Perguntei se ele gostava de conto. Ele adentrou pelos contos de Borges, de olho rútilo de respeito e veneração. Os meus olhos não despregavam dos deles, professor Andrade já sacara seu inseparável bloco de notas e o sorriso de Mara já voltara a brilhar nos céus de nossa província. Neste momento, o rapaz da livraria, Tomé, que veio ver para e crer, ofereceu-nos um café e nenhum de nós queria perder tempo com a cafeína se tínhamos a literatura. Tomé mesmo assim trouxe-nos café e saiu de sorrelfa.

No final, o grande homem se levantou e disse-nos: A literatura é algo lúdico e escrever nos deve fazer muito feliz. Isto deve nos bastar e sobrar. Tenham um bom dia. Dizendo isso, saiu.

Voltamo-nos uns para os outros, silenciosos. – Quem era aquele homem? Neste momento, Mara vira seu livro e em uníssono escapou-nos um grito: Era o próprio Julio Cortázar! Abraçamo-nos intensamente. Tivemos uma fantástica conversa com Cortázar. Magia da literatura.

Serviço

Livro: Conversas com Cortázar
Autor: Ernesto González Bermejo
Editora: Jorge Zahar Editor
Investimento: R$ 18,00

  .::HOME::.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EDITORIAS

Cotidiano

Economia

Esporte

Polícia

Política

Regional

Universo

OPINIÃO

Cid Augusto

Editorial

Emerson Linhares

Emery Costa

Giro pelo Estado

Laíre Rosado

Notas da Redação

Paulo Pinto

Rubens Coelho

Sérgio Chaves

Sérgio Oliveira

COLUNAS TEMÁTICAS

Assuntos do Comércio

Cinema em Foco

Direito em Pauta

Comentário Econômico

Mundo Digital

Nossa História

Cultura Americana

CIDADES

Alexandria

Areia Branca

Assu

Caraúbas

Macau

Médio Oeste

Patu

Pau dos Ferros

São Miguel

Umarizal

Vale do Apodi

SUPLEMENTOS

Empresa

Escola

Mais TV

EDIÇÕES ANTERIORES

ESPECIAIS

Chacina Prefeito

Barragem Santa Cruz

Vingt Neto

O JORNAL

Assinatura

Expediente

Histórico

Painel do Leitor

SERVIÇOS

102 ON-LINE

BANCO DO BRASIL

CAERN

CAIXA ECONÔMICA

COL. MOSSOROENSE

CORREIOS - CEP

COSERN

DETRAN

DICIONÁRIO ON-LINE

ESAM

FOLHA DIRIGIDA

GOVERNO DO ESTADO

HORÓSCOPO

IDEC

INDICADORES

RECEITA FEDERAL

TÁBUA DE MARÉS

TELEMAR

TRADUTOR ON-LINE

UERN

UFRN

 

 

 

 

 

 

ENQUETE

Você concorda com o programa Fome Zero?
Sim
Não
Votar
resultado parcial...

 

 

 

 

 

 

Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003