Mossoró-RN, domingo 5 de julho de 2009

 

HERMELINDA LOPES

No final dos anos 1950, Hermelinda Almeida Lopes deixou a terra de Santa Luzia, juntamente com seu irmão mais novo João e outro mais velho Oséas, e chegou a um terreno totalmente novo, já incrustado pela Música Popular Brasileira (MPB). Claro, que como todo mossoroense "cabra da peste", o medo do desconhecido não iria transpor a vontade de propagar a música nordestina.

O som do triângulo, da zabumba e da sanfona dos irmãos invadiu o Rio de Janeiro e acabou virando xodó de muitos artistas, programas de rádio e televisão. O Trio Mossoró foi o primeiro grupo de forró pé-de-serra a levar o nome da cidade Brasil afora, mas foi apenas depois de 35 anos que ele teve o reconhecimento que merecia.

Na semana passada, os três irmãos estiveram na cidade para participar do Mossoró Cidade Junina e foram recebidos com muito entusiasmo e alegria por familiares, amigos, fãs e novos fãs. Nesta entrevista, entre alegrias e tristezas, Hermelinda fala sobre a carreira solo do trio, o fim do grupo e a emoção de voltar aos palcos com o Trio Mossoró.

LEILANE ANDRADE

O Mossoroense - Nome de batismo?

Hermelinda Lopes - Hermelinda Almeida Lopes, mas artístico é só Hermelinda.

OM - Nasceu em solo mossoroense mesmo?

HL - Sim, no dia 31 de outubro de 1945. Sou filha de um cearense e uma paraibana. O nome do meu pai é Messias Lopes de Macedo e da minha mãe é Joana Almeida Lopes.

OM - Como foi sair de casa e encarar o mercado lá fora com seus outros dois irmãos?

HL - Minha filha, foi uma coisa assim que eu nem imaginava. O João e o Oséas já estavam no ramo, tocando em Mossoró mesmo e interior e eu nunca nem pensava em ingressar nessa carreira. Então, aconteceu que certo dia era aniversário do Oséas e minha mãe, sempre incentivadora demais da gente, disse que eu tinha que fazer uma homenagem a ele juntamente com meu outro irmão, o Cocota, que era seresteiro aqui na cidade. Em três dias, João me ensinou a tocar triângulo, que eu nem sabia para onde ia, e minha mãe comprou um LP de Marinês e fui aprendendo a cantar e tocar aquelas músicas todas e desde esse dia eu não saí mais. Fiquei mais ou menos só uns quatro ou cinco meses depois disso, quando Oséas teve a ideia de ir para o Rio, sendo que ele ficou lá e teve aquela dificuldade de encontrar uma zabumba e triângulo por lá. Então, meu pai nos enviou eu e João com minha irmã mais velha, Laurinha, para nos acompanhar porque nessa época eu ia fazer 14 anos e o João tinha uns 12. Durante mais ou menos um ano formamos o grupo "Oséas Lopes e seus cangaceiros". Só quando fomos gravar nosso primeiro disco, Nazareno Brito, que era diretor da Copacabana Disco, chegou e disse: "Não, esse nome de cangaceiro aí está muito forte. Tem outro nome não?". Então, o Oséas deu a ideia de Trio Mossoró. Tivemos alguns empecilhos antes de gravar o disco de algumas pessoas que eu não gostaria de citar nome. Elas começaram a botar areia na ideia do Trio Mossoró. Então a gravadora disse que só tinha uma verba para cobrir os gastos de uma zabumba, triângulo e sanfona, mas como faria uma gravação só com isso? Meu pai autorizou Oséas a colocar tudo que fosse necessário dentro do estúdio que ele pagava. Nosso primeiro disco, Rua do Namoro, saiu graças ao seu Messias, que bancou tudo. Depois de seis meses, a gravadora nos chamou para gravar o segundo, pois o primeiro tinha sido um estouro de vendas. Gravamos "Quem foi vaqueiro", que foi considerado o melhor disco de música regional. Naquele tempo quem escolhia era a Academia de Letras, jornalistas, críticos musicais, eram pessoas capacitadas mesmo. Foi tudo muito novo para a gente. Quando fomos receber o prêmio, entramos no Teatro Municipal que só tinha fera, Elis Regina, Jair Rodrigues, Maria Betânia, só a turma da elite da MPB. Para mim esse momento foi uma das maiores emoções da minha vida e nunca tremi tanto como nesse dia. Teatro lotado, muito microfone em cima da gente e quando o presidente da Academia veio entregar o troféu e o diploma ele passou duas horas segurando minha mão, elogiando muito dizendo que minha voz parecia com a da Dolores Duran e num sei o que mais. E eu rezando para que ele soltasse logo minha mão e deixasse eu ir embora dali porque eu já estava tremendo demais (risos).

OM - Vocês esperavam ter o sucesso que tiveram quando foram para o Rio?

HL - Não. Naquela época era tudo muito difícil. Mas, pelo menos tivemos uma facilidade que hoje não se vê mais. Para participar de um programa de televisão, o artista recebia um cachê, claro que para conseguir isso era difícil. Mas, modestamente falando, como o Trio, de certa forma era muito apresentável - eu, garota, jovem, bonita; João e Oséas também, todos novos - a televisão nos chamava pela presença. E muitas pessoas gostaram muito do nosso trabalho e nos ajudaram. Na verdade, o Trio não enfrentou muitas dificuldades para chegar até onde chegou. Tivemos muito apoio, Aroldo de Andrade (Rádio Globo), José Messias (Raul Gil), Luiz Vieira e principalmente João do Vale, que até nos deu músicas para a gente gravar, ele só vivia encangado com a gente. Tivemos um programador na TV Globo também que ficou amigo da gente e era louco pelo Trio. Ou seja, foi muita coisa boa.

Eu gostaria de ter passado dificuldade porque é muito bom para contar depois, mas graças a Deus meu pai tinha condições financeiras de nos manter. De 15 em 15 dias o meu velho mandava tudo que era coisa do Nordeste (queijo, cajarana e muitas outras comidas) e quando recebíamos era uma gula grande, queríamos comer tudo de uma só vez para matar a saudade.   

OM - Por que vocês foram embora?

HL - Aqui não tinha campo. Iríamos ficar só cantando por aqui e pronto. Foi quando Oséas teve a ideia de ir para o Rio e como meu pai tinha um xodó muito grande por ele, fez o que ele pediu. A gente vem de geração de gostar de forró e música da família da minha mãe. Ela até tocava, só que os pais dela nunca a deixaram ir tocar em clubes e quando a gente cresceu, ela quis que seguíssemos o caminho que ela não conseguiu. E por isso ela também nos incentivou bastante. A parte humorística da família, que João tem demais, é do meu pai, que é da família Aragão, do Ceará. Meu pai era primo do Renato Aragão. Juntou a parte musical e o humorismo e saiu o Trio Mossoró.

OM - Onde a senhora mora atualmente?

HL - Moro na casa da minha irmã Teresinha, em Natal, e também em João Pessoa, fico nessa ponte Natal-João Pessoa.

OM - E faz o quê, além de cantar?

HL - Trabalho só com isso mesmo. De resto não faça nada, só jogar conversa fora (risos).

OM - Dizem que a Paraíba é um estado que dá valor aos artistas da terra. A senhora concorda com isso?

HL - Plenamente. De uns poucos anos para cá, foi que eles souberam que eu era filha de paraibana. Quando eu gravei meu primeiro disco solo, eu costumava muito ir para lá fazer shows, chegava a fazer de 3 a 4 shows numa noite na época de São João, o que trouxe prejuízos também, passei por dois acidentes de carro nessas viagens de uma cidade a outra. Hoje em dia não, geralmente faço um e só parto para outro se for numa cidade muito próxima. O pique não é o mesmo e as estradas são muito perigosas. Antigamente, quando eu fazia até 4 shows, quando chegava no quarto, fazer que nem nordestino: eu tava só o coió. (risos)

OM - No São João de Caruaru deste ano foram proibidas as bandas de forró estilizado. Qual sua opinião sobre isso?

HL - Parece que isso foi uma nova lei do governo federal, que exigiu dos secretários de cultura das cidades do Nordeste de divulgar tanto o cantor de viola, repentistas, como o forró pé-de-serra, que é a nossa raiz mesmo. Então, a partir do ano que vem, pelo menos todas as cidades da Paraíba vão adotar essa mesma coisa que Caruaru já fez. Em João Pessoa já é assim, só se toca o autêntico forró.

OM - A senhora acha que isso vai chegar aqui em Mossoró também?

HL - Não sei, aí vamos ver, né? Se for uma lei, eles vão ter que cumprir, pelo menos alguma porcentagem.

OM - Isso já deveria ser assim?

HL - Eu acho que sim, porque num é São João? No Carnaval só se toca música da época. Os baianos já pelejaram para entrar em Recife com aquele axé, mas os pernambucanos não abrem mão. Lá é frevo e não entra mais ninguém. É tradição de muitos anos, como no Rio é o samba. Do mesmo jeito é o São João. Eu, por exemplo, sou fã de Leonardo, mas não tem nada a ver Leonardo e São João. Tem o ano todo para esses outros artistas virem para a cidade tocar. São essas coisas que estão tirando a tradição. Se é festa junina, vamos valorizar nossas raízes. Não vamos deixar que elas se acabem.  

OM - A senhora vem sempre a Mossoró?

HL - Venho sempre no Carnaval, mas chego e vou direto para Tibau, porque sou muito calorenta. Não gosto nem de ir ao centro da cidade. Que é quente demais. Mas, já passei Ano-Novo, Natal. Aqui tenho muita família e amigos. Uma vez eu ia subindo ali a praça do Pax, quando uma pessoa gritou: Bibila! Eu disse: Eta, essa é familiar. Sabe até meu apelido. Era uma amiga minha de muitos anos, que a gente sempre sentava ali na calçada da casa de seu Elizeu, o pai de Emery Costa. Toda noite era uma galera ali assinando o ponto. Acho que muito jovem não vai passar nunca o que passei, tive uma infância e juventude maravilhosa.

OM - Quando o Trio acabou a senhora voltou para o Nordeste?

HL - Não, eu permaneci lá. Meu ex-marido Bastinho Calisto era sanfoneiro, compositor e fizemos algumas canções juntos. Antes de eu gravar "Hermelinda", eu ainda gravava pelo Trio, pois ficamos só gravando e não fazendo mais apresentações. Depois foi que Oséas com o "Quebra Mesa", quebrou mesmo a mesa e foi um para cada lado (risos).  Eu gravei dois discos como Ana Paula com Orquestra Sinfônica e tudo mais, só que aquilo não era a minha praia. Foi quando Oséas, que era produtor e tinha uma gravadora, me chamou para fazer "Hermelinda". Para fazer esse nome foi difícil, pois meu nome não é assim tão comercial. Já na carreira solo, Oséas, morava em Fortaleza, ligou para mim e disse: O que é que você está fazendo ainda aí no Rio de Janeiro? Você tem que vir é para cá. Mais ou menos no final dos anos 80 me mudei definitivamente para Fortaleza e só ia para o Rio para gravar. Depois de Fortaleza fui morar em João Pessoa. Meus amigos diziam: Se você vive aqui fazendo show, o que está fazendo em Fortaleza? Lá fui eu. Tomei a água de lá e me apaixonei. Uma cidade linda e muito limpa. De lá fui para Natal, fiquei algum tempo e voltei. E até hoje fico nessa, para lá e para cá.

OM - Como foi subir ao palco com seus outros dois irmãos e reviverem o que faziam 35 anos antes?

HL - Muito, muito bom. Apesar de já ser veterana no Mossoró Cidade Junina, eu estava nervosa pelo João. Ele estava muito inseguro, preocupado, temeroso com o que ia encontrar. Eu falei para ele antes do show: Rapaz, não precisa disso aí não. Ele me pediu: Maninha, deixe eu entrar primeiro, que depois você entra, eu coloco minha viola dentro do saco e vou embora. Eu: Rapaz deixe de besteira. E um dos companheiros da minha banda disse: Seu João, não se preocupe que ela vai preparar o terreno para o senhor. E foi o que aconteceu. Eu entrei cedo e tinha pouca gente, depois foi chegando, chegando mais gente e quando terminei, deixei aquele público todinho para ele. Foi tudo muito bom. Depois fizemos a improvisada do Trio. Fomos sem ensaio nenhum e fizemos um grande show. Foi maravilhoso. Eu vou dizer uma coisa a você sinceramente, toda essa homenagem que fizeram ao Trio Mossoró agora, foi muito mais emocionante do que quando viemos em 1965 à cidade no auge do sucesso (lágrimas).

OM - Nesses dias que vocês passaram na cidade, soube que houve muito choro.

HL - Somos emotivos demais. Eu choro até vendo novela, quanto mais numa emoção com a homenagem da Câmara dos Vereadores, o almoço oferecido pela prefeita, o carinho de todos os mossoroenses, a imprensa. Foi uma barra pesada para a gente segurar, viu?  

OM - Nessa volta triunfal, vocês anunciaram o possível retorno do Trio Mossoró aos palcos sem mesmo estar planejado. Como vai ser?

HL - Isso é um projeto de Crispiniano Neto, presidente da Fundação José Augusto. Ele está com a proposta de gravar um CD resgatando todo o sucesso do Trio Mossoró com a participação de vários artistas da MPB (Nana Caymmi, Gilberto Gil, Fagner, Maria Betânia). Ele disse que a verba está pronta, falta só agilizar o processo. Acho que isso vai ser muito bom, pois esse CD vai debandar pras bandas do Rio e vão querer que a gente volte aos estúdios. Vai ser bom para o Trio e também para a cidade de Mossoró. Vai ser mais uma alegria grande, não sei nem como é que vai ser a emoção, com certeza com mais choro (risos).

 

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