Mossoró-RN, domingo 12 outubro de 2008

Rydjel Weine

Rydjel Weine é separado, pai de duas crianças e filho de músicos. Carrega no sangue o amor pela arte. Inspirado pelas serestas que o pai fazia pela região, o músico João de Deus, Rydjel ganhou gosto pela arte de tocar e hoje é percussionista e cantor. Tem disco gospel gravado, mas não parou por aí. Observador, ele sempre esteve por trás dos palcos dos teatros, participando dos arranjos sonoros das peças e envolvido sempre nos bastidores. Até que surgiu o convite para atuar. Fez testes, foi aprovado e ficou conhecido como o Lampião do Chuva de Bala no País de Mossoró deste ano. Aos 31 anos, levou suas idéias artísticas para o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), onde trabalha com 23 crianças.

Adriana Morais
adriana.morais20@hotmail.com

OM - Como foi que você começou a trabalhar?

RW - Eu comecei a trabalhar com meu pai na música. Ele e minha mãe eram seresteiros muito conhecidos aqui, (ele fala do músico João de Deus) e a gente tocava bastante. Eu tocava bateria. Toquei em muitas bandas de 'heavy metal', toquei com o pessoal do Garagem 31 e com muitas outras bandas.

OM - Então, foi aí que tudo começou?

RW - É, foi aí que tudo começou e, então, parei mais quando estava perto de me casar. Aí fui trabalhar na prefeitura, no Peti, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Daí, a gente começou a trabalhar com essa parte cultural. Nós temos grupos folclóricos, até o 1º festival que teve aqui em Mossoró, fui eu que ganhei com os meninos do projeto. Ganhamos o primeiro Festival de Folclore. Desde então, a gente vem participando com nossos grupos folclóricos.

OM - Como foi que você começou no Peti?

RW - Comecei em 1992  Hoje eu sou um monitor, cuido da parte cultural, ou seja, eu trabalho com a parte de teatro, música e dança.

OM - Além do trabalho cultural que você desenvolve no Peti, o que mais nessa área você faz?

RW - Além de trabalhar com essas crianças, eu faço parte do grupo Cia. Bagana, o pessoal de Joriana, que está com o espetáculo "Scooby Doo'. Eu sempre fiz parte do trabalho musical de espetáculos como o Auto da Liberdade e o Chuva de Bala do País de Mossoró. Eu trabalhava sempre como músico, vinha o pessoal do estúdio e eu montava a parte musical. Trabalhava sempre assim, fazendo música para eles. Além dos festivais, como Festuern, o próprio festival folclórico aqui de Mossoró. Já participei de outro grupo de teatro, o grupo de Augusto Pinto, mas hoje estou só no grupo de Joriana Pontes.

OM - Como é que você consegue arranjar tempo para conciliar todas essas atividades?

RW - Realmente às vezes fico pensando que é muita coisa e como eu vou arranjar tempo para tocar com meu pai e minha mãe na igreja, porque a gente toca numa banda evangélica, e eu tenho o meu CD gravado e tenho que divulgar. Mas graças a Deus, Ele tem dado as suas brechas e a gente vai conseguindo conciliar.

OM - Fale mais sobre esse CD

RW - Eu gravei esse CD solo com músicas até de outros cantores, mas com minha voz. É só voz e violão, o trabalho feito só por mim, meu pai e minha mãe. Fiz umas copias e já vendi graças a Deus e já estou fazendo outro com a banda e solo também.

OM - O que você destacaria na sua participação no teatro?

RW - A primeira peça que nós fizemos foi 'Navio Negreiros' que era do grupo de Augusto. Depois a gente montava várias peças com as crianças para os festivais de folclore, como a 'Chica Danada' que a gente apresentava no Teatro Municipal nesse festival. Além das quadrilhas estilizadas que a gente faz  dentro do projeto com as crianças e a maioria é um espetáculo porque a gente faz com um show mesmo, fazíamos o texto, a dança, a coreografia.

OM - Quantas pessoas têm no Peti e como é a relação delas com a arte?

RW - Trabalhamos com 23 crianças. É muito bom porque a gente sabe que para Mossoró agora que desenfreou mesmo. Até um certo tempo que estava para concorrer a capital cultural, então desde que começamos a participar do Festuern, eu vi uma grande expectativa da criança para despertar o conhecimento, para querer saber o que é um artista e ser um artista. Hoje a coisa está mais aberta, o leque está aberto. Várias crianças através do Auto da Liberdade que tem os seus colégios, a prefeitura entrou com isso, despertou o querer na criança em trabalhar nos espetáculos para a cidade. A gente vê que tem mais crianças envolvidas, isso em toda comunidade.

OM - Você atribui esse seu gosto pela arte pela influência de seus pais?

RW - É. E eu sempre via outros, sempre tinha interesse quando eu via os espetáculos e achava tudo muito bonito e queria ver as pessoas atuando e ficava pensando que eu também poderia fazer. As pessoas perguntavam por que você não está aqui, você é muito inteligente, desenrolado, e eu nunca me interessava em participar de um espetáculo para a cidade. Mas sempre pensei no 'será que dá certo?' As pessoas me convidavam e eu não queria. Só participava lá atrás, nos bastidores, na montagem de som, e aquelas coisas. Mas quando veio é... a primeira participação grande minha, bom mesmo, num espetáculo para a cidade foi como o Lampião no Chuva de Bala... Nas oficinas, eu fui para lá como percursionista e cantor porque o teste era para isso. Mas Elieseu, o diretor que veio para cá, fez a proposta. Ele diz, “eu quero você para fazer o teste”. Eu fiz o teste e passei, fui o primeiro lugar.

OM - Como foi essa experiência de interpretar Lampião?

RW - Para mim foi uma experiência dez. Foi maravilhoso. Eu não esperava ser o principal do elenco, ou um dos principais, que são as pessoas que estão ali na frente, o Lampião, Jararaca, o Padre, o Tenente. São as pessoas que estão ali na frente que o público observa mais. Eu nunca imaginei que seria o Lampião do Chuva de Bala... Hoje as pessoas dizem que meu trabalho ficou muito bom. E várias pessoas de Natal assistiram e fico muito realizado em ser um personagem que representa o Lampião naquele momento.

OM - Qual sua avaliação sobre a situação cultural de Mossoró?

RW - Eu vejo que as portas estão abertas. É como já falei, Mossoró abriu portas para a cultura que é uma coisa muito forte para todos os artistas mossoroenses, para os que estão entrando agora e eu diria que as portas estão abertas também para os dinossauros da nossa cultura aqui em Mossoró. Nós que estamos aqui agora, que somos novatos, fazemos o que fazemos porque aprendemos com eles, com pessoas que estão muito tempo pelo teatro, pelos palcos da vida e dando de tudo para que a coisa fique bonita.

OM - Com relação ao público, como é a repercussão?

RW - Tem gregos e troianos. A gente sabe que nem Jesus agradou a todos. Mas eu vi várias pessoas que tinham visto outros espetáculos que acharam diferente, outros acharam belo e outros acharam péssimo. Fizeram comparações com o espetáculo do ano passado e disseram que era mais rico ou que era mais pobre. São muitas coisas que existem dentro do contexto do artista. E outra coisa que eles acharam diferente foi porque foi tudo ao vivo. Agora é um espetáculo pioneiro, é um espetáculo da cidade e então já tem aquele público assíduo. Tinha muita gente de fora, muitas crianças e eu adoro crianças, e elas sabiam o texto na ponta da língua. A repercussão para mim foi o ótima.

OM - O que é arte pra você, por que você dedica sua vida pra isso?

RW - A arte para mim é uma coisa inexplicável. São emoções diferentes. Eu gosto de música, mas não me considero um músico, eu faço alguma coisa de música naquilo que posso, e música é arte, é a arte dos sons e a arte dos sons é belíssima. E os outros espetáculos da vida além de intercalados a música é profissional porque o artista ele é assim, vive de emoções. Me perguntaram uma vez qual a diferença entre um doente do coração e um cantador de repente e, eu perguntei para meu pai, e meu pai respondeu: É porque o repentista ele vive de repente e o doente do coração ele morre de repente. Então levo isso como exemplo para minha vida artística. Exatamente o que o artista quer , é a emoção do público, são as palmas, a emoção da criança, do velho, de quem for. Porque a gente precisa fazer para aquelas pessoas que aquilo pareça real.

 

 

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