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Falo a poesia desnudada

Por MARCOS FERREIRA

Somente hoje, em meio ao rumorejo e à pressa de uma redação de jornal, onde o tempo urge e o signo do automatismo está sempre à volta, é que tomo conhecimento deste corajoso e penetrante Falo, obra poética (essencialmente isto) do jornalista, escritor e poeta norte-rio-grandense Paulo Augusto, uma das mais entendidas, vivas e brilhantes inteligências potiguares neste ainda rabugento e preconceituoso início de século XXI.

Surgido no ano de 1976, no Rio de Janeiro, o livro-membro de Paulo Augusto é relançado agora pela editora Sebo Vermelho, de Natal. A obra conta com apresentação do antropólogo baiano Luiz Mott e prefácio do escritor e poeta paulista Glauco Mattoso. Falo também recebeu as boas-vindas do jornalista Sérgio Escovedo, crítico literário do jornal carioca Última Hora, em texto consagrador publicado aos 27 de janeiro de 1977.

“O grito apaixonado dos deserdados, dos marginais, se faz ouvir em cada página. E se não apareceu um crítico para lhe dar um lugar na nossa literatura é porque esses estetas ainda estão embriagados do tuberculoso Lautrèamont, que teve a felicidade de sair do Uruguai, ou então é por esnobismo mesmo, porque Paulo Augusto sabe o que escreve. Falo é um berro, um uivo, que convém não ignorar”, assevera Sérgio Escovedo.

Dedicado à figura legendária de Madame Satã e visto com esguelha por uns e falso puritanismo por outros, Falo desvirginou o mundo literário brasileiro com sua poética homoerótica e duramente honesta, representando assim um verdadeiro divisor de anáguas e samba-canções daqueles sisudos anos setenta. Até então, nenhum outro bardo nacional avançara tanto, e com tamanho apuro literário, na explicitação do amor masculino.

Em texto para a segunda edição de Falo, Glauco Mattoso diz o seguinte: “Num novo século, em que a bandeira do arco-íris já abre paradas do Orgulho Gay que engajam meio milhão de militantes ou simpatizantes, mas quando ainda se lincham casais masculinos em praça pública, nada mais oportuno que uma reedição de Falo (...) Um direito de todo masoquista pelo qual Paulo Augusto também lutou, ao falar por si e por todos nós”.

Portanto, por sua ousadia e convicção literária, Paulo Augusto deve ter causado um certo arrependimento ou orgulho a antecessores ilustres como os poetas Mário de Andrade e Mário Faustino, que, apesar da insubmissão intelectual e da vanguarda modernista de 1922, nunca conduziram ou defenderam a tão apedrejada bandeira da homossexualidade, como aqui o fez o vate potiguar nesta sua explícita declaração de amor aos homens.

LANÇAMENTO – Recentemente lançado no Palácio da Cultura, em Natal, Falo deverá ter a sua noite de autógrafos mossoroense no próximo mês de junho. Além deste, o autor publicou Estilhaços de um País-Geni (seleta de crônicas, artigos e ensaios publicados na coluna “Balão de Ensaio” – UFRN/CCHLA/Gráfica Santa Maria, 1995). Em 2001, venceu o Prêmio Câmara Cascudo de Literatura com o livro O Bufão de Natal (inédito).

O meu amor pelos homens
No fundo eu gosto dos homens,
todos os homens,
de todas as cores.
Apesar de suas horas odiosas,
de suas lâminas
e de suas balas.
Com as suas discrepâncias
e acima delas.  

No fundo eles não são tão maus.
Até que a gente entenda
que a necessidade patrocina
dores, medos, lágrimas,
tiros, greves, convulsões.
Para entender o motor dos homens
humano é necessário ser.

No fundo meu amor emana
e os cobre, engloba,
engole-os.
Esqueço a face má que tem vez
mascaram para me assombrar
e os amo um pouco.  

No fundo meu amor almeja
ser entre eles
e realizar-se comunistamente
como solução.

Se pudessem receber, todos,
eu dava, salmista,
todos os peixes
que meus olhos guardam
nos lagos sombrios, distantes,
que eu nunca vi.
No fundo os homens me amam
na mudança mútua de nossos ódios,
na troca de todos os beijos
por todas as balas.

No fundo meu amor abunda.
através dele há de ser salvo
o mundo.

Avant-première

Não foi medo que senti
quando você imenso
– era a primeira vez –
me rasgou a blusa
inebriado e tonto.
Eu era virgem
como todo mundo um dia foi
mas isso não vem ao caso.
Fardos pesados,
no canto do muro, tu e eu.
Vislumbrei à luz murcha da tarde
tua fortaleza pontiaguda
e me recordo: meu coração
recuou.
Mas – juntei minhas forças todas
e num relance lembrei-me
que mamãe sempre dizia:

– Homem é para-mulher,
e mulher é para-homem.

SOBRE O AUTOR – Paulo Augusto da Silva nasceu em Pau dos Ferros, Alto Oeste do Rio Grande do Norte, aos 3 de agosto de 1950. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), em 1976 trabalhou nos jornais O Fluminense (Niterói/RJ), Última Hora (RJ), Diário do Grande ABC (Santo André/SP), Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Diário Comércio & Indústria (São Paulo/SP).

De volta ao RN, a partir de 1982, trabalhou nos jornais Diário de Natal, Tribuna do Norte e Jornal de Natal. Ex-editor do suplemento cultural Encartes, do Jornal de Natal (1995/1998), onde assinou as colunas “Balão de Ensaio” e “MidiAtica”. Assina, no mesmo suplemento, a coluna “Antena XXI” e a página cultural “Sacadas do Potengi e Refoles”.

É assessor de imprensa da Secretaria da Saúde Pública e editor do jornal Onda Alternativa, de distribuição dirigida na Zona Sul de Natal. Colaborador em jornais alternativos de distribuição gratuita, em Natal.  

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Mossoró-RN, domingo, 25 de maio de 2003