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A
PALAVRA DE DORIAN
Coisas de Tarcisologia
Natal, abril de 1984.
Não sou nem pretendo
ser tarcisólogo. Nesta quadra evanescente de um viver
em desespero (e aí o desespero não tem sentido de esvaziamento
dos materialistas, mas ressaibos kierkegaardianos),
o que aspiro é chegar à provectude naveana e poder,
impune, dar bananas à periferia. A tarcisologia, como
outras logias maiores e menores, não fascinaria a minha
recém-inaugurada senectude. Tanto que, em Oxford e na
Sorbonne, olhei sem atenção o currículo da nova ciência-filosófica
com grega indiferença. Nem te ligo, ó...
Mas que entendo de
Tarcísio Maia, cá eu entendo. Conhecimento infuso, dirão
difamadores quer de meus métodos de estudos, quer de
minha biblioteca, que se não tem méritos, como a de
Mussulini Fernandes, para sensibilizar o BNH do coronel
Mário Andreazza, ao menos para mim vale como um tocante
motivo de encantamento.
Tarcísio eu conheço
como conheci (e amei) Guido Leite, conheço (e amo) Meu
Branco, conheci, conheço e amo as mulheres de minha
vida - Maria Cândida, Saudade, Raïssa, Lia e Rachel,
a mulher, as filhas e as netas com as quais a Providência
provou, particularmente para mim, que a sua graça excede
a sua justiça.
Menino de calças curtas,
peito aberto, braços nus, eu já via o terno branco de
Tarcísio Maia, entrando no Café de Tavares. Ou o seu
lenço branco de cambraia de linho, com leve toque de
extrato francês, desfraldado diante dos olhos compridos
de meu povo confiante.
De lá para cá, foram
tortuosas as veredas de meus caminhos. Os seus, não.
Se preferirem, aparentemente não. Mais velho ficou -
que fazer? Mas o que perdeu em juventude adquiriu
em sabedoria. Que poderá não ser aquela sofia aristotélica,
mas será, certamente, o savoir-vivre dos meus parisienses,
que recentemente me decepcionaram tanto.
Tarcísio, direi, está
construindo a sua biografia. Desde menino, em Catolé
do Rocha, ele a elabora. Rapazola, era apontado nas
ruas da cidade sertaneja como "aquele menino que
está preparando a sua biografia". Assim foi lá,
foi em Mossoró, foi na Bahia, foi no Rio de Janeiro,
foi em Natal. Assim é agora no lazer que ele divide
entre a grande casa de Cabo Frio e a casa-grande da
Fazenda São João.
Governador nosso, fez
a paz pública. Quis todos iluminados com a sua luz e
governou praticamente sem oposição. Não admitiu registrar
na sua contabilidade um inimigo. Inimigo que se enfronhasse,
se quisesse inaugurar, sentar praça, ele desarmava com
o seu sorriso tímido, a sua cordura de homem educadíssimo,
o seu aplomb e o seu charme. Se o inimigo, feroz, não
se desestabilizava, só lhe restava a ele, Tarcísio,
rezar pelo seu desarmamento, chegando a Deus, tal como
eu, pela intercessão de nossa Santa Teresinha do Menino
Jesus, aos pés de cujo leito derradeiro, lá em Lisieux,
roguei a favor da recuperação de minha infância espiritual.
Perseguir adversários?
Demitir professores? Remover delegado de polícia? Boicotar
jornal pouco simpático à sua gloire (no sentido de De
Gaulle)?
Jamais! O homem de
1945, da eterna vigilância, dos lenços alvos do brigadeiro,
do liberalismo de Mangabeira, não se permitiria o dislate.
Ser do PDS é seu mal
secreto. Antônio Mariz, seu mano e nosso amigo, já o
encontrou na madrugada do São João, peripatético, a
exclamar ao espanto de seus melões d’oiro: "O meu
pecado é o PDS". Porque é um risco na antebiografia
que elabora.
Maquiavel? Talvez.
Mas não o Maquiavel tiragosto de boteco. Um Maquiavel
fazendo contraponto com a História d’uma Alma. Filósofo,
literário. Numa palavra: superior.
Tarcisólogo, eu? Quem
sou eu... Apenas um amigo a quem Tarcísio Maia visita
na hora do enfarte, artigo de morte, mas flagela, com
mãos enluvadas, quando presume sangrar em saúde.
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