Mossoró-RN, domingo 16 de novembro de 2008

Um certo sargento-mor da Ribeira de Mossoró

Geraldo Maia
gmaia@bol.com.br

Atribui-se ao sargento-mor Antônio de Souza Machado, português de Braga, antigo morador de Russas e da Barra de Mossoró, a quem competia maior porção de terras da Ribeira do Apodi, ser o titular e verdadeiro colonizador da região. Era proprietário da Fazenda Santa Luzia, que compreendia a Serra Mossoró, Pau do Tapuio e Sítio Bonsucesso.  Essa fazenda, segundo informações do historiador Francisco Fausto de Souza, "estendia-se pela margem esquerda do rio Mossoró e ao mesmo tempo da Mata, tendo entre esta e o rio uma lagoa de água potável".  Essa lagoa enchia-se com as precipitações pluviais ou quando o rio transbordava, saindo do seu leito. Era, provavelmente, a Lagoa de Ipoeira, que ficava em terrenos próximos à atual Igreja do Coração de Jesus, e que fora aterrada em 1878.

Souza Machado invernava todos os anos na Santa Luzia e dela rebanhava o gado de corte, mandando as reses para a "Ilha das Oficinas"  para serem abatidas e feita a carne seca para exportação rumo às Capitanias do  Sul, especialmente Pernambuco. O local era Porto Franco, onde depois veio a ser a Estação da Estrada de Ferro de Mossoró.  

Por volta de 1750, Souza Machado  mudou-se com a família para as terras da Santa Luzia.  E o povoamento começa, pois "além das casas residenciais da família do proprietário, erguiam-se dezenas de outras, igualmente de taipa e palha, raras com telhas côncavas, na dispersão dos pequeninos sítios perto das cacimbas cavadas periodicamente", como nos ensina Câmara Cascudo.

Era um tipo interessante esse capitão-mor: "Encarnava o espírito de senhor latifundiário poderoso numa época de declínio, ainda assim, imperioso e forte", usando as palavras de Raimundo Nonato. "Mantinha firme aquelas mesmas qualidades de quem sabia dirigir com energia. Daí, por certo, a prosperidade das suas fazendas, onde suas ordens criavam uma verdadeira ordem de disciplina e trabalho. Sua influência estava em toda parte, e nas suas terras sua sombra era sempre vigilante."

Por volta de 1772, Souza Machado, abastado e trabalhador incansável, interessando-se pelo povoamento da Ribeira de Mossoró, resolvera, às suas expensas, construir uma capela em sua fazenda "Santa Luzia", com a invocação do nome da Virgem de Siracusa - "a quem se diz que tem nos olhos a claridade luminosa do primeiro Dia da Criação". Raimundo Nonato, no seu livro "História Social da Abolição em Mossoró (Coleção Mossoroense - Vol. CCLXXXV - 1983)", diz: "A exemplo de outras capelas feitas no sertão,  corria em Mossoró a lenda de que a de Santa Luzia foi feita em pagamento de uma promessa da mulher de Souza Machado, Rosa Fernandes." Não sabemos se houve ou não a promessa. Sabemos, sim, que Antônio de Souza Machado e sua mulher Rosa Fernandes solicitaram a Provisão das Dignidades do Cabido de Olinda (PE), autorização para construção de uma capela em suas terras, permissão essa concedida a 5 de agosto de 1772, sendo o primeiro ato litúrgico celebrado em 25 de janeiro de 1773, quando foi batizada uma criança do sexo feminino, em cerimônia cujo oficiante foi o padre José dos Santos da Costa. Essa capela foi construída de pedra e cal, no citado ano de 1772, pelo referido sargento-mor, que com ela despendeu a quantia de 590$770rs. Em derredor do modesto templo foram sendo construídos rústicos casebres que, mais tarde, formariam a quadra da rua.

 A construção da Capela de Santa Luzia é considerada o marco inicial para o surgimento da cidade de Mossoró. E da capela, o sargento-mor Antônio de Souza Machado foi procurador, administrador e tesoureiro até a sua morte, em 1798.

Na entrada da atual Matriz de Santa Luzia,  que fora edificada no mesmo local da antiga capela, existe uma placa  que diz: "À memória do sargento-mor Antônio de Souza Machado a homenagem dos professores e formados da Universidade Regional do Rio Grande do Norte, no bicentenário da fundação de Mossoró. V-VIII-MCMLXXII".

 

Defeitinho

André Freitas
andree.ufc@gmail.com

A imperfeição é uma característica humana. Atire a primeira pedra aquele que nunca ficou olhando para o espelho, reparando algum defeitinho no corpo. Seja uma orelha com um ângulo não perto dos noventa, seja um nariz um pouco adunco. Uma coisa é certa: não existe ninguém sem um defeitinho. Uma coisinha pouca, perturbadora, muitas vezes, apenas para o dono. Pouco reparável, mas que está lá, irretirável, imperturbável no seu trono de rival da estética perfeita. Não queremos ser perfeitos, não podemos ser perfeitos. Diga-se isso aos Adobes da vida. O defeitinho é essencial, necessário para a conservação humana.

O pior inimigo do defeitinho é o cirurgião plástico. Na sua cósmica cruzada pela extinção dos defeitinhos, ele tenta deixar as pessoas perfeitas, não-humanas, não-sensíveis. Deve ser sua maquiavélica vontade de tornar todos iguais. O cirurgião, uma pessoa fria, sem sensibilidade histórica da humanidade e sem o mínimo de consideração, trava sua luta todos os dias contra o defeitinho. O cirurgião plástico é o maior dos hipócritas, ele mesmo não quer se livrar do defeitinho. O doutor, mesmo conhecendo todas as armas e estratégias da plástica, continua sem passar por uma cirurgia. Ivo Pitanguy continua com aquela sua aparência por quê? O mundo está repleto de exemplos: dentistas com dentes tortos, dermatologistas carecas e cirurgiões com orelhas de abano.

Existem pessoas que, na sua mais consciente benevolência e coragem sincera, pois poucos são não hipócritas, defendem o defeitinho.

– Tem que ter uma barriginha para poder acariciar, deve servir de amortecedor naquelas horas ou de travesseiro quando estamos assistindo à novela.

A humanidade ainda não se deu conta da importância do defeitinho. Ele deveria ser aclamado uma autarquia, uma entidade intocável, mais poderoso que o Poderoso Chefão. Talvez, no inconsciente coletivo, já tenha virado patrimônio da humanidade. Deveríamos abdicar o escuro da mente humana e abraçar de vez a causa do defeitinho. Cantar odes e fazer poesias a essa benfazeja característica física.

É uma criatura infeliz aquela que nunca se apaixonou pela dona do defeitinho no mesmo momento em que se dá conta dele. É a aurora boreal do namoro: você não só tolerar o defeitinho, mas também começar a defendê-lo, a amá-lo. É o responsável direto e inabalável de milhares de casamentos. Aquele dedo meio torto da sua namorada, só você teve o privilégio e a audácia de perguntar sobre o fato criador do sublime aspecto e só você pôde brincar com ela por causa disso. O defeitinho aproxima os casais, faz que tenham mais intimidade. Os amantes dividem seus defeitinhos, que viram motivo de brincadeira e até de mimos. É a descontração do encontro a dois.

O enfado que seria a perfeição! Todo mundo igual! Nada de pequenos pormenores para analisar de verdade, nada para comemorar, nada para passar horas olhando a perder de vista, nada de carinho. Pessoas sem mistérios, sem vida, sem história. Só o marasmo, só a solidão da perfeição.

 

DICAS GRAMATICAIS

benjamimlinhares2@hotmail.com

JUIZ OU ÁRBITRO

As pessoas costumam confundir árbitro, aquele que conduz um jogo de futebol (por exemplo), com juiz, magistrado. Eu acredito que muitos confundem as duas funções porque o árbitro, como juiz, quando está atuando julga ou decide tudo dentro de um campo de jogo. Mas, na verdade, aquele que dirige um jogo ou prova esportiva com direito de decisão quanto ao seu desenvolvimento ou fatos disciplinares é o árbitro e nunca juiz. Vale salientar que a autoridade máxima em uma prática esportiva é o árbitro. O juiz, autoridade do Judiciário, não manda em absolutamente nada dentro de campo. Então, leitores, vamos nos acostumar a tratar o “juiz de futebol” de árbitro.

EMPREGO DA VÍRGULA

"A estudante de Comunicação Social da Uern, Leilane Andrade, lamentou o episódio, e disse que se tratou de caso isolado." Prestem bem atenção na construção deste período e vejam a vírgula colocada antes da conjunção aditiva "e".

Sempre é bom lembrar que, antes das conjunções aditivas, não se emprega a vírgula, exceto em situações especiais.  O que vemos no período acima é a coordenação de dois verbos de sujeito idêntico, situação em que não cabe a vírgula. A mesma pessoa que lamentou o episódio disse alguma coisa.

EMPREGO DA VÍRGULA II

Continuando a nota anterior. É importante dizer que, no período citado, os verbos têm o mesmo sujeito porque, caso se coordenassem orações de sujeitos diferentes, a vírgula seria admissível. Assim: "A moça estuda, e o gato dorme" (vírgula admissível, porém desnecessária, uma vez que a construção não oferece possibilidade de duplo sentido) e "O rapaz toca piano, e a moça, violão" (vírgulas obrigatórias: antes do "e", evita uma ambigüidade).

CHEQUE

Um cheque tem fundo ou tem fundos? Um cheque está sem fundo ou sem fundos? O correto é fundos no plural, pois é no plural que fundo tem o sentido de provisão de dinheiro disponível para saque bancário.

PLURAL

Bastante é invariável quando se trata de um advérbio: dormi bastante, comi bastante. Mas bastante pode ir para o plural quando atua como adjetivo: ele tem dados bastantes (suficientes) a meu respeito; ou como pronome indefinido: comemos bastantes (muitos) bifes.

QUAL É O CERTO?

Um amigo perguntou-me se o correto seria infarto, enfarto ou enfarte. Disse-lhe que as três formas são igualmente certas para designar a suspensão do fluxo sangüíneo em alguma região do corpo, causada pelo entupimento de uma artéria.

RÁPIDINHAS

Em quanto é uma expressão formada pela preposição em e o pronome quanto. Usa-se em frases como: em quanto tempo você lê essa dica? Já enquanto é uma conjunção, como neste caso: enquanto eu lia essa dica, o telefone tocava.

Entre muitas funções, a vírgula é utilizada para indicar intercalações de expressões que corrigem ou tornam mais precisa uma sentença: Você poderia, por exemplo, comprar um carro; você poderia, ou melhor, você deve comprar um carro; você, aliás, nós dois poderíamos comprar um carro.

SÃO OU SANTO

Santo, segundo os preceitos religiosos, é aquele que obteve o céu como recompensa de suas virtudes. Quanto a isso, tudo bem. Mas o que eu quero explicar é a diferença entre santo e são, porque muita gente ainda não sabe por que se chama um de santo e outro de são. Segundo a gramática da Língua Portuguesa, antes de nomes que principiam por vogal ou H (Santo Antônio, Santo Hilário) usa-se santo. São é a forma apocopada de santo. Portanto, são se deve usar antes de palavras que começam com consoante (São Joaquim, São Luiz).

Nota da coluna: Apocopado é o que sofreu apócope. E apócope é a supressão de fonema ou de sílaba no fim de palavra: Por exemplo: bel, por belo (em bel-prazer); são por santo; mui por muito e etc...

 

TRADIÇÃO E MODERNIDADE NAS RELAÇÕES AFETIVAS

Karlla Souza - Antropóloga
karlla_chris@yahoo.com.br

Existe uma discussão atual acerca da dissolução do papel da família e suas conseqüentes perturbações na vida afetiva e social dos indivíduos. Não é exatamente este o enfoque que gostaria de dar a este tema. Utilizando a descrição do filme "Alguém tem que Ceder"  -lançado em 2003 pela  Warners Bros. Pictures e Columbia Pictures, protagonizado por Jack Nicholson e Deane Keaton e dirigido por Nancy Meyers, mesma diretora de Coração Cupido (1998) e Do que as Mulheres Gostam ( 2000)-, gostaria de enfatizar a maneira leve e engraçada que o filme traz das transformações dos parâmetros afetivos da modernidade e, sobretudo, as transformações da intimidade que implicam uma reviravolta em antigos modelos de relacionamento e a descoberta de novas formas de convivência e afetividade conjugal.

No filme, Erica Barry, uma famosa escritora de teatro, cinqüentona desquitada e muito devotada ao trabalho, é surpreendida em sua casa de praia pelo "ficante" de sua filha Marin (Amanda Peet), que por acaso foram curtir o final de semana no mesmo local. O estranhamento com o namorado da filha, Harry Saborn, se dá, não apenas pela presença inusitada, mas pela diferença geracional entre os dois. O bem-sucedido empresário, sessentão descompromissado, é conhecido pelos seus casos com mulheres famosas e meninas que têm idade de serem suas netas.

A trama começa a surpreender quando o solteirão sofre um infarto e é auxiliado pela escritora e por um jovem médico vivido por Keanu Reeves. Por ordens médicas, Erica acaba acolhendo o teimoso paciente em sua casa e daí começa-se a se esboçar uma relação de intimidade em que os dois vão-se descobrindo durões e fechados à afetividade mais profunda. Para incrementar a trama, o jovem médico passa a cortejar a escritora e procura investir num relacionamento sério. A presença paralela de Marry, filha de Erica , e do médico Julian, enxerta o conflito de gerações e da mudança de valores da tradição e da modernidade, que se mostra pela dificuldades em que todos têm de viver um compromisso sério.

Erica sente-se uma mulher ameaçadora, sua independência financeira e sua segurança enquanto profissional talentosa a fazem crer nisso; Marry, não consegue encontrar uma pessoa com quem elaborar laços de convivência e ainda sofre com a separação dos pais; Dr. Julian, jovem, bonito, rico e gentil, sente-se isca fácil para  mulheres à procura de facilidades e, por fim, Harry, um homem que ainda não descobriu como ser cortês, sua maior perícia é exercitar sua função sexual.

O protótipo do modelo tradicional do qual me refiro, são as relações de casamento baseadas em critérios como status social, parentesco e divisão sexual do trabalho. A modernidade rompe este estereótipo de parcerias sólidas e estáveis para lançar os desafios de uma relação de reciprocidade baseada no equilíbrio do prazer para os dois. A modernidade é marcada também pela tentativa de emancipação das situações de opressão vividas pelas mulheres e pela abertura para uma diversidade de possibilidades de escolhas de relações íntimas, pois em contraste com as maneiras antigas de casamento, os laços devem ser escolhidos livremente e não mais baseados em projetos duráveis. Por isso, redescobrir o sentido do compromisso é a chave dessa difícil construção, pois aceitar ser comprometido com uma pessoa é aceitar o sacrifício de descartar uma série de opções potenciais e os riscos e tribulações que revelar a intimidade pode desnudar.

O filme é inteligente porque através da mistura de gerações consegue lançar boas sugestões para este dilema.  Para além, reverte ainda uma imagem comum de que somente as mulheres estão à procura do amor, mostrando também os homens preocupados em repensar suas relações emocionais e enfrentar seus sentimentos e suas dificuldades.

 

 

 

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