ATUALIZADO AOS DOMINGOS

Carta ao Rei dos Poetas

A carta de João Mossoró ao Rei dos Poetas - a seguir transcrita - é um gracejo envolvendo personagens mitológicas, textos de Manuel Bandeira, Shakespeare e Esopo. Publicaram-na em junho de 2000, na 5ª edição do jornal "A Ordem", veículo litero-anarquista da Ordem dos Poetas Trágicos, de cujo conselho editorial faziam parte Melpomene, Calíope, Clio, Euterpe, Erato, Terpsícore, Talia, Polímnia e Urânia. Não posso citar nomes, por absoluta falta de provas, mas tenho lá minhas suspeitas acerca das verdadeiras identidades do missivista e do destinatário da mensagem.

Grande Rei dos Poetas,

espero que tudo esteja bem aí no Parnaso e que as musas mais lindas continuem a rodeá-lo. Você merece!

Aqui na terra dos monxorós, a cegueira intelectual está cada vez maior e os recalcados berram seu ódio nas noites de lua cheia.

Certa feita, em protesto, a doce Febéia escondeu-se num eclipse e tampou os ouvidos com duas grandes nuvens para não se contaminar pela nojeira desses espíritos de porco.

 Imagine que um sapo de cara amarrada, andar atarracado e voz tenorosa, dos que se acham donos da verdade, saltou sobre uma folha pousada na lama podre da margem do nosso falecido rio e disparou a gritar: "Meu pai foi rei!"

Que confusão terrível, poeta. Sua mente sensível e inspirada não suportaria tanta erudição arrotada pelas nádegas do velho sapo-boi. O pior é que ele insistia, incansavelmente: "Meu pai foi rei!", e a saparia, histérica, contestava: "Não foi!"

O coaxar insuportável durou a noite inteira:

- Meu pai foi rei!

- Não foi!

- Foi...

- Meu pai foi rei!

- Não foi!

- Foi...

Ah, meu Rei, que triste o final dessa história. Nem Othelo, o mouro, ao matar a inocente Desdêmona, contaminado pela flecha torpe do ciúme, ou o sangüinário final de Hamlet, o príncipe da Dinamarca, fizeram-me chorar tanto. De repente, o sapo recalcado, com complexo de boi, começou a inchar de vaidade. Inchou, inchou, inchou... até explodir.

Morte trágica. A saparia, insensível, ficou fazendo pilhéria diante da desgraça do louco que se dizia ex-príncipe do Parnaso, portanto, Rei dos Reis, seu filho. Lógico, ninguém acreditou.

Os restos mortais do sapo martelador de regras desregradas e escritor de sonetos que ninguém nunca leu misturaram-se à lama da margem do rio e desapareceram na podridão solene da imbecilidade.

Dizem uns caçotes maldosos, que a loucura que afetava o sapão era mal de família, que ele era primo de Joana (se bem que, segundo afirmam, Joana era falsa demente).

Nunca havia visto esse sapo-boi até o triste dia em que o tal anfíbio surgiu da lama e, em cinco minutos, à lama retornou. Mas pude verificar que os atos dele eram fruto de vaidade senil, alimentada pela frustração de não ter posto as nádegas na cadeira ocupada por você.

Vou ficando por aqui. Recomende-me a Euterpe, minha comadre. Se houver novidades no mundo asqueroso desses sapos morais, voltarei a escrever-lhe. Afinal, amigo é para essas coisas.

Saudações poéticas,

João Mossoró

 

CID AUGUSTO
E-MAIL: cid@digizap.com.br

Integra a equipe de O Mossoroense

 

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