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Insuspeita malícia

Natália Rodrigues

A atriz Natália Rodrigues nunca imaginou que, algum dia na vida, pudesse ser escalada para fazer o papel da vilã. Afinal, o sorriso largo e o rosto angelical pareciam credenciá-la apenas para tipos românticos. Como o da doce Patty, de “Desejos de Mulher”, que marcou sua estréia na tevê. Mas o diretor de Núcleo de “Malhação”, Ricardo Waddington, já pensa diferente. Assim que assistiu a um teste da moça, resolveu escalá-la para interpretar Carla, a vilã da nova temporada do “folheteen” da Globo. Com “carinha de anjo e índole de corvo”, segundo definição da atriz, Carla não vai sossegar enquanto não separar Vítor e Luisa, interpretados por Sérgio Marone e Manoela do Monte. “Carla vai enganar todo mundo com sua cara de santinha. Ela vai fazer as maldades da Thaíssa parecerem brincadeirinha de criança”, diverte-se a atriz, referindo-se à personagem de Bárbara Borges.

Para compor a primeira vilã de sua carreira, Natália não precisou recorrer a nenhum grande arroubo de composição. Ela teve de se lembrar apenas daquela que considerava sua melhor amiga, uma ex-colega de turma que conheceu na sexta série. Natália, porém, só descobriu que a tal “melhor amiga” não era lá muito confiável na faculdade. “Todo mundo dizia que ela não prestava. Até minha mãe. Mas eu não quis acreditar”, queixa-se. Na época, Natália teve de viajar a trabalho para o exterior e, quando voltou, descobriu que o namorado queria “dar um tempo” na relação. Com o coração em pedaços, foi chorar as mágoas logo no ombro da melhor amiga. “Até que, numa festa, encontrei os dois juntos e liguei as coisas. Ela me sacaneou muito!”, critica.

Mais surpresa do que se ver no papel da “falsa amiga”, Natália ficou ao ser chamada para “Malhação”. Quando terminou “Desejos de Mulher”, a atriz não quis esperar sentada por nenhum outro convite e resolveu ir à luta. Gravou diversos “videobooks” e os entregou a todos os produtores de elenco da Globo. “Sempre rola uma insegurança porque minha profissão é muito instável Você se dedica, estuda, mas, quando a novela acaba, fica a dúvida: ‘E agora?’”, admite. Por isso mesmo, Natália sequer hesitou em pedir dispensa na peça “Lolitas”, de Maurício Nunes, que vinha ensaiando há seis meses. Na mesma semana, voltou a fixar residência no Rio, para o início das gravações de “Malhação”.

O caminho percorrido por Natália até chegar à Globo foi longo e tortuoso. Antes de estrear na tevê, ela seguiu a carreira de modelo. Estreou aos 10 anos, num comercial de biscoitos, e não parou mais. Fez mais de 60 anúncios, entre McDonald’s e Banco do Brasil, entre outros, mas também ouviu muito “não”. Um deles, inclusive, bastante questionável: “Já deixei de fazer teste porque o cara disse que eu tinha um buraco do nariz maior que o outro. Fui muito humilhada”, confessa. De fato, Natália chegou a ganhar o apelido de “Laura”, a aluna rechonchuda da novela “Carrossel”, exibida pelo SBT em 1990, dos colegas de turma. “Nunca vou ser magra. Tenho ombros largos, quadril largo... Sou mesmo uma ‘cavalona’”, define essa paulistana, de 1,68 m de altura e 52 quilos, com 90 de quadril, 65 de cintura e 94 de busto.

Hoje, de gordinha, Natália não tem nada. A boa forma da atriz já mereceu dois ensaios bastante sensuais: um no site “The Girl”, outro na revista “Trip”. Tais trabalhos só não agradaram muito o pai da moça, Valentim, um ex-padre que largou a batina no dia em que conheceu a futura mãe da atriz, Janete. “Quando resolvi ser modelo, ele chiou à beça. Mas depois cedeu quando viu que era aquilo mesmo o que eu queria para mim”, pondera. Mas, para alívio de Valentim, a carreira de modelo de Natália Rodrigues serviu apenas como trampolim para a de atriz. Atualmente, ela não pensa em outra coisa senão em se dedicar integralmente à nova profissão. “Sempre ralei muito. E já levei muito desaforo para casa. O amor que eu sinto pela minha profissão, porém, é maior do que qualquer humilhação que já sofri”, garante, cheia de si.

Adeus à inocência

Com apenas 22 anos, Natália Cataldo Rodrigues já tem bastante história para contar. Ela já passou fome no Japão, trabalhou como babá nos Estados Unidos, aprendeu a lutar boxe... Na primeira vez em que viajou para o exterior, Natália Rodrigues tinha 14 aninhos. Quando desembarcou no Japão, para uma temporada de seis meses, ela encontrou um país em crise. Sem conseguir emprego como modelo, ela se virou mesmo lavando pratos num restaurante. Lá, fazia uma “boquinha” no final do expediente. “Só assim, eu voltava para casa com a barriga cheia”, brinca. Aos 16, Natália voltou a tentar a carreira no exterior. Dessa vez, nos Estados Unidos. Entre um compromisso e outro, a atriz ganhou um dinheirinho extra trabalhando como babá... de cachorros. “Fiz tudo o que estava ao meu alcance. E não me arrependo de absolutamente nada do que fiz”, avalia.

De volta ao Brasil, Natália decidiu realizar o sonho de ser atriz. Para tanto, teve de passar por mais um teste - entre os “trocentos” que fez - para “Desejos de Mulher”. “Devia ter umas 200 meninas na disputa”, calcula. Quando soube que tinha sido aprovada, mudou-se logo para o Rio. A primeira providência que tomou no novo apartamento foi instalar um saco de areia, onde pratica um de seus hobbies favoritos: o boxe. “Todo santo dia, dou uns ‘soquinhos’. Eu me desestresso na hora!”, ensina. No início, Natália deve ter se cansado de surrar o tal saco. Afinal, ela custou - e muito! - para se adaptar ao calor do Rio de Janeiro. “Às vezes, eu me sentia uma ET quando saía às ruas. Eu ficava mal em todos os lugares que freqüentava. Mas, hoje em dia, sou praticamente carioca!”, sorri, aliviada.

Instantâneas

# Quando tinha 10 anos, Natália passeava com o pai por um shopping de São Paulo quando foi abordada pelo “olheiro” de uma agência de modelos. “Por muito tempo, fui o sustento da casa. Tirava no mês três vezes mais que meu pai e minha mãe juntos”, gaba-se.

# Embora seja filha de um padre, Natália Rodrigues jamais pensou em seguir a vocação religiosa. “Freira, eu? Nem pensar...”, esquiva-se. Mesmo assim, freqüentadora assídua da Paróquia de São Francisco de Assis, na Zona Oeste do Rio, ela vai à missa todo domingo e participa de grupo de oração.

# Em “Desejos de Mulher”, Natália Rodrigues teve a felicidade de cair no núcleo cômico da novela, formado por José Wilker, Otávio Müller e Evandro Mesquita. Novata no vídeo, Natália sofria todo tipo de gaiatice dos “veteranos”. “Chamo o Wilker de pai até hoje”, exagera.

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Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003