Mossoró, de 2004

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Quem quer dinheiro?

Caro leitor:

Há anos tenho desempenhado minhas funções de consultor empresarial e de instrutor de treinamentos de diversas entidades, e como professor da faculdade de economia da nossa querida UERN. Também, participei da implementação de diversos programas públicos de orientação ao pequeno empresário e pequeno investidor. Nestas atividades todas, tive (e tenho) a oportunidade de entrar em contato direto com estas personagens da nossa economia – afinal, estes são alguns dos “agentes econômicos” do nossos sistema – e, conseqüentemente, tomado ciência das dificuldades por eles enfrentadas.

Nesta nossa caminhada tenho percebido que, talvez, a maior das dificuldades dos empreendedores e pequenos empresários é o acesso ao crédito. Os empreendedores dependem deste crédito para poderem viabilizar inversões que materializem um Plano de Negócios ansiosamente montado que, muitas das vezes, representa a fonte de renda que proporcionaria mais dignidade às suas famílias. Já os pequenos empresários carecem destes recursos para a manutenção dos seus negócios, muitas das vezes por terem imobilizado demasiadamente o seu capital próprio, até mesmo por não possuírem uma formação mais adequada (ponto de vista técnico) mas, nem por isto, deixam de ter – na sua maioria – a principal virtude do empresário: o feeling, a percepção das oportunidades.

Invariavelmente tenho dito e aconselhado a estes investidores para que busquem os mecanismos oficiais de crédito, operado pelo sistema bancário, pois o marketing destas instituições aponta para “facilidades” diversas, de modo a favorecer o pequeno homem de negócios. Sempre defendi a posição dos bancos – especialmente a de somente emprestar dinheiro a quem demonstra “capacidade de pagamento” adequada – comparando-os a qualquer pessoa física individual quando solicitada a emprestar recursos seus a terceiros. Sempre referi-me à necessidade de se manter um cadastro atualizado como um bom ponto de partida quando se pretende solicitar crédito a terceiros, acompanhado de um Plano de Negócios (ou projeto) que comprove a capacidade e a viabilidade do negócio, para facilitar a tramitação dentro do órgão financiador.

Pois bem: recentemente, tomei conhecimento (comprovado) de que um cliente de determinado banco oficial local, já com seus sete, oito anos de conta corrente aberta (completamente regular e operando normalmente com a conta), solicitou financiamento para aquisição de equipamentos de informática, e apresentou todos os documentos, garantias e informações solicitados pelo referido banco. O solicitado, após analisar o perfil do solicitante, concluiu que o mesmo teria capacidade de pagamento quase duas vezes superior ao valor da parcela mensal do financiamento pleiteado, além de checar todas as informações prestadas, devidamente confirmadas e, ainda, verificar que o referido não constava em nenhum organismo de controle de crédito (SPC, Serasa, CADIM etc.). Também, do mesmo modo e intensidade, foi verificado o cadastro do avalista oferecido, com exatamente as mesmas conclusões. Além disto, ainda, o solicitante já havia efetuado uma transação estritamente do mesmo tipo e monta com a referida instituição bancária, tendo quitado todo o financiamento com mais de seis meses de antecedência.

Com base no exposto acima, a conclusão lógica era a de que o crédito teria sido concedido sem maiores perdas de tempo, não é? Pois não foi concedido! Pasmem! Sabem qual foi o motivo? O cliente não tinha cartão de crédito do referido banco, nem também nenhum plano de capitalização, seguros ou poupança! Ou seja, segundo o banco, aquele cliente que operou durante anos em conta corrente, descontos de cheques de clientes, poupança etc, sem devoluções de cheques emitidos ou coisa parecida, não tinha “fidelidade” com o mesmo! O caso foi levado à gerência regional da instituição, depois, à gerência estadual e, simplesmente, a negativa foi mantida por que o “sistema informatizado” não concedia o crédito a clientes “infiéis”! Orientei o cliente da historinha trágica acima a procurar um outro banco – também estatal – para uma nova tentativa. O resultado, para ser mais direto, foi completamente diferente: além do crédito solicitado, o cliente ainda recebeu um limite de cheque especial de dez mil reais, e a disponibilização de novos créditos para eventuais necessidades ou aquisições! E mais, o crédito foi concedido em apenas três dias úteis, o que considero um tempo recorde.

Ainda bem que esta história real teve um final feliz pois, para mim, seria muito decepcionante testemunhar uma situação tão ridícula deste tipo acontecer, e negar tudo o que eu sempre defendi e proclamei na minha vida profissional. Na nossa visão, o banco que negou o crédito perdeu uma excelente oportunidade de fidelizar o cliente, visto que o abandonou numa hora em que ele mais precisava; sem contar que o cliente não representava nenhum risco e detinha potencial de negócios, pois o outro banco acatou a proposta e abriu perspectivas novas para ele.

Agora, algumas conclusões nos vêm à cabeça, e devem ser encaradas como lições a se guardar:

1. Observe bem se o seu banco demonstra alguma preocupação com você e sua empresa.  Isto pode ser checado – por exemplo – com o número de vezes que ele te convida para conversar, ou com o número de vezes que você recebe algum material oferecendo serviços, por ano.

2. Eventualmente, cheque com o seu gerente se é possível realizar esta ou aquela transação. Se você perceber muitas dificuldades, mude de banco, pois este não vai te ajudar em nada no futuro.

3. Se você não tem conta bancária, antes de abrir uma converse com pessoas próximas e peça opiniões. Fidelização é, realmente, um bom capital a ser construído com um banco, mas é preciso avaliar se este banco corresponde. No caso da história acima, a falha foi em cortar direitos do cliente “infiel” e não, oferecer vantagens para aqueles considerados “fiéis”. Pura punição!

4. Mesmo tendo sinais positivos, esteja sempre avaliando outros bancos. Pode ser necessário amanhã!

5. Nunca desista, se a sua idéia for realmente boa, pois você pode estar sendo mal avaliado.

6. Procure ajuda de quem entende: existem vários órgãos e empresas que podem ajudá-lo e orientá-lo adequadamente. Se você ficar com o problema sozinho, dificilmente vai resolvê-lo a contento.

Voltando à historinha acima, será que o cliente ainda vai manter a conta no banco antigo? A resposta está com você!

Até a próxima!

Franklin Alves Filgueira é economista, professor de Economia e Administração da UERN, consultor e diretor da Índice Consultores Associados de Mossoró e Fortaleza.

 

 

 

 

 

 

 

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