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Um
certo sargento-mor da Ribeira de Mossoró
Geraldo Maia gmaia@bol.com.br
Atribui-se ao sargento-mor
Antônio de Souza Machado, português de Braga, antigo
morador de Russas e da Barra de Mossoró, a quem competia
maior porção de terras da Ribeira do Apodi, ser o titular
e verdadeiro colonizador da região. Era proprietário
da Fazenda Santa Luzia, que compreendia a Serra Mossoró,
Pau do Tapuio e Sítio Bonsucesso. Essa fazenda,
segundo informações do historiador Francisco Fausto
de Souza, "estendia-se pela margem esquerda do
rio Mossoró e ao mesmo tempo da Mata, tendo entre esta
e o rio uma lagoa de água potável". Essa
lagoa enchia-se com as precipitações pluviais ou quando
o rio transbordava, saindo do seu leito. Era, provavelmente,
a Lagoa de Ipoeira, que ficava em terrenos próximos
à atual Igreja do Coração de Jesus, e que fora aterrada
em 1878.
Souza Machado invernava
todos os anos na Santa Luzia e dela rebanhava o gado
de corte, mandando as reses para a "Ilha das Oficinas"
para serem abatidas e feita a carne seca para
exportação rumo às Capitanias do Sul, especialmente
Pernambuco. O local era Porto Franco, onde depois veio
a ser a Estação da Estrada de Ferro de Mossoró.
Por volta de 1750,
Souza Machado mudou-se com a família para as terras
da Santa Luzia. E o povoamento começa, pois "além
das casas residenciais da família do proprietário, erguiam-se
dezenas de outras, igualmente de taipa e palha, raras
com telhas côncavas, na dispersão dos pequeninos sítios
perto das cacimbas cavadas periodicamente", como
nos ensina Câmara Cascudo.
Era um tipo interessante
esse capitão-mor: "Encarnava o espírito de senhor
latifundiário poderoso numa época de declínio, ainda
assim, imperioso e forte", usando as palavras de
Raimundo Nonato. "Mantinha firme aquelas mesmas
qualidades de quem sabia dirigir com energia. Daí, por
certo, a prosperidade das suas fazendas, onde suas ordens
criavam uma verdadeira ordem de disciplina e trabalho.
Sua influência estava em toda parte, e nas suas terras
sua sombra era sempre vigilante."
Por volta de 1772,
Souza Machado, abastado e trabalhador incansável, interessando-se
pelo povoamento da Ribeira de Mossoró, resolvera, às
suas expensas, construir uma capela em sua fazenda "Santa
Luzia", com a invocação do nome da Virgem de Siracusa
- "a quem se diz que tem nos olhos a claridade
luminosa do primeiro Dia da Criação". Raimundo
Nonato, no seu livro "História Social da Abolição
em Mossoró (Coleção Mossoroense - Vol. CCLXXXV - 1983)",
diz: "A exemplo de outras capelas feitas no sertão,
corria em Mossoró a lenda de que a de Santa Luzia
foi feita em pagamento de uma promessa da mulher de
Souza Machado, Rosa Fernandes." Não sabemos se
houve ou não a promessa. Sabemos, sim, que Antônio de
Souza Machado e sua mulher Rosa Fernandes solicitaram
a Provisão das Dignidades do Cabido de Olinda (PE),
autorização para construção de uma capela em suas terras,
permissão essa concedida a 5 de agosto de 1772, sendo
o primeiro ato litúrgico celebrado em 25 de janeiro
de 1773, quando foi batizada uma criança do sexo feminino,
em cerimônia cujo oficiante foi o padre José dos Santos
da Costa. Essa capela foi construída de pedra e cal,
no citado ano de 1772, pelo referido sargento-mor, que
com ela despendeu a quantia de 590$770rs. Em derredor
do modesto templo foram sendo construídos rústicos casebres
que, mais tarde, formariam a quadra da rua.
A construção
da Capela de Santa Luzia é considerada o marco inicial
para o surgimento da cidade de Mossoró. E da capela,
o sargento-mor Antônio de Souza Machado foi procurador,
administrador e tesoureiro até a sua morte, em 1798.
Na entrada da atual
Matriz de Santa Luzia, que fora edificada no mesmo
local da antiga capela, existe uma placa que diz:
"À memória do sargento-mor Antônio de Souza Machado
a homenagem dos professores e formados da Universidade
Regional do Rio Grande do Norte, no bicentenário da
fundação de Mossoró. V-VIII-MCMLXXII".
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Defeitinho
André Freitas andree.ufc@gmail.com
A imperfeição é uma
característica humana. Atire a primeira pedra aquele
que nunca ficou olhando para o espelho, reparando algum
defeitinho no corpo. Seja uma orelha com um ângulo não
perto dos noventa, seja um nariz um pouco adunco. Uma
coisa é certa: não existe ninguém sem um defeitinho.
Uma coisinha pouca, perturbadora, muitas vezes, apenas
para o dono. Pouco reparável, mas que está lá, irretirável,
imperturbável no seu trono de rival da estética perfeita.
Não queremos ser perfeitos, não podemos ser perfeitos.
Diga-se isso aos Adobes da vida. O defeitinho é essencial,
necessário para a conservação humana.
O pior inimigo do defeitinho
é o cirurgião plástico. Na sua cósmica cruzada pela
extinção dos defeitinhos, ele tenta deixar as pessoas
perfeitas, não-humanas, não-sensíveis. Deve ser sua
maquiavélica vontade de tornar todos iguais. O cirurgião,
uma pessoa fria, sem sensibilidade histórica da humanidade
e sem o mínimo de consideração, trava sua luta todos
os dias contra o defeitinho. O cirurgião plástico é
o maior dos hipócritas, ele mesmo não quer se livrar
do defeitinho. O doutor, mesmo conhecendo todas as armas
e estratégias da plástica, continua sem passar por uma
cirurgia. Ivo Pitanguy continua com aquela sua aparência
por quê? O mundo está repleto de exemplos: dentistas
com dentes tortos, dermatologistas carecas e cirurgiões
com orelhas de abano.
Existem pessoas que,
na sua mais consciente benevolência e coragem sincera,
pois poucos são não hipócritas, defendem o defeitinho.
– Tem que ter uma barriginha
para poder acariciar, deve servir de amortecedor naquelas
horas ou de travesseiro quando estamos assistindo à
novela.
A humanidade ainda
não se deu conta da importância do defeitinho. Ele deveria
ser aclamado uma autarquia, uma entidade intocável,
mais poderoso que o Poderoso Chefão. Talvez, no inconsciente
coletivo, já tenha virado patrimônio da humanidade.
Deveríamos abdicar o escuro da mente humana e abraçar
de vez a causa do defeitinho. Cantar odes e fazer poesias
a essa benfazeja característica física.
É uma criatura infeliz
aquela que nunca se apaixonou pela dona do defeitinho
no mesmo momento em que se dá conta dele. É a aurora
boreal do namoro: você não só tolerar o defeitinho,
mas também começar a defendê-lo, a amá-lo. É o responsável
direto e inabalável de milhares de casamentos. Aquele
dedo meio torto da sua namorada, só você teve o privilégio
e a audácia de perguntar sobre o fato criador do sublime
aspecto e só você pôde brincar com ela por causa disso.
O defeitinho aproxima os casais, faz que tenham mais
intimidade. Os amantes dividem seus defeitinhos, que
viram motivo de brincadeira e até de mimos. É a descontração
do encontro a dois.
O enfado que seria
a perfeição! Todo mundo igual! Nada de pequenos pormenores
para analisar de verdade, nada para comemorar, nada
para passar horas olhando a perder de vista, nada de
carinho. Pessoas sem mistérios, sem vida, sem história.
Só o marasmo, só a solidão da perfeição.
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DICAS
GRAMATICAIS
benjamimlinhares2@hotmail.com
JUIZ OU ÁRBITRO
As pessoas costumam confundir árbitro,
aquele que conduz um jogo de futebol (por exemplo),
com juiz, magistrado. Eu acredito que muitos confundem
as duas funções porque o árbitro, como juiz, quando
está atuando julga ou decide tudo dentro de um campo
de jogo. Mas, na verdade, aquele que dirige um jogo
ou prova esportiva com direito de decisão quanto ao
seu desenvolvimento ou fatos disciplinares é o árbitro
e nunca juiz. Vale salientar que a autoridade máxima
em uma prática esportiva é o árbitro. O juiz, autoridade
do Judiciário, não manda em absolutamente nada dentro
de campo. Então, leitores, vamos nos acostumar a tratar
o “juiz de futebol” de árbitro.
EMPREGO DA VÍRGULA
"A estudante de Comunicação Social
da Uern, Leilane Andrade, lamentou o episódio, e disse
que se tratou de caso isolado." Prestem bem atenção
na construção deste período e vejam a vírgula colocada
antes da conjunção aditiva "e".
Sempre é bom lembrar que, antes das
conjunções aditivas, não se emprega a vírgula, exceto
em situações especiais. O que vemos no período
acima é a coordenação de dois verbos de sujeito idêntico,
situação em que não cabe a vírgula. A mesma pessoa que
lamentou o episódio disse alguma coisa.
EMPREGO DA VÍRGULA II
Continuando a nota anterior. É importante
dizer que, no período citado, os verbos têm o mesmo
sujeito porque, caso se coordenassem orações de sujeitos
diferentes, a vírgula seria admissível. Assim: "A
moça estuda, e o gato dorme" (vírgula admissível,
porém desnecessária, uma vez que a construção não oferece
possibilidade de duplo sentido) e "O rapaz toca
piano, e a moça, violão" (vírgulas obrigatórias:
antes do "e", evita uma ambigüidade).
CHEQUE
Um cheque tem fundo ou tem fundos?
Um cheque está sem fundo ou sem fundos? O correto é
fundos no plural, pois é no plural que fundo tem o sentido
de provisão de dinheiro disponível para saque bancário.
PLURAL
Bastante é invariável quando se trata
de um advérbio: dormi bastante, comi bastante. Mas bastante
pode ir para o plural quando atua como adjetivo: ele
tem dados bastantes (suficientes) a meu respeito; ou
como pronome indefinido: comemos bastantes (muitos)
bifes.
QUAL É O CERTO?
Um amigo perguntou-me se o correto
seria infarto, enfarto ou enfarte. Disse-lhe que as
três formas são igualmente certas para designar a suspensão
do fluxo sangüíneo em alguma região do corpo, causada
pelo entupimento de uma artéria.
RÁPIDINHAS
Em quanto é uma expressão formada
pela preposição em e o pronome quanto. Usa-se em frases
como: em quanto tempo você lê essa dica? Já enquanto
é uma conjunção, como neste caso: enquanto eu lia essa
dica, o telefone tocava.
Entre muitas funções, a vírgula é
utilizada para indicar intercalações de expressões que
corrigem ou tornam mais precisa uma sentença: Você poderia,
por exemplo, comprar um carro; você poderia, ou melhor,
você deve comprar um carro; você, aliás, nós dois poderíamos
comprar um carro.
SÃO OU SANTO
Santo, segundo os preceitos religiosos,
é aquele que obteve o céu como recompensa de suas virtudes.
Quanto a isso, tudo bem. Mas o que eu quero explicar
é a diferença entre santo e são, porque muita gente
ainda não sabe por que se chama um de santo e outro
de são. Segundo a gramática da Língua Portuguesa, antes
de nomes que principiam por vogal ou H (Santo Antônio,
Santo Hilário) usa-se santo. São é a forma apocopada
de santo. Portanto, são se deve usar antes de palavras
que começam com consoante (São Joaquim, São Luiz).
Nota da coluna: Apocopado é o que
sofreu apócope. E apócope é a supressão de fonema ou
de sílaba no fim de palavra: Por exemplo: bel, por belo
(em bel-prazer); são por santo; mui por muito e etc...
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TRADIÇÃO E MODERNIDADE
NAS RELAÇÕES AFETIVAS
Karlla Souza - Antropóloga karlla_chris@yahoo.com.br
Existe uma discussão atual acerca
da dissolução do papel da família e suas conseqüentes
perturbações na vida afetiva e social dos indivíduos.
Não é exatamente este o enfoque que gostaria de dar
a este tema. Utilizando a descrição do filme "Alguém
tem que Ceder" -lançado em 2003 pela Warners
Bros. Pictures e Columbia Pictures, protagonizado por
Jack Nicholson e Deane Keaton e dirigido por Nancy Meyers,
mesma diretora de Coração Cupido (1998) e Do que as
Mulheres Gostam ( 2000)-, gostaria de enfatizar a maneira
leve e engraçada que o filme traz das transformações
dos parâmetros afetivos da modernidade e, sobretudo,
as transformações da intimidade que implicam uma reviravolta
em antigos modelos de relacionamento e a descoberta
de novas formas de convivência e afetividade conjugal.
No filme, Erica Barry, uma famosa
escritora de teatro, cinqüentona desquitada e muito
devotada ao trabalho, é surpreendida em sua casa de
praia pelo "ficante" de sua filha Marin (Amanda
Peet), que por acaso foram curtir o final de semana
no mesmo local. O estranhamento com o namorado da filha,
Harry Saborn, se dá, não apenas pela presença inusitada,
mas pela diferença geracional entre os dois. O bem-sucedido
empresário, sessentão descompromissado, é conhecido
pelos seus casos com mulheres famosas e meninas que
têm idade de serem suas netas.
A trama começa a surpreender quando
o solteirão sofre um infarto e é auxiliado pela escritora
e por um jovem médico vivido por Keanu Reeves. Por ordens
médicas, Erica acaba acolhendo o teimoso paciente em
sua casa e daí começa-se a se esboçar uma relação de
intimidade em que os dois vão-se descobrindo durões
e fechados à afetividade mais profunda. Para incrementar
a trama, o jovem médico passa a cortejar a escritora
e procura investir num relacionamento sério. A presença
paralela de Marry, filha de Erica , e do médico Julian,
enxerta o conflito de gerações e da mudança de valores
da tradição e da modernidade, que se mostra pela dificuldades
em que todos têm de viver um compromisso sério.
Erica sente-se uma mulher ameaçadora,
sua independência financeira e sua segurança enquanto
profissional talentosa a fazem crer nisso; Marry, não
consegue encontrar uma pessoa com quem elaborar laços
de convivência e ainda sofre com a separação dos pais;
Dr. Julian, jovem, bonito, rico e gentil, sente-se isca
fácil para mulheres à procura de facilidades e,
por fim, Harry, um homem que ainda não descobriu como
ser cortês, sua maior perícia é exercitar sua função
sexual.
O protótipo do modelo tradicional
do qual me refiro, são as relações de casamento baseadas
em critérios como status social, parentesco e divisão
sexual do trabalho. A modernidade rompe este estereótipo
de parcerias sólidas e estáveis para lançar os desafios
de uma relação de reciprocidade baseada no equilíbrio
do prazer para os dois. A modernidade é marcada também
pela tentativa de emancipação das situações de opressão
vividas pelas mulheres e pela abertura para uma diversidade
de possibilidades de escolhas de relações íntimas, pois
em contraste com as maneiras antigas de casamento, os
laços devem ser escolhidos livremente e não mais baseados
em projetos duráveis. Por isso, redescobrir o sentido
do compromisso é a chave dessa difícil construção, pois
aceitar ser comprometido com uma pessoa é aceitar o
sacrifício de descartar uma série de opções potenciais
e os riscos e tribulações que revelar a intimidade pode
desnudar.
O filme é inteligente porque através
da mistura de gerações consegue lançar boas sugestões
para este dilema. Para além, reverte ainda uma
imagem comum de que somente as mulheres estão à procura
do amor, mostrando também os homens preocupados em repensar
suas relações emocionais e enfrentar seus sentimentos
e suas dificuldades.
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