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Erros e crimes
IVÁN IZQUIERDO
Neurocientista
e escritor, é professor titular de medicina da PUC-RS.
Uma das coisas que mais me impressionam nestes meses de mensalões, mensalinhos, seguradoras, correios, traições e demais corrupções é que os principais responsáveis, quando se referem aos crimes correspondentes e a seus autores, repetem a palavra "errar". "Erramos", disse o presidente a uma entrevistadora na França -e depois reiteradamente a outros repórteres ou em discursos. Ou, mais freqüentemente, "erraram", como se estivesse falando de gente que não conhece ou com a qual não tem muito a ver. O mesmo verbo foi utilizado à exaustão por José Dirceu, Marcos Valério, Delúbio e demais membros da confraria.
Nas religiões, os crimes cometidos por essa alegre quadrilha se denominam pecados, e não erros. Erro é pretender interferir na escolha de um novo papa, por exemplo; mas subornar deputados ou roubar dinheiro público ou privado são pecados. Isso pensa a religião da qual várias dessas pessoas alegam ser adeptas e à qual alguma vez juraram sua fé -ao retirar recentemente um projeto de lei de aborto, por exemplo. Já na Justiça, esses pecados são considerados crimes, e a lei do país estabelece penalidades para os mesmos.
A palavra "erro" pode se aplicar a crianças que, por desconhecimento, quebraram algum vidro com uma bola mal chutada. Mas aqui a bola foi mal chutada de um ponto de vista ético, não houve inocência nem desconhecimento do alcance e do propósito dos crimes. A imagem do Brasil como um todo foi grosseiramente manchada, justamente quando os líderes que "erravam" estavam postulando o país para ocupar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, nada menos! Foi manchada não só a imagem do Brasil mas também a de suas instituições de governo, a de suas autoridades, a de um número grande de funcionários, a da trajetória inteira de um partido que, durante 25 anos, declamou honestidade e a reclamou dos outros e a imagem da trajetória de seu líder inconteste.
De nada adianta tentar escamotear a figura do Lula para manter o dólar baixo (como pede o FMI) e a bolsa alta (como pede o famoso mercado). Se ele não sabia dos crimes que estavam sendo cometidos, fica como aquele marido que parece ser sempre "o último a saber": bem pouca coisa para um presidente da República. Só merece ser presidente quem é "o primeiro a saber", principalmente quando se trata de crimes que dizem respeito à gestão de seu próprio governo, aos seus colaboradores mais próximos, ao seu partido e aos seus aliados.
Desolador foi também presenciar a maneira descarada com que o "mercado" e boa parte da imprensa que lhe responde operaram o desempenho do dólar e da bolsa durante estes meses de vergonha. Quando parecia que algum dos peixes grandes ou o governo como um todo iriam se salvar de tal ou qual acusação, o dólar caía e subia a Bolsa, impulsionados por boatos extraordinários de crescimento econômico (3,1% são um crescimento tão extraordinário assim ou o bolso das pessoas na rua tem uma opinião diferente?).
"Ah, parece que essa aí não vão conseguir provar!", "Palocci se safou!" etc. Essas frases foram tão ouvidas nos meios "bem pensantes" durante as primeiras acusações contra o Dirceu ou contra Genoino ou contra Delúbio... Claro que depois vieram as segundas e as terceiras acusações, vieram as provas, e o número de acusados subiu. Até o pequeno subornador de restaurantes está entre os acusados -só que de uma coisa menor, como corresponde à sua estatura moral e intelectual.
Festeja-se, nesses meios "bem pensantes", não a possibilidade de que o próprio presidente possa ser inocente, mas o fato de que até agora conseguiu tirar o corpo fora. Conseguiu? Então um bom álibi é mais importante do que a responsabilidade pelos subordinados? Os "erros" da Alemanha nazista foram só dos suboficiais da SS? E os do antigamente bem-amado Stalin foram dos comissários mais longínquos?
Creio que esteja na hora de chamar as coisas pelo nome e não mais tentar nos convencer de que escapar de uma acusação é tão bom quanto não cometer os crimes. Ou de que crime é "erro". Há uma sociedade que, por incrível que por momentos pareça, é profundamente ética: chama-se o Brasil.
Sei que no país onde o rigor da prisão está reservado aos ladrões de galinhas essa afirmação soa perigosamente ingênua. Mas este é um país onde a maioria das pessoas que encontra pacotes na rua os devolve. Onde a maioria da população ajuda a seus necessitados. Onde há milhões que se dedicam, de graça, ao trabalho solidário. Onde cada incêndio, desastre natural ou acidente grave revela heróis que preferem depois ficar no anonimato. Onde há, sem dúvida, muitos criminosos e bandidos, mas a maioria da população os detesta, embora os tema. O temor vem da ineficiência da força pública, cujo orçamento é surrupiado para atender, pelo que parece, a demanda de politiqueiros insaciáveis.
Vale a pena defender a nossa sociedade, porque é a sua ética que a mantém coesa. No dia em que o exemplo que vem de cima a permeie por completo, Deus nos acuda.
Segurança e medo
BORIS FAUSTO
Historiador,
é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura
Internacional) da USP.
Nas últimas décadas, muitos indicadores sociais do Brasil melhoraram. Entre eles, os índices de mortalidade infantil, de expectativa de vida, de pessoas alfabetizadas, de crianças e jovens cursando o ensino fundamental. Mas, em matéria de segurança do cidadão e, portanto, de avanço da criminalidade, chegamos a níveis insuportáveis. É preciso insistir no tema, mesmo com o risco de repetir coisas sabidas, quando mais não fosse para enfrentar a resignação e a banalização da violência na vida cotidiana.
Alguns traços básicos da onda de criminalidade apontam para a sua extensão geográfica, para a criação de novos tipos de delito, para o aumento do grau de agressividade dos infratores. Instaurou-se também um clima de medo, revelado pelas medidas defensivas que as pessoas vêm tomando, com boas razões. Os muitos ricos tentam se proteger com automóveis blindados, empresas de segurança especializadas, escoltas, câmeras etc. A classe média recorre mais às cercas eletrificadas, aos precários vigilantes de rua, despreparados e assustados. Os pobres da periferia se trancam em suas casas à noite e arriscam a vida ao sair muito cedo, a caminho do trabalho, nos pontos de ônibus e nas estações de trem. Isso sem se falar do cenário mais geral dos "toques de recolher" impostos pelo crime organizado, dos túneis fechados convertendo-se numa armadilha onde as pessoas correm tomadas pelo pânico, das áreas de favela -território que o Estado não controla e onde a força policial penetra esporadicamente, como ocorre no Rio de Janeiro.
Por que chegamos a essa situação? Já vai longe o tempo em que se atribuía a criminalidade apenas à pobreza e à miséria, o que era uma injúria a milhões de pessoas honestas que sobrevivem em meio a penosas condições de existência. Mas as tensões sociais de uma sociedade tão desigual, em que os protestos coletivos são proporcionalmente reduzidos, acabaram se canalizando para a violência sob forma individual. À desigualdade - uma constante da nossa história - veio se juntar a crise da instituição familiar, a quebra generalizada de valores, a busca de "felicidade imediata", a qualquer preço, tendo por objeto do desejo os bens de consumo multiplicados -dos tênis de marca numa ponta aos carrões de luxo, na outra.
O crescimento econômico, se associado à ampliação do emprego, pode melhorar o quadro aqui sumariamente descrito. Mas não há automatismo entre o que ocorre na área da economia e na área da criminalidade. Basta lembrar um dos aspectos mais graves do problema -o tráfico e consumo de drogas, opção tentadora de ganhos vultosos, em que não só gente de favela como de classe média está envolvida pesadamente.
Essas linhas não pretendem contribuir para o reforço de um clima catastrófico. É justo reconhecer que medidas vêm sendo tomadas no sentido de reverter o quadro atual. No Estado de São Paulo, que conheço mais de perto, são inegáveis os avanços das polícias Civil e Militar em tecnologia e na preparação de seus quadros, com resultados apreciáveis. Exemplificando: os dados revelam que, do segundo trimestre de 2002 até o segundo trimestre de 2005, a queda de homicídios dolosos foi de 40% em todo o Estado (44% na capital). Com relação aos seqüestros, tomando-se em consideração o mesmo período, houve uma redução de 69% no Estado (73% na capital).
Ao mesmo tempo, algumas experiências que combinam medidas preventivas e repressivas com uma constante atuação social, numa associação entre prefeituras, polícia e ONGs, têm produzido efeitos localizados muito positivos, no caso de bairros como o Jardim Ângela, ou de uma cidade da Grande São Paulo, como Diadema.
Também a campanha nacional pelo desarmamento vem contribuindo para reduzir os crimes contra a pessoa, sendo de esperar que o plebiscito, já próximo, aprove a proibição. Ela se justifica não só pela incapacidade da imensa maioria da população de utilizar armas adequadamente, mas, sobretudo, porque dispor de armas à mão significa muitas vezes tirar a vida de alguém, em situações que poderiam não passar de agressões de efeitos limitados.
As indicações positivas não pretendem significar, nem de longe, que o quadro geral de insegurança está em franca desaparição. Se muitas distorções sociais e muitos erros levaram ao cenário atual, sua reversão demandará um leque variado de iniciativas, em macro e microescala, envolvendo redução do desemprego, oportunidades educativas atraentes, medidas policiais eficazes, preventivas e repressivas, como sabem os especialistas melhor do que eu. Mas as indicações positivas demonstram que é possível atuar eficazmente, tendo como meta garantir a tranqüilidade dos cidadãos, entregues muitas vezes à descrença e ao desespero.
A profunda reversão do quadro negativo não tem condições de ocorrer a curto prazo. Mas, se as pessoas perceberem ganhos tangíveis nesse caminho, passarão, pouco a pouco, a se livrar do medo, a se sentir seguras em casa e a ocupar o espaço público pelo qual hoje transitam furtivamente. Coisas elementares, diria um habitante das terras nórdicas. Grande avanço!, diriam, aliviados, milhões de brasileiros decentes.
Grandão de calça curta
CLÓVIS ROSSI
Articulista
da Folha de São Paulo
BRUXELAS - O Brasil está sendo tratado pelos europeus como parte do, digamos, quadrado mágico das negociações comerciais planetárias. Paolo Guizotti, que supervisiona para a Comissão Européia o conjunto das negociações, chega a dizer que o Brasil, com Índia, Estados Unidos e a própria UE, é parte do "novo quad".
O "quad" anterior (o quadrado mágico anterior) era formado por EUA, UE, Japão e Canadá, ou seja, por três das maiores potências do planeta, o bloco que rivaliza com os Estados Unidos em matéria de capacidade econômica.
Essa comparação basta para que se entenda o tamanho do "upgrade" que os europeus estão dando ao Brasil -desproporcional, de resto, ao reduzido peso que o país tem no comércio internacional. Mas o afago não vem de graça.
Peter Mandelson, o comissário europeu para o comércio e, como tal, a mais alta autoridade européia em negociações internacionais, cobra, por exemplo, que Brasil (e a Índia, o outro emergente no suposto "novo quad") desempenhe um "papel de liderança também em bens industriais e em serviços".
Tradução: além de cobrar a abertura agrícola do mundo rico, ajudem a liberalizar outros setores, o que está longe de ser uma prioridade para o Brasil, centrado na agricultura.
Mais diretamente, a eurodeputada socialista alemã Erika Mann diz que "o Brasil não está administrando adequadamente o seu novo papel global". Para ela -o que, de resto, é consenso entre os eurodeputados-, o nome do jogo nas negociações comerciais é "eu faço, vocês fazem". Ou seja, se o Brasil quer concessões na agricultura, terá que fazê-las nas áreas de interesse dos europeus.
Aí é que começa o problema: o Brasil, sempre afogado no curto-prazismo, não consegue saber direito o que quer fazer quando crescer. Já cresceu, pelo menos visto de longe.
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Mossoró-RN, de 2005