Mossoró-RN, domingo 25 de julho de 2010

 

As igrejas também contam a nossa história

GERALDO MAIA
gemaia@bol.com.br

As velhas igrejas da cidade, além de templos religiosos, são, por muitas vezes, cenários de lutas em tempos passados. E conhecer um pouco da história dessas igrejas é, ao mesmo tempo, conhecer também um pouco da história da cidade. Um exemplo bem claro desse fato é a igreja de São Vicente, em Mossoró.

A igreja de São Vicente de Paula, que fica na Av. Alberto Maranhão, Centro, foi  inaugurada no dia 20 de julho de 1919 e vem prestando serviços religiosos até os dias atuais. A ideia da sua construção surgiu mais ou menos no ano de 1915, no seio das confrarias vicentinas, sendo a sua pedra fundamental lançada a 3 de outubro de 1915, com ato oficiado pelo Padre Elesbão Gurgel. Dois fatos, no entanto,  marcaram a existência daquele templo: a seca e o cangaceirismo.

O início da construção da igreja de São Vicente deu-se no ano de 1915, ano que o Nordeste brasileiro sofria com uma terrível seca. O historiador Raimundo Brito, em trabalho publicado sobre a igreja de São Vicente, diz que "os serviços da construção do templo serviram para amenizar o sofrimento das numerosas levas de retirantes que aqui chegavam tangidos pelo flagelo da grande estiagem".  Das mãos fracas de famintos retirantes surgiram os tijolos e a cal que foram usados para erguer o templo.  O dinheiro que ganhavam, apesar de pouco, era o que amenizava a  fome. O professor Almeida Barreto, em um dos capítulos das suas memórias dizia: "Aquele templo é uma dádiva de suor, sangue e lágrimas dos retirantes de 1915. Merece um poema à memória de um êxodo forçado". E o próprio professor Barreto faria esse poema, quando apelava: "Mossoroenses, quando passardes diante da igreja de São Vicente de Paula, prestai o vosso culto, não só ao orago do templo, como aos seus construtores, quase todos desaparecidos já, porém, ainda mais rendei o vosso preito àqueles humildes grandes, que fabricaram, de graça, o material para o citado templo".

O templo permanece até hoje com o mesmo estilo idealizado pelo arquiteto Francisco Paulino. Quase nada mudou  em sua arquitetura.

Um outro fato marcante é que em  13 de junho de 1927, quando a Cidade de Mossoró foi atacada pelo bando de cangaceiros chefiados por Lampião,  a igreja de São Vicente serviu como trincheira para os defensores da cidade, sendo sua torre  usada pelos defensores. A resistência encontrada pelos facínoras fez com que os mesmos fugissem no que ficou conhecida como sendo a primeira grande derrota de Lampião, derrota essa que fez com que até o fim dos seus dias não mais perturbasse a paz no Rio Grande do Norte. Foi uma grande vitória do povo mossoroense, vitória essa que é lembrada até os dias atuais, e que teve como comandante maior o prefeito Rodolfo Fernandes. Daí porque muitos se referem à igreja de São Vicente  como sendo a Igreja de Lampião, ou a "Igreja da bunda redonda", por assim ter sido chamada pelo chefe dos bandidos.

Da luta dos flagelados da seca de 1915 para erguer o templo, nada se comenta. Esse fato a poeira do tempo apagou. Da importância da igreja na defesa da cidade contra os cangaceiros,  sim. Esse episódio fez com que a igreja se tornasse um ponto turístico da cidade de Mossoró. Sua imagem ficou associada a esse fato de tal maneira, que não se fala em cangaceiros em Mossoró sem se referir a igreja de São Vicente. Por tudo isso é que a igreja é considerada um monumento histórico da cidade de Santa Luzia do Mossoró.

 

Escrevo sobre o amor

Gilbamar de Oliveira
gilbamarbezerra@ig.com.br

Apraz-me escrever e divagar sobre a beleza, o lirismo e o encanto que as coisas belas despertam em meu coração. Não é nada do meu feitio discorrer sobre o escandaloso que atrai as atenções e o inusitado que desperta a curiosidade. Gosto da beleza em todas as suas expressões poéticas ou naturais.

Opto pela poesia e redijo singelas crônicas enveredando pelo âmago do amor, da vida, do entendimento humano, da melancolia desvairada, do ardor pelo existir e fazer algo em prol do amanhã de todos. E assim vou e continuarei indo palmilhando esse trajeto sinuoso das tantas coisas que fazem um enorme bem à alma de quantos se alinham nos traços dessa trilha onde imperam a paz e os bons sentimentos.

Disserto sobre a alegria e seu reino mergulhando no abismo infinito do que há de mais sublime, realizando-me, por fim, nos contornos do amor. É justamente esse romantismo incurável que me direciona tornando-se o mote e a diretriz dos meus desígnios rotineiros, sendo quase impossível fugir de sua direção mesmo que eu quisesse e, obviamente, não desejo desviar-me desse curso de plácidas águas. Faz-me um baita bem ao espírito segui-lo, alegra-me sobremaneira e me transmite intenso conforto e suave bem estar!

No cotidiano, enamoro-me do alvorecer e me deixo fascinar pela originalidade marcante do nascer do sol distribuindo os raios pelas bandas ocidentais, aquietando-me rejubilado quando o ocaso se despede do dia para vê-lo recolhendo-se ao repouso. O Astro-rei todos os dias morre ao entardecer para dar vida à escuridão noturna iluminada pelo brilho da lua, que nasce para nosso deleite.

Logo, ao engatinhar da noite, agita-me a emoção assistir ao luar, por quem o mar se apaixona, espraiando luz pelo céu transbordando estrelas. Daí, ante esse transe de elementos naturais se entrechocando delicada e suavemente como casais embevecidos, feito criança deslumbrada, eis que me vem a inspiração e abraço as letras num aconchego interminável, e nisso o fluir das palavras vai formando o meu toque literário pessoal.

Prefiro o inesquecível e perene ao imediatismo dos rompantes passageiros mesclados por ideias estonteantes de instantes apenas, de breves labaredas, de repentinos e logo desaparecidos passares, pois sou aquele beija-flor enternecido a irromper cego de fervor e desejo, ávido até, pelos meandros dos jardins floridos bem cuidados por jardineiros devotados. Escrevo para o brotar do deleite, pensando no impensado, avesso às frivolidades, distanciando-me dos modismos tênues e frágeis como pétalas jogadas ao acaso e pisoteadas pelo desprezo dos dias subsequentes. Quero tão-somente enternecer.

 

O Homem que Calculava

SULLA MINO
sullamino@yahoo.com.br

O livro "O Homem que Calculava" aventuras de um singular calculista persa é um romance infanto-juvenil do escritor brasileiro Malba Tahan (heterônimo do professor Júlio César de Mello e Souza), que narra as aventuras e proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir na Bagdá do século XIII. Foi publicado pela primeira vez em 1939. Eu me deliciei na leitura, um aprendizado incrível no mundo da matemática através de parábolas e citações. Recebe o Homem que Calculava inúmeras consultas. Crendices e superstições. Unidades e figuras. O contador de histórias e o calculista. A partir do célebre dia em que estiveram, pela primeira vez, no divã do califa, a vida deles sofreu profundas modificações. A fama de Beremiz ganhou realce excepcional. Na modesta hospedaria onde moravam, os visitantes e conhecidos não perdiam oportunidade de lisonjear com repetidas demonstrações de simpatia. Todos os dias o calculista via-se obrigado a atender a dezenas de consultas. Ora era um cobrador de impostos que precisava conhecer o número de ratls contidos em um abás e a relação entre essas unidades e o cate; aparecia, a seguir, um haquim ansioso por ouvir de Beremiz uma explicação sobre a cura de certas febres por meio de sete nós feitos numa corda; mais de uma vez o calculista foi procurado por cameleiros, ou vendedores de incenso que indagavam quantas vezes devia um homem saltar uma fogueira, para se livrar do demônio. Apareciam, por vezes, ao cair da noite, soldados turcos, de olhar iracundo, que desejavam aprender meios seguros de ganhar no jogo de dados. Esbarrou, muitas vezes, com mulheres - ocultas por espessos véus - que vinham, tímidas, consultar o matemático sobre os números que deviam escrever no antebraço esquerdo para obter boa sorte, alegria e riqueza! Queriam conhecer os segredos que asseguram a baraka para uma esposa feliz. A todos Beremiz Samir atendia com paciência e bondade. Esclarecia uns, dava conselhos a outros. Procurava destruir as superstições e crendices dos fracos e ignorantes, mostrando-lhes que nenhuma relação poderá existir, pela vontade de Deus, entre os números e as alegrias, tristezas e angústias do coração. E procedia dessa forma, guiado por elevado sentimento de altruísmo, sem visar a lucro ou recompensa. Recusava sistematicamente o dinheiro que lhe ofereciam e, quando um xeique rico, a quem ensinara, insistia em pagar a consulta, Beremiz recebia a bolsa cheia de dinares, agradecia a esmola e mandava distribuir, integralmente, a quantia entre os pobres do bairro. Formulava, às vezes, sobre os acontecimentos mais banais da vida, comparações inesperadas que denotavam grande agudeza de espírito e raro talento matemático.  Sabia, também, contar histórias e narrar episódios que muito ilustravam suas palestras, já de si atraentes e curiosas. Às vezes ficava várias horas, em silêncio, num silêncio maníaco, a meditar sobre cálculos prodigiosos. Ficava sossegado, a fim de se fazer com os recursos de sua memória privilegiada, descobertas retumbantes nos misteriosos arcanos da matemática, a ciência.

 

Diagnóstico da cultura Parte II - Instância educacional

Clauder Arcanjo
clauder@pedagogiadagestao.com.br

"Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador."

(Paulo Freire, em Pedagogia da autonomia)

O crescimento em Mossoró da oferta de curso superior - universidades e faculdades - vem transformando-a num relevante polo universitário. Faz-se imprescindível aliar a política cultural a este novo público, geralmente sempre ávido pelo consumo de bens culturais de qualidade. Caso não se ocupe esse espaço, a mediocridade cultural avançará sobre esse público formador de opinião, presa fácil das culturas de massa que, ao avançar sobre os jovens, muda inteiramente o estilo de vida deles, implantando um comportamento customizado e avesso às raízes e valores históricos de nossa gente. Neste cenário, segundo Waldenyr Caldas, em seu livro Cultura de massa e política de comunicações, "o consumo é elevado à sua potência máxima e ao cidadão cabe assumir seu papel de consumir sempre mais".

Outro aspecto que vale ressaltar é a necessidade de envolver os programas de pesquisa e extensão universitárias no mapeamento, bem como no aprofundamento teórico das diversas manifestações culturais da região. Infelizmente, com honrosas exceções, os nossos projetos acadêmicos estão de costas para a cultura popular. Nossos pesquisadores precisam voltar a recuperar a "vontade de saber" acerca da cultura potiguar.

Se articularmos um programa cultural e estruturado, teremos um público significativo. Levando em conta apenas as escolas públicas municipais de Mossoró teremos algo como 79 (setenta e nove) unidades de escola fundamental, isso sem contar as 51 (cinquenta e uma) creches. Se estendermos para as unidades de apoio social, a ação se amplia para mais 31 (trinta e uma) unidades. Caso envolvamos o setor de saúde municipal, o universo espraia-se para mais 63 (sessenta e três) pontos de apoio. Um universo sem sombra de dúvida nada desprezível.

 

Dia do Escritor

Eduardo Gosson
Presidente da União Brasileira de Escritores do Rio Grande do Norte - UBERN

Hoje, 25 de julho, é o Dia do Escritor. Afinal, todos têm o seu dia. No entanto, é oportuno fazermos uma reflexão do seu papel na sociedade. O filósofo italiano Antonio Gramsci, em seu livro Os Intelectuais e a Organização da Cultura, dá-nos algumas pistas: "Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais". Ao fazer tal afirmativa, o pensador italiano estava a dizer das especificidades desse segmento. O autor estabelece os vários tipos de intelectuais, em diversas sociedades; o grau de compromisso de cada um e a serviço de quem os intelectuais estão. O fato, por exemplo, de alguém ter habilidade para serviços hidráulicos ou elétricos não quer dizer que aquela pessoa seja um encanador ou um eletricista.

Um outro poeta e pensador T.S. Eliot  afirma: "sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para distendê-la e aperfeiçoá-la". No caso concreto brasileiro, nunca essa afirmativa foi tão verdadeira. A língua portuguesa nunca esteve tão maltratada como nos dias atuais. É só lermos os jornais, assistirmos aos canais de TV, ouvirmos a música que se produz, para constatarmos uma decadência. Senão vejamos: "-a nível de ministério". Ora, em nenhum dicionário se encontra "a nível" seguido da preposição "de", para significar "à mesma altura". Contudo, nem tudo está perdido. Iniciativas do parlamentar Aldo Rabelo no sentido de preservar a língua são valiosas; a postura combatente do escritor Ariano Suassuna (retirando-se, claro, um nacionalismo exagerado); o professor Pasquale Cipro Neto com o programa Nossa Língua Portuguesa veiculado na TV Cultura e as diversas instituições comprometidas.

No Rio Grande do Norte, a União Brasileira de Escritores - Ubern tem, após a sua reorganização em 2006, elaborado algumas ações :  1. organizou o I e II Encontro Potiguar de Escritores (em andamento, o III EPE de 26 a 28 de outubro próximo); 2. enviou ao Poder Legislativo um projeto de lei do livro,  ficando conhecida como Lei Henrique Castriciano (9.105/2008), em homenagem ao intelectual macaibense,  autor da primeira Lei de Incentivo Fiscal (agosto de 1900) da América Latina; 3. participou da Audiência Pública que resultou na Lei 9.169 (Promoção das leituras literárias nas escolas); 4. editou recentemente duas resoluções (Resolução 01/2010 - recria o jornal O Galo e Resolução 02/2010 cria o selo editorial Nave da Palavra). Os objetivos são os mais nobres, a destacar: 1- dinamizar e democratizar o livro e seu uso mais amplo; 2- incrementar a produção editorial estadual; 3- estimular a produção dos autores naturais do RN; 4 - promover atividades com vistas ao desenvolvimento do hábito de leitura; 5- estimular o mercado editorial do Estado para que possamos competir em melhores condições; 6 - preservar o patrimônio literário, bibliográfico e documental; 7 - implantar e ampliar bibliotecas públicas em todo o Estado; 8- estimular o surgimento de novas livrarias e postos de vendas de livros; 9- proteger os direitos intelectuais e patrimoniais dos autores e editores; 10- apoiar iniciativas de entidades que tenham por objetivo a divulgação do livro.

Nos Dez Mandamentos supracitados, o leitor poderá ter uma ideia de quanto trabalho os nossos escritores têm por fazer. Aí é que entra uma outra questão: a do engajamento. Se o escritor não tiver uma visão política da cultura, com certeza não andará nesta longa estrada e o seu papel ficará comprometido: escrever é lutar por um mundo melhor.

 

Forró, cachaça ou mulher?

Paulo Santos Dantas
Doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo

O mês de junho se foi e com ele as divertidas festas que são parte da história do Nordeste. O forró talvez seja a principal delas. Devido ao envolvimento extraordinário do público e de profissionais interessados em organizá-las, uma série de situações vividas nesse contexto servem para pensar como andam as relações entre as pessoas que circulam pelo forró, atrás de alegria e de "roçar a fivela". A origem do forró é controversa, como controversa também o é a seara onde se canta, se dança e se namora, meio no compasso do chiado da chinela. Criado no início do século 20, ao menos em um ponto os historiadores estão de acordo: o forró nasceu no Nordeste. Alguns visualizam seu nascimento sobre as influências do contato dinâmico da língua portuguesa com a inglesa, no momento em que os bailes promovidos aos engenheiros ingleses e aos soltados norte-americanos nos finais de semana tinham entrada liberada, "for all", que significa para todos. Outra versão, como a de Câmara Cascudo, é a de que o Forró  é derivado do termo africano "forrobodó", que significa "divertimento pagodeiro", "festa" e "bagunça".  Esta última versão é mais aceita contemporaneamente, pois diz respeito às habilidades criadoras da cultura brasileira.

Nos cenários onde o forró é parte da vida, como a culinária típica é parte das cozinhas, forjou-se a prática de dançar agarrado, encostando todo o corpo numa moça (ou rapariga), colando uma das pernas delicadamente dentro das pernas dela, deixando-a peneirar (rebolar) na coxa direita, enquanto a saia ou vestido provoca o vento a enxerir-se sobre as belezas que esconde por baixo. O forrozeiro que não nega um xote, especialmente quando se dança à luz do candeeiro ou quando não há muita luz, sabe que deve ser a perna direita, e não a esquerda, dentro das pernas da rapariga, que deve dar ou não o "cabimento" para que o parceiro enxerido se assanhe. Foi assim que aprendi na infância e na adolescência nos bairros populares de Aracaju, onde as meninas se enfeitavam, escolhiam as saias rodadas e se dirigiam aos barracões ou as associações, prontas para roçar a fivela. Nós, os adolescentes meio abestalhados, nos ouriçávamos só de vê-las chegarem, perfumadas com seiva de alfazema e outros perfumes baratos. Tive a sorte que algumas raparigas quisessem mesmo que eu me enxerisse para elas, aproveitando para cheirar o seu cangote no momento em que elas mais desejavam. Só de pensar... Prazerosa e cara sempre foi a nossa vivência.

Eis que não podíamos parar de roçar a fivela até que o sanfoneiro parasse de tocar. Roçar a fivela é um termo chulo utilizado, sobretudo, no sertão nordestino e em bairros populares das zonas urbanas, onde os festejos constituem uma tradição. Nas regiões sertanejas, o cavalheiro, normalmente habilitado para montar a cavalo e tratar das coisas do mundo da criação de animais, usava botas, chapéu e cinto de couro para amarrar as calças. Além de prática, a utilização de toda esta indumentária era estética e moral: um homem que prezasse por sua imagem, além de ser trabalhador e respeitar pai e mãe (a família nuclear, por assim dizer), devia saber utilizar adequadamente seu vestuário. O cinto, cuja importância simbólica devia estar à mostra, projetava a si mesmo e à fivela - uma peça de metal confeccionada artesanalmente como ele próprio -, a capacidade de apresentar o seu dono: um homem trabalhador, viril e cumpridor dos seus deveres. Por "cumprimento dos deveres" devemos considerar a relação próxima e delicada com a responsabilidade sexual e reprodutora. É desta última responsabilidade e da imagem construída deste sujeito "sertanejo" que trata este texto.

No início do mês de junho deste ano estive em Natal/RN e fiquei hospedado na casa de amigos. Assim como no interior do Estado, quem estivesse interessado em shows de forró, do "tradicional", ao gênero mais moderno - o "estilizado" -, era só ligar nas estações de rádio locais, ou nas emissoras de TV, ao meio-dia. O forró tradicional é atualmente descrito por uma formação de músicos que tocam sanfona, zabumba, triângulo e (muito raramente) pandeiro. Também é possível observar a presença de um baixo, uma guitarra e, ao fundo, uma discreta bateria. Contudo, o forró será qualificado como tradicional ou "pé de serra", se as músicas tocadas e a sua batida nos façam imaginar as criações de Gonzagão, Jackson do Pandeiro e todos os outros mais ou menos nessa linha. Essas formações ou definições, que distinguem um gênero do outro, servem mais àqueles que querem "arriar a fivela" numa rapariga dotada de charme perfume e uns quadris largos, que a uma discussão breve num texto como este. E é óbvio que também servem às raparigas que, não é raro, já chegam se requebrando nos forrós por onde passam. Dentro ou fora desses conceitos, o que nos chamou a atenção é que também há os sujeitos que, no meio no forrobodó, não se aventurarão a tirar uma rapariga (sinônimo de moça) para dançar. É desses cabras que este artigo também trata.

Esses cabras se contentam em saciar os seus desejos apenas com os olhos, postura repugnada pelas beldades, cuja associação com rabos de saia talvez não convenha. Os forrós, normalmente tocados em situações rurais ou populares onde a valentia é uma moeda desmedida de virilidade e macheza, são o locus da aparição desses sujeitos. Por conta disso, as mulheres que se enfeitam e se perfumam para irem ao forró, a fim de arriscar um xote colado - dois pra lá, dois pra cá... -, no "chililique" da chinela, só podem esperar que não falte "macho" no arraiá. Elas esperam que os sujeitos autoapresentados pela macheza, expressa na representação da fivela no meio do umbigo, se mostrem interessados por elas e, ao som de um gostoso e gozado forró pé de serra, no chão duro do massapé, ou no piso de cerâmica rústica, lhes convidem para dançar. Dali - quem sabe? - pode surgir um beijinho ou um namoro, que é o pano de fundo do roça - roça entre um cabra da peste e o balanço dos quadris de sua dama, vamos dizer assim. Eis o cenário esperado por quem se apresenta como "caçador" e quem se quer como "caça". Que mal há em todas essas coisas, se todas elas estiverem de comum acordo entre os interessados? Nenhum! Espero que o leitor e a leitora concordem comigo.  

No Forró do Pote que fui, na cidade de Natal, embrenhado num lugarejo de estrada de barro, fechado com cerca de arame farpado e rodeado por uma mata cheirosa, um pote gigantesco, onde se vendia bilhetes de churrascos e bebidas, foi construído no meio do pátio, para que os objetos antigos das casas do sertão fossem relembrados. O palco para o arrasta-pé estava pronto: boa música, pé de serra "purinho" e sem muitos improvisos - como diria Luiz Gonzaga -, mulheres sozinhas e muito marmanjo acompanhado com um copo de cachaça na mão completava o cenário. Os pobres coitados não sabiam, mas a combinação, para um tipo mais sofisticado de rapariga, era desastrosa. Cheguei ao forró acompanhado de quatro amigas, todas doidas para dançar, ralar a fivela e outras coisas próprias de gente independente e que "sabe o que quer". Como um cavalheiro, dancei pelo menos um xote com cada uma delas e me pus receptivo para mais alguns forrós, enquanto também observava a festança e conversava com as que estavam à mesa.

Após umas três horas de muito forró, muita risada e gente desfilando para cima e para baixo, era hora de irmos embora. Após atravessarmos a porta que separava o forró da estrada escura, uma angústia tomou de salto uma das amigas, que teve de expressar a sua raiva para o porteiro. Dizia ela para o infeliz: "meu amigo, por favor, diga a esses babacas que vêm pra esse forró deixarem a cachaça de lado e chamar a gente pra dançar". Por razões distintas, todos nós caímos na gargalhada. As outras três amigas se perguntando como aquela rapariga teve a coragem de dizer todas aquelas (e outras) coisas para o porteiro, e eu, que ao ver o interesse de algumas delas, passei a apontar, no meio do forró, vários sujeitos - bem vestidos, altos, baixos, gordinhos, magrinhos... Divertia-me ao ouvir as descrições dos "babacas" que não as interessavam. Parecem óbvias e conhecidas as razões da chateação, mas elas descrevem um sistema complicado. Minha amiga não estava falando de qualquer "babaca", mas de um certo tipo de sujeito pelo qual não se ofenderia se fosse cortejada. Com o artifício de questionar, à mesa, sobre os seus interesses, podia conhecer o grupo dos indivíduos que encheriam os seus olhos. Nenhum daqueles que passaram à nossa frente interessava a ela, o que implica em considerações engraçadas e importantes a fazer. Essas considerações foram afinadas em conversa com um amigo da Física da Uern durante viagem de carro pelo sertão potiguar. Vai saber o que a Física tem a ver com essas histórias!

Embora homens e mulheres desejassem a mesma "coisa" no Forró do Pote ou em qualquer outro, as mensagens enviadas de ambas as partes passaram por registros embaralhados. Explicarei. O sujeito, que toma o copo de cachaça como acompanhante, em vez de uma mulher cheirosa e doida para peneirar na sua perna enquanto sonha ser cheirada no pescoço, mobiliza ao menos duas coisas: atenção e coragem para se dirigir à rapariga do seu interesse. Às vezes são várias as que lhe interessariam. Uma delas, entretanto, que muitas das vezes já está dançando com quem não lhe interessa, o observa em meio aos detalhes - a camisa azul, o sapato marrom e um relógio preto... O cidadão se quer imagina que é observado com tal interesse, pois, à medida que está se "atirando" para outra(as), não consegue captar aquele sorriso e aquele olhar diferenciado, quase uma poesia em versos dizendo: "me acompanha". Essas mulheres e esses homens só satisfarão o seu desejo de entrar alegres no forró e saírem fartos de felicidade quando se dispuserem a conhecer a linguagem de quem se deseja e a relevar alguns detalhes dispostos a esfriar aquilo que a festa se preocupou em esquentar: o forrobodó e o chamego entre as pessoas. Os "babacas" em potencial ou "genéricos" apontados por minha amiga pagariam caro para saber onde estão errando e o que deveriam fazer para serem bem sucedidos no convite para tirar ela e outras raparigas para dançar. Essas moças, essas mulheres, de outro lado, devem fazer o esforço para encontrar o homem e o cavalheiro acompanhado de um copo de cachaça, mesmo que esta seja das mais baratas.

 

DICAS GRAMATICAIS

benjamimlinhares2@hotmail.com

SOM E FONEMA

Fonemas são os sons da fala que são capazes de estabelecer uma diferenciação de significado entre dois vocábulos. Um fonema é um som que é capaz de distinguir uma palavra de outra. Por exemplo, nos vocábulos ERRO (do verbo errar: eu ERRO frequentemente) e ERRO (substantivo: o ERRO é uma oportunidade de aprendizagem) os sons /é/ (do verbo) e /ê/ (do substantivo) são fonemas porque diferenciam dois vocábulos. Um outro exemplo de fonema é o som /c/ e o som /p/ nas palavras CÃO e PÃO. Esses sons são fonemas porque diferenciam dois vocábulos de uma língua.

Os diferentes sons que podem realizar um fonema são chamados de alofones ou variantes. Tente perceber no seu dia a dia como é diverso o modo das pessoas pronunciarem uma mesma palavra e compreenda que isso é natural da comunicação humana.  Quanto à escrita, aí é outra história. Na hora de escrever precisamos estar atentos e obedecer às regras de ortografia e de gramática. Isso porque a escrita não é uma transcrição direta da fala, tendo suas próprias regras e convenções que devem ser respeitadas. É por isso que essas regras e convenções existem.                                                                                                                          

REDUNDÂNCIA

Nas dicas de hoje vamos citar algumas redundâncias que jamais deverão ser usadas: tráfico ilegal (todo tráfico é ilegal); ganhar de graça (tudo o que se ganha é de graça); relações bilaterais de dois países (bi já significa dois); planos para o futuro (não poderiam ser para o passado); adiado para depois (não poderia ser para antes); viúva do falecido (não seria viúva se o marido não tivesse falecido); criar novos empregos (se estão sendo criados é porque são novos); entrar para dentro (não se pode entrar para fora); eis aqui nosso ilustre convidado (eis e aqui se repetem). O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe a vírgula entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

ORTOGRAFIA

Esta dica gramatical vai para um amigo meu que tem como apelido “Quarto seco de bode”. Palavras semelhantes com significados diferentes: branqueado: tornar branco - branquiado: que tem brânquias. Brocha: prego curto - broxa: pincel, sem potência sexual. Caçar: perseguir - cassar: invalidar, anular. Cegar: perder a visão - segar: ceifar, acabar. Cela: aposento de presos - sela: arreio. Cerrar: fechar - serrar: cortar usando serra. Cessão: ceder - seção: departamento, setor - sessão: reunião. Chá: infusão de folhas - xá: título dado a rei na antiga Pérsia. Cheque: ordem de pagamento - xeque: chefe árabe. Chistoso: gozador - xistoso: em que há xisto. Comprimento: extensão - cumprimento: ato de cumprir, saudação. Concertar: ajustar, harmonizar - consertar: restaurar, remendar. Coser: costurar - Cozer: cozinhar.

RAPIDINHAS

A dica de gramática de hoje é muito importante para gosta de escrever, porque é bastante comum quem escreve cometer esse tipo de erro, acentuar indevidamente as letras I e U. Para serem acentuadas, as vogais I e U precisam preencher três condições básicas:

 a) ser tônicas;

 b) ser precedidas de vogal;

 c) formar sílaba sozinha ou com S.

Exemplo: aí, caí, juízes, caído, Luís, incluído, caíste, baú, saúde, gaúcho, balaústre. Vale salientar que basta falhar uma dessas condições para não mais haver acento. Exemplo: ai, cai, juiz, caindo, Luiz, demiti-lo, transeunte, saudade.

QUE/QUÊ

Outro polêmico é o acento no Que, mas vou tentar explicar: Que e Ques só podem ser acentuados nos seguintes casos: em final de frase exclamativa Quê!, em final de frase interrogativa Quê ou quando se trata de substantivo. Exemplo: ele tem um quê que agrada ou ele tem alguns quês que agradam.

NÃO ESQUEÇA

A regra não deixa dúvidas. Usa-se limpo com os verbos ser e estar: ex:. estava limpo, será limpo. Usa-se limpado com os verbos ter e haver: ex:. havia limpado, terei limpado.

 

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