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TOINHO
ROCKFELLER
Antônio Fernandes Duarte,
conhecido como Toinho Rockfeller, mais de 50 anos, nascido
em Mossoró. Filho de pai agricultor e mãe dona-de-casa,
Toinho foi vereador por cinco mandatos, ex-presidente
da Câmara Municipal de Mossoró. Boemio, figura das mais
conhecidas, Toinho Rockfeller fala sobre a cidade que
ama e que vê hoje abandonada. Toinho conta também sobre
sua paixão pelo jumento, um animal sagrado.
ANA PAULA CADENGUE
E LUCIANO LELLYS
O Mossoroense: Por
que Rockfeller?
Toinho Rockfeller:
É uma história simples e nobre. A história do rico e
do pobre... (risos)
OM: Quer dizer que
você nasceu em berço de ouro?
TR – Não, não.
Nasci aqui em Mossoró, meu pai era agricultor e minha
mãe dona-de-casa.
OM: Frequentou quais
escolas?
TR – Estudei
na União Caixeiral, no Padre Dehon, no Dinarte Mariz...
Fiz contabilidade na União Caixeiral, depois fiz Geografia
e acabei mudando para Administração de Empresas na antiga
Furrn, hoje Uern.
OM: Como você começou
na política?
TR – Eu era
gerente de uma loja de autopeças, trabalhei muitos anos
com autopeças, depois botei uma loja para mim, a Corpel
– Correias, Rolamentos e Peças... Ainda quando eu era
empregado de Ioiô Almeida, me candidatei a vereador,
foi quando eu entrei para a política.
OM – E quando foi
isso?
TR – Foi em
1974. Comecei na política pela antiga Arena, com Dr.
Vingt Rosado. Na primeira vez fui o vereador mais votado...
OM – Na primeira
vez?
TR – O povo
votou e Rockfeller estourou... (risos)
OM – Você já era
conhecido como Rockfeller naquela época? Desde quando
você é chamado assim?
TR – Desde quando
comecei a minha vida de boemia.
OM – E quando foi
isso?
TR – Cedo. Desde
os meus 22 anos, 24... Uma coisa assim.
OM – Como foi sua
experiência como vereador? Você foi eleito para quantos
mandatos?
TR – Fui vereador
por cinco mandatos. Votei em Alves, em Maia, em Rosado,
em Melo, em Escóssia e no PT. Fiz estágio, doutorado,
mestrado...
OM – E essa história
de ser o vereador das carroças, como surgiu?
TR – É porque
eu trabalhei muito de carroça. Meu pai tinha propriedade
no Alto de São Manoel, sempre lidava com carroças. Carregava,
telha, tijolo, capim... E eu sempre fui ligado aos carroceiros,
uma classe com a qual sempre me identifiquei. E comecei
a ajudar, doar uma carroça...
OM – Daí o marketing
das carroças e as “carroceatas”?
TR – Eu fui
o primeiro vereador a fazer “carroceata”. O povo não
faz carreata, de moto, bicicleta? Eu fiz com carroça
e até hoje continuo a doar carroças, animais, jumentos...
OM – Eu soube que
você é um apaixonado por jumentos, que paixão é essa?
TR – O jumento
é um animal sagrado. Jesus quando caminhou no mundo
foi montado num jumento. E o jumento, na sua história,
como diz Luiz Gonzaga, “desenvolveu este país”, construindo,
carregando cana-de-açúcar... Desde o tempo da Arábia
Saudita, Israel que o jumento é preservado e tido como
meio de transporte. Eu criei muito jumento e cheguei
a ter quase quatro mil animais...
OM – E hoje você
ainda cria jumentos?
TR – Sim, eu
preservo a espécie. Apesar de muitos soltarem os animais
na estrada, provocando acidentes, eu defendo que quem
tem seu jumento que o prenda.
OM- Você usa os
jumentos no trabalho, fazenda?
TR – O jumento
é importante para tudo. Nas costas desse animal o homem
transportou muitas coisas e continua sendo de grande
importância principalmente para o homem do campo. Eu
defendo inclusive que o jumento seja criado para abate,
para fornecer carne para alimentar até outros animais,
preservando a espécie, claro.
OM - Vamos voltar
à política. Nesses cinco mandatos como vereador, foram
20 anos direto na política?
TR - Foram.
Vinte anos desafiando o sistema.
OM - O que você
destaca nesses 20 anos?
TR - O que eu
destaco e ao mesmo tempo me decepciona é que a política
em si é importante, mas tem duas coisas que dividem
a família: política e herança. Agora, se a política
em si fosse usada na essência, sem politicagem sem corrupção,
sem esculhambação, essa é uma política boa. Mas, o que
se vê de Mossoró a Brasília, de Norte a Sul do país
é a corrupção, a deformação...
OM - Você foi candidato
alguma vez sem ser eleito?
TR - Não. Uma
coisa importante, pelo menos para mim, tem muito político
que é eleito pelo povo e o próprio povo cassa. Eu nunca
fui cassado pelo povo, sempre fui votado, eleito e reeleito.
Eu deixei a política, a política não me deixou.Eu saí
da política, como Pelé deixou o futebol.
OM - Por quê?
TR - Porque
se eu não tivesse deixado eu poderia ter me tornado
corrupto... Tudo na vida tem um momento de você entrar
e sair. Pode ser artista, cantor, escritor, jogador...
Eu entrei na política na hora certa e saí na hora certa.
Eu me aposentei e hoje sou um eterno
vereador aposentado... (risos).
OM - Como você avalia
hoje a situação política de Mossoró?
TR - Lamentável,
triste, porque as famílias se dividiram e cada uma usando
seu linguajar e esquecendo o essencial para a cidade:
saúde, segurança, educação... Hoje eu vejo a família
de Mossoró, a tradição, a origem tricotomizada, dividida
em três facções e o importante em política não é dividir,
é somar.
OM - E a atuação
da Câmara Municipal?
TR - Fraca.Muito
fraca.
OM - Você acha que
os vereadores deveriam tomar que atitude?
TR - Você está
vendo aí, a imprensa está divulgando, não sou eu que
vou julgar. O povo elegeu os 13... Eu fui, acho que
o vereador é o fiscal do povo, legítimo fiscal do povo,
então, não vejo... Eu vejo três vereadores hoje que
criticam e a crítica é fundamental. Você não pode ver
a crítica pela crítica. São eles, Genivan Vale, Lairinho
e Francisco José da Silveira. E na hora em que se critica,
que se defende os interesses das classes, eles estão
no papel de vereador. Mas, se a maioria é subserviente
lá ao sistema da prefeita, aí meu amigo, aí... Eu não
era vereador de alienação, de apadrinhamento, de empreguismo,
eu era vereador do povo, pelo povo e para o povo. Mas,
é sempre bom lembrar que o mesmo povo que elege é o
mesmo que cassa. Você viu na “Operação Sal Grosso” o
que foi que deu, eram vereadores bem votados que não
foram reeleitos porque o povo pode até ser ignorante,
mas também é sábio.Abraham Lincoln já dizia que cada
povo tem o governo que merece e o povo de Mossoró está
com o governo que merece...É triste, é lamentável, mas
é a verdade. Aí, eu pergunto, a cidade está feliz com
o sistema que aí está?
OM - O que você
mesmo responde?
TR - É lamentável,
a pessoa diz que adora Mossoró, que ama Mossoró... Da
maneira que está? Esburacada, abandonada, é... é tanta
coisa que finda em nada. Mossoró dá tanto para o Estado,
para o país, era para receber muito mais. Mas não tem
quem a defenda... A saúde acabou, crianças sem atendimento,
velhos sem atendimento... Não tem uma árvore, a zona
rural não tem água, as estradas esburacadas. Dizem que
Mossoró está quebrada. Quebrada? O poder político quebrar
uma cidade que tem royalties, petróleo, que tem tudo...
Vamos fazer o máximo com o mínimo.
OM - Esse seu gosto
pela poesia, pela boemia... Você é casado?
TR - Nunca casei,
eu sou o maior adepto de Cristo: Crescei e multiplicai-vos.
Ele não disse casai-vos (risos). Antigamente eu namorava,
hoje eu não namoro mais, eu sou um "coroa"
globalizado, eu só fico. E digo às criaturas: "Se
quer amor e carinho, fique com Toinho".
OM - O que falta
hoje em Mossoró?
TR - Falta amor
no coração das pessoas, Deus no coração, educação. As
pessoas hoje não respeitam mais ninguém e tudo vira
violência.
OM - Qual a Mossoró
do futuro?
TR - É uma incógnita.
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