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A
PALAVRA DE DORIAN
DE JORNAIS E JORNALISTAS
Bom demais. Como um
sonho. Daqueles que deixam saudade e tornam a realidade
menos mesquinha. Jornal livre, independente, sem papas
na língua. Brasil, Urgente. Verdade inteiriça. Cabeça,
tronco e membros. Sem restrições, sem medo. Sem fantasiá-la
de berloques. Que importariam os melindres da Light
ou os interesses melados da Cola-Cola? Merda para as
indústrias brasileiras da Alemanha, da França, dos Estados
Unidos. Merda três vezes para os contatos de publicidade,
biltres fresquinhos e ensopadinhos. Não terão importância
as suas broncas. Servirão apenas para as chacotas, quando
a edição estiver pronta. Nem viriam os gringos, as panças
dos gringos, os gritos dos gringos. Nas nossas mesas,
os grupos econômicos não esquentariam mais suas ricas
bundinhas e seus ovos de ouro.
Agora a defesa da causa
dos pequenos, dos que nada possuem, dos que foram despejados
e despojados. Para os quais há apenas recusas. Era possível,
eu sabia, que a indiferença continuasse. Li - Lênin
ou Stalin? - ser preciso promover a classe operária
mesmo contra a sua vontade. O amanhã que sucede à noite.
Quando tudo parecia rifado, fanadas as esperanças, a
madrugada entrava pela janela. Sol novo, luz nova, um
claro limpo, enxuto. Poder respirar por inteiro, sem
sufocações nem tremores. Nada de poluição ou contágio.
Como no tempo de menino.
No tempo de menino,
jornal de estudantes. Nele saíram os meus primeiros
artigos. Violentíssimos. Os mais velhos acharam fossem
de autoria de meu Pai. Enganaram-se: meu Pai sempre
escreveu melhor do que o filho, numa prosa disciplinada
e asséptica. No jornalzinho, Jaime Hipólito Dantas publicou
seus primeiros ensaios, com as primeiras citações de
Maritain, Mário de Andrade, e versos de Bandeira. Leme
chorou os seus iniciais versos parnasianos, tão incomodamente
parecidos com Casimiro e Catulo. Poesia de terra, amores
traídos, rosas de sertão, medo da morte. Não vingou.
Depois vieram revistas. Uma delas, metida a sebo, imitando
o Paratodos de Álvaro Moreira. Jaime e eu escrevíamos
quase tudo. Ele, a seção de rádio, notinhas sobre Marlene,
Emilinha, Dalva de Oliveira, Ivon Cury. Eu, por trás
de Ema, a seção feminina com consultório sentimental.
E havia, ainda, colaborações esparsas: Drummond, Jorge
Fernandes, Bandeira, Schmidt, Marques Rebelo, Murilo
Mendes, Helen Ingerson, Jorge Freire, Vingt-um Rosado,
Antonio Pinto de Medeiros, Luis da Câmara Cascudo. A
revista agradou, fez sucesso. Mas morreu de fome.
Agora, um jornal. Diário,
em cidade enorme, a maior. Sem limitações. Eu não temia
a experiência. Mas amedrontava-me estar, face a face,
com o sonho concretizado. Liberdade de um lado. Do outro,
cristianismo. Não o caricato, desinformado, deformado,
egresso de pias sacristias ultramontanas, meio analfabeto.
Cristianismo encarnado, autêntico, tipo Alceu Amoroso
Lima. "Cristianismo não será toda a verdade jogada
aos focinhos dos catolicões?" - perguntava, entusiasmado,
Frei Carlos Josaphat. Um homem emocionante, capaz de
levantar multidão e provocar revisões de vida.
E ainda havia aquela
turma. Sem calos do profissionalismo. Gente boa. O que
vira, dizia. O que vira... Criaturas iguais, carne e
osso, indistinguíveis na multidão. Não inimigos. Nem
desconhecidos. Os contendores que, com ódio ou sem ódio,
sabem que vão se pegar, cedo ou tarde, usando de todos
os recursos, na disputa de um palmo de chão. De um chão
que carece ser defendido, com unhas e dentes. Mais do
que amigos, são irmãos. Não acidentais, por determinismo
cego na sua origem e surdo ao longo de seu trajeto.
Irmãos por inteiro. Pelo mistério da filiação divina.
O mesmo Pai. A mesma fé, o mesmo destino de povo
eleito. Ligados para a vida e para a morte. Arrebol,
sol, futebol.
O próprio Josimar (Moreira
de Melo), mais experiente, confessara a sua perplexidade:
- Ou nos salvaremos
em penca, ou nos perderemos todos.
Chegara. Aqui e agora.
Hic et nunc. Cada um com um só trabalho: meter-se rápido
e rasteiro na sua roupa de briga e cumprir, à risca,
a sua vocação. A vocação que Deus lhe deu. Sempre esperei.
Daí porque às vezes pensava que, outra vez, sonhava
acordado, olhos esbugalhados, alucinação de doido manso.
Espécie de alumbramento.
Jornalista deve dizer
a verdade. Existe para ela. Se não a diz, se a sonega,
será tudo - de esperto a canalha - menos jornalista.
Não se é jornalista como se é comerciante ou lavador
de pratos. Não se compra uma vocação no mercadinho da
esquina. Trata-se de missão. Espécie de sacerdócio.
Não se amando a verdade ou não se desejando colocar-se
a seu serviço, que se procure outra saída - e passe
bem. O diabo é que os jornais estão cheios de comerciantes,
de industriais, de rufiões. E principalmente de cafajestes.
Raros são os jornalistas. Dá para contar nos dedos.
Lembro ontem, o vozeirão
de Brito me azucrinando os ouvidos:
- Velho, é preciso
entender. Não interessa consertar o mundo, mas vender
jornal. Para isso somos pagos, bolas! Ou você será sempre
um foca, procurando régua e indo apanhar a calandra?
Vontade de voltar ao
passado. Quando lembro o jornal de minha cidade, o jornalzinho
do meu Avô, lonjuras do Nordeste, o coração fica deste
tamainho. Honrados e pobres, limpos e feios. Sinto ganas
de correr ao passado, para pedir perdoem o moleque besta,
os seus instintos.
Brito explicava, sem
jeito, os olhos envergonhados:
- Não adianta publicar
isso. Fulano vai ficar chateado e ele está com uns problemas
danados. A mulher doente, estirada numa cama, morre
não morre. O genro, sem emprego, em petição de miséria.
Vamos lascar o delegado de polícia...
Eu me mordia. Como
não? Se aquilo era mentira, não deveria ser publicado
em qualquer ocasião, fosse qual fosse o estado de saúde
da madame ou mesmo se o cretino do genro fosse um deputado
governista, pessedista de quatro costados. Mas se era
"a expressão da verdade", a doença da mulher
e o azar do rapaz justificariam a transigência ou mudariam
a realidade?
Ontem, não falar na
Esso, nem na Standart, nem no Jaffet, nem nos banqueiros.
Agora, não. Não há ação sem reação. Noite sem manhã.
Apertaram, exageraram, abusaram, fecharam o cerco? Tomassem
jornal livre nas trombas. Não adiantaria fofocar em
grupinhos, mas sim largar a boca no mundo. Dizer de
nossa insubordinação.
- Afine a sua pena,
que está chegando a hora.
O frei infundia confiança.
Ele acreditava, eu acreditava. Os outros acreditavam.
Até Josimar acreditava. Daí a invencibilidade. Um prato
indigesto para a canalha. Mas era preciso não
pensar em vingança. Malhar os pústulas, não
odiá-los. Ou odiar
o pecado e amar o pecador, como pregava Agostinho. Não
seria fácil...
- Ou nos salvaremos
em cacho, ou iremos todos para o inferno.
Roberto Carlos avant
la lettre. Chumbo bom com cabra ruim. Cada chumbo haveria
de levar uma mensagem, um objetivo. É um grão - pensava
- de caridade eficaz. Não seria fácil, sabia. Eles me
haviam machucado. A sua mentira, a sua deslealdade,
a conspiração do silêncio. A mesma que martirizou a
santidade feroz de Bloy. Deus é o vingador. Preferível
pensar nos outros. Estes, sim. Bons. Homens e mulheres,
iguais a todo mundo e, entretanto, diversos. Por quê?
A idéia os espiritualiza. Vejam, a idéia os espiritualiza.
Não me conheciam senão de nome. Como me acolheram? Braços
abertos, como um dos seus. O mesmo com Josimar. Unir.
Tudo nos une e nada nos separa. Samba ou Saenz Pena?
Diferença caindo por inúteis. O cristianismo fermentando.
A comunhão dos santos. A sensação de que somos muitos
em um e de que somos irmãos. Cada qual trazendo o seu
tijolinho.
Aconteceu. Maria Cândida
teria de acreditar. Minha Mãe teria que entender. Meu
Pai também - coitado, sonhou todos os meus sonhos e
eu, o filho, sem méritos, colhia as rosas e via o desabrochar
da manhã que ele envelheceu esperando. Se meus filhos
entendessem... Se entendessem - pensava comigo -, poderiam
dormir tranqüilos. Porque não haveria mais bichos no
telhado.
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