Mossoró-RN, domingo 16 de novembro de 2008

A PALAVRA DE DORIAN

Coisas de Tarcisologia

Natal, abril de 1984.

Não sou nem pretendo ser tarcisólogo. Nesta quadra evanescente de um viver em desespero (e aí o desespero não tem sentido de esvaziamento dos materialistas, mas ressaibos kierkegaardianos), o que aspiro é chegar à provectude naveana e poder, impune, dar bananas à periferia. A tarcisologia, como outras logias maiores e menores, não fascinaria a minha recém-inaugurada senectude. Tanto que, em Oxford e na Sorbonne, olhei sem atenção o currículo da nova ciência-filosófica com grega indiferença. Nem te ligo, ó...

Mas que entendo de Tarcísio Maia, cá eu entendo. Conhecimento infuso, dirão difamadores quer de meus métodos de estudos, quer de minha biblioteca, que se não tem méritos, como a de Mussulini Fernandes, para sensibilizar o BNH do coronel Mário Andreazza, ao menos para mim vale como um tocante motivo de encantamento.

Tarcísio eu conheço como conheci (e amei) Guido Leite, conheço (e amo) Meu Branco, conheci, conheço e amo as mulheres de minha vida - Maria Cândida, Saudade, Raïssa, Lia e Rachel, a mulher, as filhas e as netas com as quais a Providência provou, particularmente para mim, que a sua graça excede a sua justiça.

Menino de calças curtas, peito aberto, braços nus, eu já via o terno branco de Tarcísio Maia, entrando no Café de Tavares. Ou o seu lenço branco de cambraia de linho, com leve toque de extrato francês, desfraldado diante dos olhos compridos de meu povo confiante.

De lá para cá, foram tortuosas as veredas de meus caminhos. Os seus, não. Se preferirem, aparentemente não. Mais velho ficou - que fazer?  Mas o que perdeu em juventude adquiriu em sabedoria. Que poderá não ser aquela sofia aristotélica, mas será, certamente, o savoir-vivre dos meus parisienses, que recentemente me decepcionaram tanto.

Tarcísio, direi, está construindo a sua biografia. Desde menino, em Catolé do Rocha, ele a elabora. Rapazola, era apontado nas ruas da cidade sertaneja como "aquele menino que está preparando a sua biografia". Assim foi lá, foi em Mossoró, foi na Bahia, foi no Rio de Janeiro, foi em Natal. Assim é agora no lazer que ele divide entre a grande casa de Cabo Frio e a casa-grande da Fazenda São João.

Governador nosso, fez a paz pública. Quis todos iluminados com a sua luz e governou praticamente sem oposição. Não admitiu registrar na sua contabilidade um inimigo. Inimigo que se enfronhasse, se quisesse inaugurar, sentar praça, ele desarmava com o seu sorriso tímido, a sua cordura de homem educadíssimo, o seu aplomb e o seu charme. Se o inimigo, feroz, não se desestabilizava, só lhe restava a ele, Tarcísio, rezar pelo seu desarmamento, chegando a Deus, tal como eu, pela intercessão de nossa Santa Teresinha do Menino Jesus, aos pés de cujo leito derradeiro, lá em Lisieux, roguei a favor da recuperação de minha infância espiritual.

Perseguir adversários? Demitir professores? Remover delegado de polícia? Boicotar jornal pouco simpático à sua gloire (no sentido de De Gaulle)?

Jamais! O homem de 1945, da eterna vigilância, dos lenços alvos do brigadeiro, do liberalismo de Mangabeira, não se permitiria o dislate.

Ser do PDS é seu mal secreto. Antônio Mariz, seu mano e nosso amigo, já o encontrou na madrugada do São João, peripatético, a exclamar ao espanto de seus melões d’oiro: "O meu pecado é o PDS". Porque é um risco na antebiografia que elabora.

Maquiavel? Talvez. Mas não o Maquiavel tiragosto de boteco. Um Maquiavel fazendo contraponto com a História d’uma Alma. Filósofo, literário. Numa palavra: superior.

Tarcisólogo, eu? Quem sou eu... Apenas um amigo a quem Tarcísio Maia visita na hora do enfarte, artigo de morte, mas flagela, com mãos enluvadas, quando presume sangrar em saúde.

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