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Paulo Locatelli

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Entrevista


Elegia de inverno (III)  
 

MARA ERSTERNE

Terapeuta e musicista

 

Costura nas margens

de um lago imóvel

tua antiga imagem:

uma réstia de ti,

isenta alegria,

é o que ainda és...

 

Nossos olhos, reticentes,

abrigam humanidades

e suas precisas sombras:

somos mesmo o obstáculo

de nossa própria luz...

Por que não prender-se

de vez ao remendo

que outrora fizemos

sobre a estátua do lago?

 

Mira teu rosto

e tua incerteza

no passo silente

das águas do rio.

Mira-te, mira-te

e serás correnteza —

a outra e a mesma

sempre água do rio...

Ira

PAULO DE TARSO CORREIA DE MELO

Professor da UFRN

 

Ah, minha filha,

eu sou assim:

quando tenho raiva de uma pessoa,

 

tenho raiva da pessoa,

da menina da pessoa

e da boneca da menina da pessoa.

A lua

JOSÉ GURGEL

Ex-bancário, poeta e escritor

 

Quando saímos do Rio

para morar em Campos,

das vastas e verdes planícies,

esperava, toda noite de lua cheia,

pelo seu despontar no horizonte.

Só para ver, maravilhados,

os olhinhos curiosos

dos meus filhos cariocas.

Falsa modéstia   

DA COSTA RÊGO

Da Academia de Letras e do Icop

 

        (Ad personam)

 

Nunca por nunca, quedar-me-ei atrás

De uma certa modéstia nominal!

Que, penso tem de ser racional,

O que, com tal modéstia se compraz!

 

A símplice atitude não me apraz!

Creio, a respeito, sou demais formal!

— Grosso modo, sou quem eu sou; leal

Estarei à verdade contumaz!

 

Nunca dos nuncas, truncarei meu Ego,

Oculto sob inglória e infame véstia,

Que decisivamente, não carrego!

 

Sincero e presumido; e como a réstia

De sol caída, agindo, não emprego

Nas minhas criações, falsa modéstia!!

De quem ama

MARCOS FERREIRA

Ex-sapateiro e tangedor de mulas

 

Não te maldigas pela sorte escassa

Nem pela vida muita vez tão dura...

Aqui no mundo nada sai de graça,

Ainda mais quando se tem ternura.

 

A dor que sentes logo, logo passa,

Mas é preciso não morrer da cura.

Leva de novo o teu amor à praça...

Vai à procura de quem te procura.

 

Talvez encontres logo um novo bem,

Aqui por perto ou pouco mais além,

Para dizer-te alguma coisa assim:

 

Abre teus braços, meu amor, eu sou

Quem neste mundo só te procurou...

Abre teus braços, pois agora eu vim!

Davinciana

FRANCISCO BORDEL

Cáften

 

É uma pena que

tenhamos encontrado

a razão e perdido

a loucura...

Nossa amizade

colorida daria

um belo arco-íris.

Verossímil  

KÉZIA SILMARA

Sócia da Poema — Poetas

e Prosadores de Mossoró

 

(Para Raimundo Espuma)

 

Prove que poderei sonhar

Sem me entregar completamente.

Mostre-me tua face.

Conte-me os teus sonhos

Ou invente um para nós dois.

Diga o que eu preciso ouvir,

Sussurre ao meu ouvido

Uma “utopia”...

Diga que poderei ao menos

Outra vez me apaixonar

E assim, quem sabe,

Com o passar do tempo,

Talvez eu possa acreditar

Em algo mais,

Posto que a paixão

É um sentimento passageiro.

Contágio  

RAIMUNDO ESPUMA

Escrivão

raimundoespuma@bol.com.br

 

Antes do teu vício tornar-se o meu,

Resta-me agradecer ao cósmico

A doce bênção dos teus beijos,

Manar dessas minhas fantasias.

Levarei de ti estes sabores que

Inebriam o meu sentimento,

Salvando-me do vale da solidão.

 

Antes de tornar-me um dependente,

Irei purificar-me no cais do teu porto,

Zarpando nesse veleiro de tua paixão.

É por isso que não serei só mais um

Karaokê da canção de tua vida.

Descoberta

EDUARDO ANDRADE

Professor — ed.andra@bol.com.br

 

        (A Mara Ersterne)

 

Meu coração também é labirinto;

Tem espelhos e grandes multidões.

Seus lados me iludem e minto

Quando deveria me livrar das solidões.

 

Mas o meu peito — chaga e absinto —

Flora ao ver de tantas impressões

Que se esbarram e sempre sinto...

Tarde e manhã as mesmas gestações.

 

Eu me perdi. O coração explodiu.

Na luz do teu olhar me achei.

Era dia e a treva da noite encobriu

 

Nossos corpos em embriaguez

Que não sabíamos o que nos uniu

Naquele instante — como se fez.

Conclusão  

ALDACI DE FRANÇA

Professor e violeiro

 

Eu tenho motivos para estar descrente,

Pelas atitudes e os fatos reais,

E nem sei por que fui tão insistente,

Sem acreditar no romance mais.

 

Acho que eu não sou como muita gente

Que aceita tudo e deixa para trás...

As feridas não saram de repente,

Se as dores sentidas foram cruciais.

 

Por que tantas juras mil vezes fizeste?

Será que aprovado eu não fui no teste?

Errei nas respostas que dei sobre amor?

 

Se aqui o explícito está configurado,

O retorno à sombra do nosso passado  

Reacenderia saudade, ânsia e dor.

 

 

 

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Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003