Mossoró-RN, domingo 8 de novembro de 2009

 

TOINHO ROCKFELLER

Antônio Fernandes Duarte, conhecido como Toinho Rockfeller, mais de 50 anos, nascido em Mossoró. Filho de pai agricultor e mãe dona-de-casa, Toinho foi vereador por cinco mandatos, ex-presidente da Câmara Municipal de Mossoró. Boemio, figura das mais conhecidas, Toinho Rockfeller fala sobre a cidade que ama e que vê hoje abandonada. Toinho conta também sobre sua paixão pelo jumento, um animal sagrado.

ANA PAULA CADENGUE E LUCIANO LELLYS

O Mossoroense: Por que Rockfeller?

Toinho Rockfeller: É uma história simples e nobre. A história do rico e do pobre... (risos)

OM: Quer dizer que você nasceu em berço de ouro?

TR – Não, não. Nasci aqui em Mossoró, meu pai era agricultor e minha mãe dona-de-casa.

OM: Frequentou quais escolas?

TR – Estudei na União Caixeiral, no Padre Dehon, no Dinarte Mariz... Fiz contabilidade na União Caixeiral, depois fiz Geografia e acabei mudando para Administração de Empresas na antiga Furrn, hoje Uern.

OM: Como você começou na política?

TR – Eu era gerente de uma loja de autopeças, trabalhei muitos anos com autopeças, depois botei uma loja para mim, a Corpel – Correias, Rolamentos e Peças... Ainda quando eu era empregado de Ioiô Almeida, me candidatei a vereador, foi quando eu entrei para a política.

OM – E quando foi isso?

TR – Foi em 1974. Comecei na política pela antiga Arena, com Dr. Vingt Rosado. Na primeira vez fui o vereador mais votado...

OM – Na primeira vez?

TR – O povo votou e Rockfeller estourou... (risos)

OM – Você já era conhecido como Rockfeller naquela época? Desde quando você é chamado assim?

TR – Desde quando comecei a minha vida de boemia.

OM – E quando foi isso?

TR – Cedo. Desde os meus 22 anos, 24... Uma coisa assim.

OM – Como foi sua experiência como vereador? Você foi eleito para quantos mandatos?

TR – Fui vereador por cinco mandatos. Votei em Alves, em Maia, em Rosado, em Melo, em Escóssia e no PT. Fiz estágio, doutorado, mestrado...

OM – E essa história de ser o vereador das carroças, como surgiu?

TR – É porque eu trabalhei muito de carroça. Meu pai tinha propriedade no Alto de São Manoel, sempre lidava com carroças. Carregava, telha, tijolo, capim... E eu sempre fui ligado aos carroceiros, uma classe com a qual sempre me identifiquei. E comecei a ajudar, doar uma carroça...

OM – Daí o marketing das carroças e as “carroceatas”?

TR – Eu fui o primeiro vereador a fazer “carroceata”. O povo não faz carreata, de moto, bicicleta? Eu fiz com carroça e até hoje continuo a doar carroças, animais, jumentos...

OM – Eu soube que você é um apaixonado por jumentos, que paixão é essa?

TR – O jumento é um animal sagrado. Jesus quando caminhou no mundo foi montado num jumento. E o jumento, na sua história, como diz Luiz Gonzaga, “desenvolveu este país”, construindo, carregando cana-de-açúcar... Desde o tempo da Arábia Saudita, Israel que o jumento é preservado e tido como meio de transporte. Eu criei muito jumento e cheguei a ter quase quatro mil animais...

OM – E hoje você ainda cria jumentos?

TR – Sim, eu preservo a espécie. Apesar de muitos soltarem os animais na estrada, provocando acidentes, eu defendo que quem tem seu jumento que o prenda.

OM- Você usa os jumentos no trabalho, fazenda?

TR – O jumento é importante para tudo. Nas costas desse animal o homem transportou muitas coisas e continua sendo de grande importância principalmente para o homem do campo. Eu defendo inclusive que o jumento seja criado para abate, para fornecer carne para alimentar até outros animais, preservando a espécie, claro.

OM - Vamos voltar à política. Nesses cinco mandatos como vereador, foram 20 anos direto na política?

TR - Foram. Vinte anos desafiando o sistema.

OM - O que você destaca nesses 20 anos?

TR - O que eu destaco e ao mesmo tempo me decepciona é que a política em si é importante, mas tem duas coisas que dividem a família: política e herança. Agora, se a política em si fosse usada na essência, sem politicagem sem corrupção, sem esculhambação, essa é uma política boa. Mas, o que se vê de Mossoró a Brasília, de Norte a Sul do país é a corrupção, a deformação...

OM - Você foi candidato alguma vez sem ser eleito?

TR - Não. Uma coisa importante, pelo menos para mim, tem muito político que é eleito pelo povo e o próprio povo cassa. Eu nunca fui cassado pelo povo, sempre fui votado, eleito e reeleito. Eu deixei a política, a política não me deixou.Eu saí da política, como Pelé deixou o futebol.

OM - Por quê?

TR - Porque se eu não tivesse deixado eu poderia ter me tornado corrupto... Tudo na vida tem um momento de você entrar e sair. Pode ser artista, cantor, escritor, jogador... Eu entrei na política na hora certa e saí na hora certa. Eu me aposentei e hoje sou um           eterno vereador aposentado... (risos).

OM - Como você avalia hoje a situação política de Mossoró?

TR - Lamentável, triste, porque as famílias se dividiram e cada uma usando seu linguajar e esquecendo o essencial para a cidade: saúde, segurança, educação... Hoje eu vejo a família de Mossoró, a tradição, a origem tricotomizada, dividida em três facções e o importante em política não é dividir, é somar.

OM - E a atuação da Câmara Municipal?

TR - Fraca.Muito fraca.

OM - Você acha que os vereadores deveriam tomar que atitude?

TR - Você está vendo aí, a imprensa está divulgando, não sou eu que vou julgar. O povo elegeu os 13... Eu fui, acho que o vereador é o fiscal do povo, legítimo fiscal do povo, então, não vejo... Eu vejo três vereadores hoje que criticam e a crítica é fundamental. Você não pode ver a crítica pela crítica. São eles, Genivan Vale, Lairinho e Francisco José da Silveira. E na hora em que se critica, que se defende os interesses das classes, eles estão no papel de vereador. Mas, se a maioria é subserviente lá ao sistema da prefeita, aí meu amigo, aí... Eu não era vereador de alienação, de apadrinhamento, de empreguismo, eu era vereador do povo, pelo povo e para o povo. Mas, é sempre bom lembrar que o mesmo povo que elege é o mesmo que cassa. Você viu na “Operação Sal Grosso” o que foi que deu, eram vereadores bem votados que não foram reeleitos porque o povo pode até ser ignorante, mas também é sábio.Abraham Lincoln já dizia que cada povo tem o governo que merece e o povo de Mossoró está com o governo que merece...É triste, é lamentável, mas é a verdade. Aí, eu pergunto, a cidade está feliz com o sistema que aí está?

OM - O que você mesmo responde?

TR - É lamentável, a pessoa diz que adora Mossoró, que ama Mossoró... Da maneira que está? Esburacada, abandonada, é... é tanta coisa que finda em nada. Mossoró dá tanto para o Estado, para o país, era para receber muito mais. Mas não tem quem a defenda... A saúde acabou, crianças sem atendimento, velhos sem atendimento... Não tem uma árvore, a zona rural não tem água, as estradas esburacadas. Dizem que Mossoró está quebrada. Quebrada? O poder político quebrar uma cidade que tem royalties, petróleo, que tem tudo... Vamos fazer o máximo com o mínimo.

OM - Esse seu gosto pela poesia, pela boemia... Você é casado?

TR - Nunca casei, eu sou o maior adepto de Cristo: Crescei e multiplicai-vos. Ele não disse casai-vos (risos). Antigamente eu namorava, hoje eu não namoro mais, eu sou um "coroa" globalizado, eu só fico. E digo às criaturas: "Se quer amor e carinho, fique com Toinho".

OM - O que falta hoje em Mossoró?

TR - Falta amor no coração das pessoas, Deus no coração, educação. As pessoas hoje não respeitam mais ninguém e tudo vira violência.

OM - Qual a Mossoró do futuro?

TR - É uma incógnita.

 

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