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O JORNAL DOS ESCÓSSIAS
"O
Mossoroense, creio, enquanto houver um descendente de João da Escóssia, deve
reaparecer, tendo, em cada fase, o que o filósofo alemão classificou de
Zeitgeist, o espírito da época. Cada fase deve retratar o flagrante momento
fluente, para ter eficiência".
(Manoel de Almeida Barreto)
As
palavras do professor Manoel de Almeida Barreto, ex-diretor do Colégio Diocesano
Santa Luzia, possuem força profética. De geração em geração, como bem disse
Barreto, O Mossoroense tem sido continuado por descendentes de João da Escóssia,
adaptando-se às transformações editoriais, comerciais, industriais e sociais de
cada período da história brasileira.
Sendo atualmente um dos quatro mais
antigos jornais do País e o mais antigo do Rio Grande do Norte, em circulação,
O Mossoroense encontra-se em sua 5ª fase, desde a fundação em 17 de
outubro de 1872, por Jeremias da Rocha Nogueira, quando se chamava apenas
Mossoroense e se dispunha a defender os interesses do Partido Liberal.
O jornal de Jeremias, semanário de quatro páginas, nasceu no fim do
primeiro período do jornalismo brasileiro, que se estendeu de 1808, com o
surgimento da Gazeta do Rio de Janeiro, pertencente ao governo
monárquico, e do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito da
Costa, até o ano de 1880.
Existe polêmica sobre qual desses dois foi o
primeiro jornal do Brasil. A Gazeta do Rio de Janeiro circulou pela
primeira vez em 1º de setembro de 1808, cerca de quatro meses após a instalação
das oficinas da Impressão Régia. O Correio Braziliense foi impresso em
Londres, no dia 1º de junho de 1808, mas só chegou ao Brasil em outubro desse
ano.
Questiona-se a inserção do Correio na história do jornalismo
brasileiro. Dizem que o seu conteúdo, diferente do que se costuma afirmar, era
muito mais voltado para o público europeu do que o brasileiro. José M.
Tengarrinha, historiador português, conforme reportagem publicada na revista
Jornal dos Jornais, de novembro de 1999, considera o Correio
Braziliense "como um jornal português publicado na Inglaterra".
O
período inicial da imprensa brasileira pode ser subdividido. Até 28 de agosto de
1821, a censura prévia e a proibição dos prelos contribuíam para inibir o
surgimento de jornais. Até essa data, quando o príncipe-regente Dom Pedro
decretou o fim da censura, no Rio de Janeiro só havia a Tipografia Régia. A
partir daí, começaram a se multiplicar tipografias e jornais.
A censura
existia desde antes da instalação da primeira tipografia nacional. Nos séculos
XVII e XVIII havia um princípio de jornalismo crítico que expunha a insatisfação
popular contra o domínio europeu e acabou levando ao exílio e mesmo à morte
muitos que ousaram combater o sistema político e religioso com a palavra.
Juarez Bahia lembra em História da Imprensa Brasileira, que o
poeta Gregório de Matos Guerra foi uma das vítimas dessa censura:
"Na
colônia, esse jornalismo oral e escrito adquire expressão política e social com
as sátiras de poetas panfletários como Gregório de Matos, ou a oratória clássica
do padre Antônio Vieira. Na Bahia seiscentista, a perseguição do governo-geral
do Brasil à poesia de crítica social antecipa a sorte da tipografia
setecentista.
Após publicar em cópias manuscritas a sátira Juízo
anatômico dos achaques que padece o corpo da república em todos os seus membros,
e inteira definição do que em todos os tempos é a cidade da Bahia, Matos é preso
incomunicável, degredado para Angola, e anos depois só volta com a condição de
não mais fazer versos".
Ao ser fundado 64 anos após a Gazeta do Rio
de Janeiro e o quando o País vivia o segundo império, O Mossoroense trazia
todas as características da imprensa da época: era político, panfletário,
polêmico, desafiador e inquietante. A bandeira defendida - o ideário liberal -
sobrepunha em importância a tiragem e a qualidade gráfica.
Havia
relativa calma na política nacional em 1872, a economia brasileira ainda
encontrava-se fragilizada por conseqüência da Guerra do Paraguai e o pensamento
abolicionista defendido "nas asas do condor", mais do que nunca, rondava o céu
da Pátria. Na literatura, o telurismo da escola Romântica - que pregava o "Tudo
pelo Brasil, e para o Brasil" - começava a abrir espaço para o Realismo. A moda
dos jornais como espaço literário também surgia com a ascensão da burguesia.
Em Mossoró, o acirramento entre liberais e conservadores destoava da
"relativa calma" na política nacional. A eleição de 7 de setembro de 1872 foi o
estopim da guerra que fez surgir, em 17 de outubro seguinte, o jornal O
Mossoroense. O pleito era para escolha de vereadores e juízes de paz. Após a
votação, o padre Antonio Joaquim Rodrigues, líder dos conservadores, levou as
urnas para serem apuradas no interior da igreja. Capangas armados de porrete e
punhal posicionados nas portas do templo impediram a entrada de adversários.
As máquinas e o material tipográfico foram comprados em Recife. A linha
adotada pelo jornal, que tinha também como redatores José Damião de Souza Mello,
um dos chefes liberais, e Ricardo Vieira do Couto, refletia não apenas o
pensamento liberal ou as características da época, era a marca do espírito
combativo de Jeremias da Rocha Nogueira.
Boa parte dos editoriais
publicados na primeira fase de O Mossoroense, que se estendeu até 1876,
tinha como alvo os conservadores. Um desses textos, assinado por José Damião,
com o pseudônimo de "Velho da Montanha", atacava o bispo da região chamando-o de
celerado e o vigário mossoroense de fingido e subserviente.
No primeiro
número do jornal, que tinha em seu frontispício a marca de "Semanário, político,
comercial, noticioso e litterario", o manifesto aberto com versos do poeta T.
Ribeiro apresentava as suas intenções:
"Dissera Deus ao sol: surge,
alumia! E iluminou-se o val, o monte o albergue, O fruto, a flor, as
palmas Mas do espírito a luz chegara o dia, O seu fiat, em fim, diz
Gutemberg, E fez-se o sol das almas.
Do templo do trabalho é hóstia,
verbo Sacrário, luz, sacerdotiza a imprensa - A mãe da liberdade. Que
ampara o gênio em seu trabalho acerbo, E abarca as eras em sua esfera
imensa Prendendo idade a idade.
(T. Ribeiro)
Que a imprensa é
o farol que guia o naufrago nos procelosos mares da vida através da cerrada
noite da ignorancia à luz dos espíritos que se derrama e acende nos crâneos
apagados, o sol das almas, em fim, que se irradia nas frontes a que serve de
luminosa aureola, disse muito bem aquele mavioso poeta nos arroubos do seu mais
inspirado lirismo.
Quando a verdade assim surge esplendorosa, irradiando
a alma do poeta que se ajoelha em adoração diante da gloriosa filha de
Gutemberg, parece ter arrancado à fama os últimos títulos e ao gênio as
derradeiras estrofes da sua mais completa imortalidade. Se a imprensa é, pois, a
lâmpada desse grande Universo que se chama espirito humano, a estrela dos
séculos, que ilumina as páginas da história apontando os povos a Canaan do
progresso, e guiando as nações opressas para a Jerusalem da liberdade, força é
que um raio desse luminoso astro dos dois emisferios, cuja luz parece já inundar
toda a extensão da America meridional, rasgue com faisca eletrica o denso veu
das trevas que ocultava para brilhar também no azulado céu desta filha do
Cruzeiro, de Santa Luzia de Mossoró.
Desde que esta jovem cidade,
colocada a sete leguas do Atlântico, sobre a margem esquerda do rio do seu nome,
renegando seu negro passado histórico, foi surgindo como Eva do caos procurando
comungar as idéias da civilização moderna, embalou-se por tal força na esperança
de um porvir melhor, que sonhava a todo o instante ver nos horisontes o palido
clarão de um crepúsculo que lhe devia anunciar o nascimento da estrela, de seu
futuro destino. Isto era com efeito um verdadeiro sonho de glória, uma esperança
que lhe sorria e dourava a fantasia, uma quimera talves, mas o Iris da fé, que
surgiu por entre os dourados paineis da imaginação, veio finalmente pousar na
fronte da filha da floresta e dizer-lhe que no relógio dos tempos iria em breve
para ela soar a hora de um grande dia.
E soou. Convertera-se em
realidade a idéia grandiosa que Mossoró um dia sonhara, e o "MOSSOROENSE"
apareceu.
Tinha chegado o momento de sua aurora de luz.
Vai
pois, o novo recem-nascido percorrer pela vez primeira o mundo da publicidade.
Sentindo-se ao entrar no caminho da vida, levado pelos primeiros
impulsos do coração para a correnteza elétrica das Idéias do século em que
nascera, saúda aos colegas da imprensa, e corre a alistar-se nas bandeiras da
cruzada reformista, acercando-se do banquete do progresso, e carregando sua
pequena pedra para o grande templo da civilização.
Aparecendo no momento
em que a revolução das idéias, guiando a humanidade para as conquistas da razão,
parece anunciar á próxima transformação religiosa e política que deve mudar a
face do globo, o "Mossoroense" sente a necessidade de fazer-se já de vela para
as praias do futuro, a fim de assistir a esse grande espetáculo.
Trêmulo
e vacilante diante das convulsões com que a sociedade atual reagindo contra a
hidra do despotismo e da teocracia, estes dois monstros sanguinários, inimigos
de todo o progresso, e companheiros inseparaveis da superstição e da tirania
que, denegrindo a história dos povos, tem cavado a sepultura das nacionalidades,
o novo Atila entra no mundo jornalistico cheio de temor e com a fraca luz de seu
espírito a tomar parte na questão magna que deve decidir os futuros destinos da
humanidade.
Estabelecidas assim as bases do seu programa social, parece
ter chegado o momento solene de fazer a sua profissão de fé religiosa".
No número 19 de O Mossoroense, edição do dia 22 de fevereiro de
1873, Jeremias definia o conservador e o jesuíta:
"Conservador e jesuita
portanto são dous aliados perversos, que azafamando-se em repellir toda a
iniciativa como um perigo, em manter toda a instituição anachronica, como um
princípio sagrado e em proclamar a imobilidade nas forças sociais, introduzindo
a eternidade em todas as couzas humanas e conservando as gerações e o mundo em
uma infancia perpetua, devem ser considerados e proclamados urbi et orbi
como os maiores inimigos do progresso social e da perfectibilidade do genero
humano".
É a partir do número 28, de 26 de abril de 1873, que O
Mossoroense passa a adotar em seu frontispício a famosa inscrição:
"Semanário, político, comercial, noticioso e antijesuítico", mantida até 8 de
novembro do mesmo ano. Na edição de 2 de fevereiro de 1874, O Mossoroense
já é "Órgão do Partido Liberal de Mossoró - Dedicado aos interesses do
município, da província e da humanidade em geral".
O historiador
Vingt-un Rosado diz, em Mossoró: "Jeremias da Rocha Nogueira é o pai
da imprensa mossoroense. Possuído daquela coragem do português do século das
descobertas, aquele descendente do alferes Manoel Nogueira de Lucena nunca se
acovardou ante o coronelismo dos políticos de seu tempo. Por isto, nós nos
acostumamos a ver O Mossoroense o órgão reto e sensato da elite
intelectual de Mossoró. Nele colaboraram os expoentes maiores da nossa
inteligência: Jeremias da Rocha Nogueira, José Damião de Souza Melo, o
português-brasileiro, na expressão de Almino Afonso, Alfredo de Souza Melo,
Antônio Gomes de Arruda Barreto, João da Escóssia e outros".
Contam que,
em 1º de janeiro de 1875, enfurecidos devido a comentários publicados em O
Mossoroense, na seção intitulada Mofina, o deputado provincial Rafael
Archanjo da Fonseca e o guarda da Mesa de Renda José Tertuliano contrataram
cerca de 10 capangas para tentar assassinar os redatores do jornal. Nesse
episódio aparece a valente figura de Anna Floriano, mãe de Jeremias da Rocha e
comandante do Motim das Mulheres, que teria se armado com um espeto de ferro
para defender o filho, José Damião e Ricardo Vieira do Couto de uma tentativa de
assassinato.
Após bebedeira e baderna pelas ruas da cidade, ainda
segundo alguns autores e a tradição oral dos Escóssias, o grupo de Rafael
Archanjo se dirigiu à redação do jornal, se deparando com Anna Floriano, que os
esperava na entrada do estabelecimento, armada com um espeto. - Quem subir à
escada morre na ponta deste espeto! - teria dito a mãe de Jeremias. Desgraça
maior não aconteceu graças à intervenção de terceiros.
Na primeira
edição após esse ataque, publicada a 13 de janeiro de 1875, O Mossoroense
chegava às ruas com manifesto assinado por Jeremias da Rocha Nogueira,
personificação da coragem materna, no qual comenta o acontecimento e classifica
os pretensos invasores como facínoras, sangüinários, celerados e canibais.
Contrariando a versão mencionada anteriormente, Jeremias presta, em seu
texto, solidariedade a José Damião e ao agente consular Frederico Antonio de
Carvalho, o que pode significar que ele e Ricardo Vieira do Couto não estavam
presentes ao local do acontecimento, a Agência Consular Portuguesa. Em momento
algum, Jeremias se refere a Anna Floriano. O manifesto é longo, mas vale a pena
ser transcrito:
"MANIFESTO PUBLICO
O attentado do dia 1º de
janeiro
'Livre a Imprensa, incommoda estes [bandidos, Como ao
ladrão noturno a sentinella, Causa-lhes medo a imprensa!'
G. Braga.
6 de Janeiro de 1875.
Impõe-me o dever de cidadão e de amigo, se
não também o principio de solidariedade que se deve guardar e respeitar nos
ataques que se dirigem e tendem a sufocar a voz da Imprensa, sua independencia e
liberdade, a indeclinavel obrigação de protestar perante o mundo contra o
attentado inaudito que soffrera a Imprensa - Mossoroense - perpetrado na pessoa
do cidadão brazileiro, José Damião de Souza Mello, meu companheiro de redacção -
e de Frederico Antonio de Carvalho, Agente consular de S.M. Fidelissima, nesta
cidade!
Filho do povo, em nome da segurança, paz e tranquilidade deste;
mossoroense, em nome dos meus patricios, cidadão, em nome dos meus direitos, eu
cumpro um dever sagrado erguendo a minha fraca voz, para mandar ao mundo,
envolto na tunica negra da infamia o grande nome - do Deputado Provincial e
Administrador de Rendas Provinciaes desta Cidade - Rafael Archanjo da Fonseca,
principal protogonista do drama criminoso que passo a narrar:
No dia 1º
de Janeiro do corrente anno, reunindo-se o mencionado deputado Rafael Archanjo -
a um seu comensal - de nome José Tertuliano, guarda da Meza de Rendas -
percorreram os suburbios desta cidade assalariando capangas cacetistas, para um
fim só compativel com a natureza corrompida desta miseravel gente, e
conseguiram, que a elles se incorporassem os seguintes indivíduos - Quintiliano
Fraga e um filho de nome João, João Martins da Silveira, e 2 ou 3 filhos, um
famulo do Dr. Euclides Diocleciano, de nome Manuel e Manuel Gavião. Reunidos
assim em numero de 10 ou 11 pessôas, depois de haverem afogado a mente n'um
oceano d'alcool, armaram-se de cacetes, punhaes e pistollas, e dirigiram-se, ás
3 horas da tarde pouco mais ou menos, capitaneados pelo referido Rafael - na
mais selvagem gritaria e criminosa ostentação, á casa onde reside José Damião de
Souza Mello e Frederico Antonio de Carvalho, onde tem estes seu estabelecimento
commercial, e o ultimo o escriptorio da Agencia Consular Portugueza; e ahi,
furiosos como tigres, aos gritos de mata, morra etc, penetraram no interior
della, indo até a cosinha, onde não encontrando suas victimas, que
sorprehendidas pelo accomettimento inesperado, sem tempo para ganharem uma
posição convenientemente defensiva, subiram ao andar da casa por cima do
referido estabelecimento, onde permaneceram e onde aguardavam a subida dos
aggressores.
Abandonada assim a casa, escriptorio e estabelecimento ao
poder dos assaltantes, estes sedentos de sangue abrasados de ferocia e bruteza,
e certos, pelo concurso d'algumas pessôas caracterizadas que com animo
pacificador, para ali se dirigião, de que não levarião a effeito o assassinato
de José Damião e de seu sócio, nem satisfarião daquella vez seus instintos
brutais, atiram-se sobre as vidraças do estabelecimento e escriptorio da Agencia
e quebrão quasi todos os vidros á cacete, dando até profundos golpes na propria
madeira e balcão, quebrando igualmente diversos objectos de vidro expostos á
venda, e praticando outros desatinos acompanhados de mil injurias atrozes e
infamantes!!!!!!!!!
Ao vêr-se o desespero brutal e sanguinario d'aquella
sucia de sceleratos, dir-se-hia um bando de salteadores acommettendo de sorpresa
a casa d'um cidadão pacifico, dispostos a lhe pedirem a bolsa ou a vida!!!
Depois sahindo todos os faccinoras do theatro de seu drama de ferêsa e
selvagismo, onde lhes havião escapado as victimas em que pretendiam cevar seus
instinctos e brutal furor, percorreram as ruas redobrando os insultos e
ameaçando voltarem á typographia Mossoroense, causa originaria de seus odios
contra os redactores. Era já noite e ainda se ouvia de todos os angulos da
cidade o rugir medonho dessas feras avidas de vingança e famintas de sangues!
Eis resumidamente o facto lamentavel e tristemente assombroso, parto
d'uma imaginação escaldada do calor dos vinhos e da devassidão, facto
attentatorio de todos os direitos legítimos, de que foi theatro esta cidade no
dia 1º de Janeiro do corrente anno, tendo por principal autor Rafael Archanjo da
Fonseca, deputado provincial! Se a tentativa foi vã, se não houve serias
desgraças a lamentar, se os abutres carniceiros não mergulharam as laminas de
seus punhaes homecidas no coração de suas victimas, o attentado deu-se e
perdurará na memoria de todos os mossoroenses para eterna execração de seus
miseros autores!
E quem diria que o actual delegado de policia - Joaquim
Severino da Silva assistisse impassivel com 10 praças de seu destacamento a este
acto immoral e criminoso sem que houvesse buscado prender em flagrante os
autores de semelhante attentado?!
A opinião publica, indignada, já
formou sobre tão irregular proceder o seu juizo final!.....
Se a força
não lhe era suficiente para effectuar a prisão, a lei lhe fornece meios
efficazes de salvar a sua reputação; mas não quiz!!!
Quem diria que o
Dr. Avelino Ildefonso d'Oliveira Azevedo, Promotor Publico d'esta comarca fosse
o depositario das chaves da casa da repartição que lhe entregou o afamado chefe
do bando de criminosos, seu intimo amigo, na occasião em que sahio armado com
todos os capangas para efectuar o plano da tenebrosa conspiração?!
Ignorava por ventura o plano sinistro e mil vezes reprovado d'aquelle
seu amigo? Não via que o preparo belico d'aquella matilha feroz, horrivelmente
alcoolizada não podia ser para praticar um ato lícito?
Não faziam eles
desde pela manhã a mais ignobil ostentação de seu plano com sciencia sua?
Quem podia ver Quintiliano Fraga e João Martins adargados de .ferros até
aos dentes, que não podesse comprehender o fim malevulo que guardavão na mente?
Quintiliano, o criminoso audaz que esfaqueou José da Paulina em pleno
dia no meio desta cidade; que espancou do mesmo modo a sua propria sogra, de
cujos crimes ainda se não livrou, desordeiro reconhecido, faquista por habito,
homem de reprovados costumes e pessima conducta, e João Martins da Silveira,
esta cousa sem nome, sem dignidade e sem brio, autor do attentado quasi identico
perpetrado contra - Medeiros & Valerio, desta cidade, João Martins da
Silveira de quem a cadeia desta cidade tem expressa lembrança desde que d'ella
evadio-se estando preso por desordens, não podiam inspirar nas condições em que
se achavão, se nao o receio da desordem e do crime. Pois bem, foram estes e
outros sicarios, cujo nome é repugnante pronunciar, os companheiros
immortaes do Sr. capitão Rafael, no dia dessa orgia vandalica e
devastadora, e na noute dessa festa de canibaes!
São elles com quem o
Sr. capitão Rafael vive em intima convivenccia, porque só elles o podem auxiliar
em seus acommetimentos de perversidade e malvadeza!!
Estamos em plena
anarchia; não ha segurança de vida, de honra e de propriedade alem da que se
contem nos limites da propria defesa.
E a quem pediremos providencias,
se da parte d'aquelle, aquem a lei incumbio a sua execução, parte o
acoroçoamento aos crimes e a condecendencia aos criminosos?! Rafael despedaça o
pacto fundamental que nos rege, violando em pleno dia o asilo do cidadão, tenta
contra sua existencia, e sobe mais tarde a tribuna Provincial para legislar em
bem da ordem e da segurança!
Oh! minha desgraçada patria, estes monstros
nao sao teus filhos!
Mossoroenses briosos, chegou o momento extremo de
fazerdes respeitar os vossos direitos conspuscados e escarnecidos por esse
despota ou tiranete devasso, aquem já chamam Lopes do Seridó!
Chegou o
momento de compreenderdes que ingrato hospede que se alimenta do vosso suor para
consumi-lo nas orgias d'uma infrene devassidão, d'uma crapula infrene, é um
verdadeiro insulto, uma atroz afronta feita a vossa dignidade de homens e de
cidadãos!!!!.......
Acordai para compreender vossos direitos e praguejar
estes monstros sanguinarios, que rasgando a Constituição e as leis, tem arrojo
de tentar contra a ultima de vossa liberdade, a imprensa.
Mas a imprensa
não morre, porque não morre a liberdade! Como o cedro altivo que no picaro das
montanhas afronta o embate furioso d'impetuosa rajada, hade o Mossoroense
resistir impavido aos tufões da prepotencia dos sicarios e dos vandalos desta
desgraçada actualidade! Collocai-vos ao meu lado, mossoroenses, e quando por
sobre as victimas sacrificadas ao furor sanguinario destes bandidos, avistar-des
alguem lutando até cair esange abraçado ao pendão da liberdade que nos congraça
e une, levantai os olhos, e encontrareis o que sempre esteve a vosso lado nas
lutas da oppressão contra a tyrannya.
JEREMIAS da R. NOGUEIRA".
Na mesma edição, Jeremias assina outro texto em que desafia seus
desafetos, revela a solidariedade do capitão Targino Nogueira de Lucena, irmão
maçom e padrinho de João da Escóssia:
"Os autores do attentado... depois
de insultuosas... e passeatas de musica, foguet vivas á constituição do império,
o capitão Deputado e chefe... acabava de calcar aos pés violando asilo do
cidadão fizeram... ameaças publicas de no dia 6 atacar a typographia
Mossoroense.
[...]
A typographia foi aberta... todo esse
dia em exposição publica a espera do cumprimento da... ameaça dos vândalos, que
foram... intimidados pelo capitão Targino Nogueira de Lucena destincto
mossoroense que os esperou na estacada... com seus amigos e ao lado do seu
proprietario".
José Damião de Souza Mello também assina artigo na edição
de 13 de janeiro de 1875, em que os autores do atentado são tachados como
corruptos, selvagens antropófagos, cães hidrofóbicos e sicários.
O
assunto ainda é abordado na edição do dia 24 seguinte. O texto sob o título "A
queda do Archanjo Raphael!", em clara alusão a Rafael Archanjo, referindo-se ao
"verme das pústulas", "Archanjo maldito", é finalizado com o "epitaphio
horrendo":
"Aqui jáz Raphael, esse precito, Belsebú da
Fonseca, anjo maldito Maldito cherubim! Larva negra a vagar
nas trevas mudas, Fantasma de Plutão, sombra de Judas, Espectro de
Caím!"
A historiadora Maria Lúcia Escóssia diz que a sua mãe, Dulce
Escóssia, repetia sempre a versão de que, realmente, Jeremias não se encontrava
no Consulado Português no momento do ataque do grupo supostamente liderado por
Rafael Archanjo. Segundo ela, ao saber do episódio, Jeremias quis se deslocar
até o lugar do atentado, sendo proibido pela mãe, Anna Floriano, que afirmava a
sua pretensão de resolver o caso sozinha.
Lauro da Escóssia se refere a
esse episódio como
"[...] A tentativa de empastelamento do jornal de
Jeremias da Rocha Nogueira, cujas oficinas e redação ficavam situadas no prédio
vizinho ao da agência consular".
Ainda conforme a narrativa de Dulce,
que me foi repassada por Maria Lúcia, Anna Floriano teria derrubado ao chão um
dos capangas e montado-se neste, enquanto pressionava a garganta do inimigo com
o espeto.
Apenas como curiosidade: 1872, ano de fundação de O
Mossoroense, foi também o ano em que Longino Guilherme de Melo, o "padre
cangaceiro", que tinha fama de "desencaminhar" mocinhas e de se envolver em
violentas trocas de tiros com os Ferreira Butragos, voltou a residir em Mossoró,
já velho e praticamente cego.
O Mossoroense defendia a abolição da
escravatura, embora o pensamento em favor da liberdade da raça negra tenha sido
expresso de modo quase sempre discreto e algumas vezes de forma contraditória.
Na edição de 3 de maio de 1874, por exemplo, o jornal protestava contra
a perseguição do delegado e do carcereiro de Mossoró a um escravo do comerciante
Francisco Antonio Martins de Miranda, preso várias vezes, de modo arbitrário, e
obrigado a fazer a faxina da delegacia. O contraditório da matéria está na
constatação de que o jornal defende muito mais o direito do proprietário do
negro, pelo fato deste ter sido mantido em cárcere sem autorização daquele, do
que o direito à liberdade do cativo.
Outra dessas contradições está
estampada na última página, em 12 de julho de 1874, na forma de anúncio da fuga
de um escravo.
"ESCRAVOS FUGIDOS - No dia 4 de Abril próximo passado,
evadio-se da Povoação da Araruna, Provincia do Parahyba do Norte, hum escravo de
nome Alexandre com os signaes seguintes - idade 20 anos, cor parda, altura
regular, cheio do corpo, rosto redondo, falta de hum dente na frente, barba
nenhuma, cabeça e orelhas grandes, cabellos crespos, e as pernas arqueadas, e
quando se veixa gagueja hum pouco. Quem o apprehender e levar á Lagoa do Fumo na
Província do Rio Grande do Norte, em casa do Coronel Miguel Ribeiro Dantas, ou á
Araruna a casa de Antonio Ribeiro da Silva, será generosamente recompensado".
Voltando um pouco no tempo, encontra-se, em 14 de dezembro de 1872, a
denúncia contra o juiz Sebastião Cracará, que teria roubado bens do escravo
Tomaz para dar a outra pessoa. Não se trata de uma defesa da libertação dos
escravos, mas de um negro em especial.
"RESSURREIÇÃO - temos em nosso
poder a correspondencia, a que por falta de espaço dexamos de dar publicidade
neste n. - É relativa ao apparecimento do escravo - Tomaz - cujos bens forão
nesta Cidade escamoteados pelo juiz municipal supplente Sebastião Cracará, de
eterna mimoria, e afinal entregues a um quidam, que dizia herdeiro do mesmo -
Tomaz - No escripto a que nos referimos se põe bem patente a corrupção, que
grassa aqui em certos funccionarios - que, constituidos Srs. da justiça - sào ao
mesmo tempo escrivãs, advogados - meirinhos e afinal arbitros da propriedade
alheia.
......................
igualmente que pelo celeberrimo
Cracará foi estabelecido um novo princípio em jurisprudencia, isto é - á
sucessão inter vivos - por quanto sem a prova do fallecimento de - Tomaz
apparece, e manda ordem para se receber os seus bens, não deixara por certo de
reagir contra a violencia, que soffrera a pessoa que por sua ordem tinha seus
bens - e que do seu uso ficou privado. - Prepare se o juiz Cracará, que teremos
contradanças, e S.S. peça bem a Deus - nào fique agarrado por um suspensório -
ao anno do Nassimento de Nosso Senhor Jesus Christo - Quem te mandou alfaiate
tocar rabecão?!...................
Isto quer dizer em bons termos para
quer quer ser juiz tendo nascido para capar bodes?"
As defesas mais
amplas do ideal libertário estão em 1874, como esse trecho de reportagem
publicada em 26 de julho:
"Mais um triunpho da liberdade - Os jornaes da
heroica província de São Paulo dão conta da acção altamente grandiosa e
meritória, que alli acaba de destinguir o subdito francez José Planet, ex-dono
do Hotel d'Europa sito na capital; o qual tendo de retirar-se para a Europa,
resolveu dar a liberdade a 10 escravos de sua propriedade. [...]"
Em 13
de setembro seguinte, a defesa abolicionista aparece como propaganda da
maçonaria:
"A loj.: Regeneração Catharinense, da cidade de Desterro, que
mantém uma aula gratuita, solemnisou o dia 24 de junho do corrente anno
libertando uma criança menor de 11 annos.
O Sr. Augusto César Moreira
Pantaleão, por ocasião de entrada na loj.: Honra e Humanidade , ao Unido (Rio
Grande do Sul), libertou em nome da sua officina e sem ônus algum a uma sua
escrava de cinco annos de idade. [...]"
Outro texto merece destaque. Em
24 de outubro de 1874, comemorando o segundo aniversário do jornal, transcorrido
em 17 passado, Jeremias publicou o manifesto do qual fazem parte as seguintes
passagens:
"A bandeira do Mossoroense é a da liberdade; não a
liberdade que assiste ao senhor na compreensão do escravo; mas a liberdade de
iguaes e de irmãos.
[...]
Elle caminha e busca a liberdade
completa e real aonde quer que ella esteja.
[...]
O
Mossoroense sem desviar-se um ápice do caminho, que a justiça e a razão
lhe tem apontado, acompanhará nas lides os obreiros do progresso, entoando em
coro sob a luz resplandecente da verdade, hynnos a Deus, a Patria e á Liberdade.
Avante! Coragem!"
O jornal mostrava simpatia pelo protestantismo
e criticava, impiedosamente, os jesuítas. Sobre isto, diz Lauro:
"Desde
os primeiros instantes, o jornal se escudou numa campanha ostensiva à pessoa do
vigário político, de quem um instante sequer se distanciou em o atacar em todos
os sentidos e por todos os meios condizentes com a imprensa escrita.
Sem
nenhum temor, mesmo enfrentando ódios e vinganças que se formaram contra o
jornal, Jeremias da Rocha Nogueira e seus companheiros de redação receberam o
desafio que a contingência política do momento se evidenciava.
Respondia
em letras de fogo a palavra vinda do púlpito. Apoiou o jornal a Questão
Religiosa de que resultou a prisão de Frei Vital e do Bispo do Pará, Cerrando
fileiras ao lado da maçonaria nacional, frontalmente contra a vontade do vigário
a implantação de uma sociedade de pedreiros livres em Mossoró".
Alguns
folhetins chegaram a ser publicados, tais como Os amores de Alfredo, O
unha torcida, A mulher perdida e O noivado de Adão.
A
tipografia de Jeremias, onde o jornal era impresso por José Soares de Couto
Lima, chamava-se Typographia Mossoroense, mudando em 22 de dezembro de 1872 para
Typographia Liberal Mossoroense.
No ano de 1997, o professor Vingt-un
Rosado publicou pela Coleção Mossoroense uma edição fax-similar, em dois
volumes, dos jornais da primeira etapa de O Mossoroense que resistiram à
ação do tempo e do homem. Na abertura, o comentário assinado por Lauro da
Escóssia informa que o jornal fechou possivelmente em março de 1876, tendo
publicado cerca de 158 números. Suas edições eram dominicais.
O formato,
ainda no relato de Lauro, era de 45cm x 31cm, diagramado em três colunas de 7cm
cada, até o número 56, publicado em 8 de novembro de 1873. Na edição seguinte, o
jornal surgia com o mesmo formato, mas diagramado em quatro colunas de 6cm cada.
O encerramento da primeira fase, ao que parece, se deu por problemas
financeiros que obrigaram Jeremias a vender o prelo principal ao coronel Antônio
Soares Macedo, para impressão de o Brado Conservador, em Assu. O restante
dos equipamentos gráficos, com a morte de Jeremias, em 1881, foi enterrado por
José Damião no quintal de sua casa, na antiga Rua das Flores, hoje Bezerra
Mendes, e resgatado cerca de 30 anos depois.
Em 1911, morando na mesma
casa que pertencera ao pai, Alfredo de Souza Mello contou a João da Escóssia,
Jerônimo Rosado, Rufino Caldas, Lauro da Escóssia e outros presentes, que sempre
ouvira o pai dizer que enterrara um dos prelos de O Mossoroense, o
primeiro a ser usado na tipografia, bem ali, no quintal de sua residência.
A revelação de Alfredo Mello despertou a curiosidade dos presentes, que
decidiram procurar o velho prelo. Lauro da Escóssia, com a autoridade de quem
assistiu a tudo, conta:
"Estou vendo na retina da memória o próprio
Alfredo Melo com aquela sua agucidade inglesa, de posse de uma alavanca cavando
a terra, revolvendo o solo e grande foi a surpresa de todos. As peças, uma a uma
estavam sendo retiradas de um ângulo do quintal do predio em que hoje está
situada a Farmácia Assunção, contígua à residência da família Melo que ao tempo
passado integrava todo conjunto residencial e armazém de comércio de José Damião
de Souza Melo e de seu sucessor".
O papel utilizado para imprimir O
Mossoroense vinha do norte do País, no Vapor Pirapama.
***
Sobre a segunda fase de O Mossoroense, ressurgido como
"Periódico humorístico e Illustrado", sob o comando de João da Escóssia, com o
apoio dos redatores Antonio Gomes e Alfredo Mello, conta Vingt-un:
"Em
1901, o velho e glorioso órgão de nossa imprensa ressurgiu sob a capa d'O Eco,
jornal humorístico, durando até 1902.
Marca este último ano, o início da
2ª fase d'O Mossoroense, aos 12 de julho. São seus novos redatores o
coronel Antônio Gomes de Arruda Barreto e Alfredo de Souza Melo, filho de José
Damião. Gerencia-o, com muita competência, o redator-xilógrafo João da Escóssia,
que também é seu proprietário. Traz agora o intuito de prestar 'serviços às
letras, às artes, às ciências, às indústrias e ao desenvolvimento de todos os
ramos da atividade humana'. Nesta segunda fase era quinzenal, passando-se em
1905 a publicar-se três vezes ao mês. Imprimia-o a Aurora Escossesa, depois
Atelier Escóssia. Mais tarde seria semanal e em sua última etapa, bissemanal,
saindo às quartas e aos domingos. Depois do falecimento de João da Escóssia,
O Mossoroense passou a ficar sob a direção dos jornalistas Augusto da
Escóssia e Lauro da Escóssia, netos de Jeremias da Rocha Nogueira e filhos de
João da Escóssia. A terceira geração, como a segunda, soube manter o tradicional
órgão na diretriz que lhe traçara a primeira, em 1872".
A reabertura de
O Mossoroense traz a marca do segundo período da imprensa brasileira, que
se iniciou em 1880 e se estendeu até 1910. O jornal passa a ganhar dimensão de
empresa e a política partidária não é mais a mola propulsora do rumo a ser
seguido. Não havia a agressividade dos primeiros anos. É o período em que os
processos de composição e impressão passam a ser aprimorados, a caricatura surge
na imprensa brasileira e cresce a consciência de que o objetivo do jornal é a
notícia.
O próprio João da Escóssia esculpia as xilogravuras para
ilustrar o jornal fundado por seu pai, algumas delas copiadas ou inspiradas em
ilustrações publicadas em revistas do Sul. Chama atenção dos especialistas no
assunto, a fineza do traço nos trabalhos desse artista, inclusive os temas
escolhidos: variavam desde caricaturas a charges satirizando acontecimentos
políticos. João da Escóssia chegou a retratar cenas de um crime ocorrido em
Grossos e o incêndio da Bastilha, além de esculpir artes publicitárias.
Na segunda conferência do I Ciclo de Conferências e Estudos
Mossoroenses, em agosto de 1958, o jornalista e escritor Jaime Hipólito Dantas
assim se expressou:
"De João da Escóssia, pode-se dizer, primeiro que
tudo, que se tratava de um artista de primeira ordem. Era um admirável
xilógrafo, com uma capacidade simplesmente extraordinária para retratar, em
madeira, com o auxílio de um mero canivete, figuras do seu tempo ou de outras
épocas, como ainda objetos, fatos ou alegrias para a ilustração de notícias ou
reportagens.
A arte do xilógrafo João da Escóssia estaria a merecer um
estudo à parte por um entendido na matéria. Como se explicar que um homem do
interior, sem qualquer estudo especializado, haja chegado a dominar com tal
perfeição a arte, não tão fácil, da xilogravura? Possuía o artista o senso da
observação dos detalhes mais diminutos. Parecia ser ágil, sutil e penetrante.
Uma vocação, sem dúvida, de puro retratista, que a província, na pequenez das
suas proporções, no incolor da sua vida no princípio do século, não pode
devidamente valorizar".
A Questão de Grossos, disputa entre os Estados
do Ceará e Rio Grande do Norte para estabelecer seus limites, foi o principal
assunto abordado nesse período.
Conforme registro feito na edição do dia
7 de setembro de 1953, nº 364, a impressora Marinoni de O Mossoroense,
atualmente desmontada e com as peças espalhadas no Museu Municipal, foi comprada
por João da Escóssia nessa fase.
"Máquina impressora de O Mossoroense
MARINONI plana de fabricação italiana, acionada a eletricidade com
capacidade para 1.500 exemplares por hora. Foi adquirida por João da Escóssia no
ano de 1917. Até hoje continua fazendo a tiragem deste jornal. Dimensões -
capacidade máxima da rama. Interior 76 x 112".
Com a morte de João da
Escóssia, em 1919, o jornal perdeu muito de suas características culturais. Vale
salientar que a partir da I Guerra Mundial, deflagrada em 1914, os jornais do
País começaram a perder suas características literárias e a ser influenciados
pelas novas relações estabelecidas entre a sociedade e a comunicação de massa,
passando a ser mais noticiosos.
Raimundo Soares de Brito menciona
Francisco Pinheiro de Almeida Castro como sucessor de João da Escóssia no
comando do jornal, de 1917 a 1921, vindo em seguida, conforme Jaime Hipólito,
Rafael Fernandes Gurjão, como diretor político e redator chefe de 1922 a 1930, e
Augusto da Escóssia como gerente, de 1930 a 1934, quando do encerramento da
segunda etapa.
Em 1918, O Mossoroense era "Órgão vespertino,
independente e consagrado aos interesses das classes conservadoras". No dia 18
de junho de 1919, passava a anunciar-se como "Órgão do Partido Republicano
Federal". Apesar do período de vibrante engajamento político, o jornal não
trazia mais a violência dos embates da primeira fase.
Proprietário e
gerente, Augusto da Escóssia não aceitou a censura imposta pelos que detinham o
poder político e preferiu suspender a circulação do jornal, temporariamente, a
apresentá-lo aos leitores com as idéias tolhidas. Com o manifesto "Ao povo de
Mossoró", Augusto anunciou o fechamento:
"O Mossoroense, depois
de circular continuamente por mais de trinta annos, vê-se forçado hoje a
interromper sua publicação. É do domínio público que na quarta-feira passada, o
sr. delegado de polícia, 1° tenente José T. da Rosa, procurou o nosso director,
fazendo-lhe ver que, de ordem superior, antes de circular, teria o jornal de se
submeter à censura. Consciente do dever de acatar as resoluções do governo
ditactorial implantado em nossa Pátria, nada teríamos a objectar se a censura
tivesse de ser feita pela autoridade pública, no uso de suas atribuições
regulares. Mas, para O Mossoroense a censura se revestia de uma
humilhação, pois que, estranhamente, o censor seria um cidadão que, além de
adversário político, era desafecto pessoal do director e mais redactores do
jornal. Nestas condições, impulsionados por um sentimento de brio que, herdado
dos nossos maiores, queremos transmitir integro aos nossos descendentes,
resolvemos cerrar as portas do orgam, cuja vida tem sido um exemplo de trabalho
e esforços em prol de todos os nobres comettimentos que se relacionam com o
progresso e com o bem estar do município e do estado, e cuja orientação, como
podem atestar todos os que nos leem, tem sido a mais prudente, sensata e elevada
que seria licito desejar.
Esperamos que um dia os clarões dos raios
sublimes da liberdade, do amor e da justiça illuminem a nossa trajectoria, e que
então, se concretisem em verdade inconcussa as palavras santas do Evangelho: "OS
HUMILHADOS SERÃO EXALTADOS".
Mossoró, 17. 7. 1932.
A Redação"
Em 30 de setembro de 1933, ainda sob a direção de Augusto da
Escóssia, O Mossoroense voltou a circular:
"Após mais de um ano
de silencio, imposto pela situação de compressão e despotismo que abastardou as
nossas tradições de liberalismo, - surge na arena jornalística O MOSSOROENSE, o
velho orgam que sempre se constituiu em trincheira das aspirações de nossa terra
em tudo que respeitasse o seu progresso material e a sua cultura. Defendendo o
programa a que se traçou em toda a sua já longa existência, este jornal, sem
jamais baixar ás ofensas pessoais e nem cultivar ódios estéreis, continuará a
sua missão nobilitante de propugnar pelos altos empreendimentos locais, e, há de
ser o vanguardeiro digno e leal das boas causas e dos propositos meritorios.
Confia a sua direção que o POVO MOSSOROENSE recebe-lo-á com a simpatia
que tanto lhe servirá para estimulo, e a que corresponderá com o Maximo esforço
para bem servi-lo".
A circulação se estendeu até fins de 1934. O último
número constante do acervo do Museu Municipal é o 1.155, de 11 de novembro.
***
Confirmando as palavras proféticas do Monsenhor Barreto, de
que havendo um descendente de João da Escóssia O Mossoroense há de
reaparecer, e a esperança da pesquisadora Salomon, do Rio de Janeiro, de que
"Aquilo é uma febre, um estado de espírito, pois em breve o jornal ressurgirá
das cinzas e O Mossoroense voltará a viver", o jornal de Jeremias da Rocha
reabriu suas portas em setembro de 1946, sob o comando de Lauro da Escóssia,
ajudado, entre outras pessoas, por seus filhos Lauro Filho e Danilo Couto da
Escóssia, ambos ainda crianças. Chega-se à terceira fase.
Lauro e Danilo
começaram vendendo jornais. O amor à causa de Jeremias da Rocha os levou às
oficinas e à redação.
O jornal já não trazia inscrito no frontispício o
anúncio das cores partidárias que defendia e se mostrava mais noticioso. Seus
redatores eram Jorge Freire, Vingt-un Rosado e José Augusto Rodrigues.
Por volta de 1953 foram compradas duas máquinas linotipo para compor
textos. Um atraso considerável em relação aos grandes jornais do País, que já no
início do século XX começaram a utilizar essas máquinas. Vitalino Rotellini,
proprietário de Fanfulla, trouxe em 1905 as primeiras linotipos para São
Paulo. Porém, a década de 50 é que assinala o caráter industrial da imprensa.
Eis o registro do próprio O Mossoroense, edição do dia 7 de junho
de 1953, nº 351:
"Está em fase de experiência a linotipo adquirida pelo
Mossoroense.
Representa esse presente regio para a cidade de
Mossoró, a primeira dentre as muitas cidades interioranas do norte do país a
possuir gráfico mecanisado, mais uma conquista do esforço da família Escóssia,
que mais uma vez se apresenta como pioneira nos árduos misteres da imprensa
mantendo através de quatro gerações de Jeremias da Rocha aos bisnetos, a mesma
chama de expansão e progresso reclamados por Mossoró.
Dentro de mais
alguns dias terá esta folha toda sua composição mecanizada, o que muito irá
proporcionar sua circulação e mais rápido contato com os seus inúmeros leitores
e amigos, tal o propósito que animam seus atuais responsáveis.
A
montagem da maquina que é uma Linotipo Relâmpago modelo 31, obedeceu a
orientação do técnico Leoncio Tobasa, mecanico, da Linotipo do Brasil S.A., em
todo o norte do país, que numa demonstração de trabalho e grande conhecimento,
fez com desincumbencia feliz referida montagem em dois dias apenas".
Se
comparado ao interior brasileiro, não há atraso. O Mossoroense começou a
lidar com as linotipos justamente no período de quatro décadas, dos anos 30 aos
anos 70, que a imprensa interiorana passou a adotar técnicas mais modernas. Eis
o registro de Juarez Bahia:
"No interior do país, jornais feitos à mão
ainda circularão por muito tempo, compostos em caixa francesa e prensados ao
impulso pedal ou braçal, como a testemunhar as profundas diferenças regionais
que caracterizam a Federação. Distantes, em produção e organização
administrativa, das estruturas editoriais em funcionamento no Sudeste com seus
setores de venda avulsa, assinaturas, publicidade, promoção, pesquisa,
circulação etc.
Dos anos 30 aos anos 70, essa paisagem editorial do
interior brasileiro exigirá quarenta anos para ser alterada. É o que ocorre,
desde a introdução do sistema offset, aposentando a antiga tipografia e a
impressão mecânica. De 1970 em diante, a capacidade editorial instalada absorve
a tecnologia avançada das modernas máquinas de informar".
O
Mossoroense deu outro mergulho em 1963, como nos leva a crer a numeração dos
exemplares existentes no Museu, embora alguns autores se refiram a 1965, como
fiz de modo equivocado na primeira edição do Escóssia. Jaime Hipólito
cita 1964. O último número desta fase é o 3.393, de domingo, 7 de julho de 1963.
Na reabertura, 20 de dezembro de 1970, o número da edição assinalado no
frontispício do jornal é exatamente o seguinte: 3.394.
Lauro da Escóssia
reabriu o jornal em 1970 e o comandou até a venda, em 1975, quando o controle
acionário passou a ser do médico Jerônimo Rosado Cantídio, ligado ao grupo do
deputado federal Jerônimo Vingt Rosado Maia, adversário político dos Lauros (pai
e filho), abrindo a 4ª fase. O jornal manteve a linha noticiosa, mas ampliou a
militância político e o espaço para opinião.
Lauro da Escóssia foi quem
mais pesquisou e escreveu sobre O Mossoroense, sobre Jeremias da Rocha e
a família Escóssia. Por isso, as tantas citações de seus trabalhos neste livro.
É impossível escrever sobre esses assuntos sem consultar Lauro, assim como seria
inaceitável falar dos Rosados sem a palavra de Vingt-un.
Sobre Lauro e a
sua ligação umbilical com O Mossoroense, disse Raimundo Nonato:
"Ainda hoje, Lauro da Escóssia continua dentro da oficina com o mesmo
entusiasmo dos seus dias jovens, trabalhando, dirigindo, fazendo tudo.
E
quando o tempo lhe sobra, o que é muito raro, toma uns goles de café requentado,
fuma um cigarro-mata-rato e dá uns curtos cochilos arriado por cima dos fardos
de papel.
Imensa e gloriosa compensação para um homem idealista que tem
naquelas velhas máquinas de fazer o jornal, um tesouro bem muito maior do que
aquele que enchia de vaidade o poderoso e sábio Rei Salomão!"
Outra
personagem indissociável da história de O Mossoroense, embora esteja afastado há
anos, é Dorian Jorge Freire, o maior estilista brasileiro, no dizer de Tristão
de Ataíde. Dorian começou a escrever para o jornal de Jeremias na década de 40.
Ele era seu diretor em 1975, quando o jornal passou para os Rosados, e continuou
sendo até mais um fechamento em 1984. Durante esse período, houve o salto da
tipografia para a impressão offset, com a compra de uma máquina Big Chief 29 e
do primeiro fotolito, ao jornal Estado do Maranhão. Eis o depoimento de Dorian:
"Eu aprendi a ler soletrando o jornal O Povo de Fortaleza,
noticiário da Segunda Guerra Mundial. Mas aprendi a amar a liberdade foi no O
Mossoroense, vendo a prática democrática de Lauro da Escóssia. Era menino
quando ingressei no jornal, a convite de seu dono, Lauro da Escóssia em 1947 ou
1948. Meu primeiro artigo chorava a morte de Monteiro Lobato e era intitulado
"Zé Brasil". Há 44, 45 anos. De lá para cá, nunca deixei jornal e nunca estive
longe de O Mossoroense, ao lado de Jorge Freire, Rafael Negreiros, Jaime
Hipólito, Vingt-un Rosado, José Augusto Rodrigues, Lauro Escóssia Filho.
Escrevíamos com inteira liberdade. Até contra as opiniões dos dois
Lauros (donos) e os interesses do jornal. Censura não havia. Imoralidade só
havia na boca suja de Zé Abel. Eu também entregava papel para Albecy fazer
engoli-lo a velha Marinoni. O resto do dia passava no jornal vendo a sua faina,
testemunhando o seu alegre heroísmo.
Lauros, os dois, faziam de tudo:
artigos, crônicas, armação de página, titulagem e eram artistas em tipografia.
Eles e Surica, Tinteiro e Quincão. Sem falar em Chico Abel, Zé Abel, Vicente,
Dois e Postal. Assim foi até eu partir para São Paulo de onde continuei
escrevendo para o jornal.
Regressando definitivamente a Mossoró, fui
convidado pelos Lauros para assumir a direção do jornal, o que fiz incontinenti.
Assisti à venda da maioria acionária da empresa dos Escóssia para o grupo
político de Vingt Rosado. Continuei diretor. Assegurando a todos as mesmas
liberdades concedidas no passado por Lauro.
Eu que assisti os Lauros
trazerem para Mossoró a primeira Linotipo, trouxe para o velho jornal a primeira
off set e o primeiro fotolito. Além de ter sido na minha administração
que o jornal teve sede própria na nova rua com o seu nome. Depois de Lauro da
Escóssia, fui quem mais demorou na direção do jornal. Mais que o fundador
Jeremias, mais do que João da Escóssia, Escossinha: 10 anos inesquecíveis para
mim.
Nestes meus 44 anos de imprensa, passei por muitos jornais, dirigi
alguns deles. Nada me orgulha tanto do que a temporada no O Mossoroense.
Principalmente sob a direção do querido Lauro da Escóssia. Tenho muita saudade
do matraquear da Marinoni, do cheiro de tinta de Dois, de suas piadas, das
imoralidades de Zé Abel e das reações permissivas do velho Gato. Tenho saudades
de Surica, Vicente, Chico Abel, Fernando, Danilo e Lauro, Lucinha e Tó,
Tinteiro, Albecy e Quincão. O Mossoroense foi a melhor escola de
cidadania de Mossoró desde 1872".
Quando deixou a prefeitura de Mossoró,
em 1982, João Newton da Escóssia, filho de Augusto, também passou pelo jornal,
na condição de diretor administrativo. Segundo ele próprio, sua permanência foi
de aproximadamente um ano, ampliando as ações do departamento comercial com a
venda, somente no primeiro período, de 500 assinaturas.
Em 6 de maio de
1984, o jornal O Estado de São Paulo lamenta mais um fechamento de O
Mossoroense, aos 112 anos, e estranha o fato das "forças vivas da cidade e
do próprio Estado potiguar" não haverem se manifestado para assegurar a
continuidade da circulação do velho órgão de imprensa:
"Continua
repercutindo na imprensa do interior a notícia, que publicamos recentemente, do
fechamento de O Mossoroense, diário de Mossoró, RN, o terceiro jornal
mais antigo do país, em circulação há 112 anos. Mais antigo do que ele são O
Diário de Pernambuco, também o mais antigo da América Latina, e o
Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, que já foi chamado de 'ata da vida
brasileira', por circular na Corte e no velho Distrito Federal.
Se não
estamos equivocados, o lugar, cronologicamente, passa a ser ocupado por O
Estado de S. Paulo. Não nos rejubilamos, porém, pelo amargo fim de O
Mossoroense e de sua gloriosa tradição de porta-voz da Capital do Sal e de elo
de ligação da chapada do Apodi com o mar. Antes pelo contrário. Cabe-nos o
direito de estranhar, vivamente, que nenhuma providência tenha sido tomada pelas
forças vivas da cidade e do próprio estado potiguar, a fim de assegurar sua
circulação.
Longe de nós pleitear injeções de recursos públicos,
federais, estaduais ou municipais para mantê-lo vivo, pois seria cerceá-lo em
sua liberdade.
Mas há outras saídas perfeitamente razoáveis, que
permitiriam a continuidade do velho órgão e sua orientação imparcial. Assim é
que, lamentando o fato, nossos confrades da Tribuna do Norte, de
Pindamonhangaba, o mais antigo jornal do interior paulista, lembrava para o caso
o mesmo remédio que o salvou da ruína. Faz precisamente quatro anos que o
prefeito José Maria Alkmin, hoje deputado federal, sancionava a Lei nº 1.672, de
6 de maio de 1980, instituindo a Fundação do 'Dr. João Romeiro' (nome do
fundador do jornal), que assegurou a sobrevivência daquele verdadeiro patrimônio
da imprensa brasileira.
Não é possível, como lembravam os nossos
confrades da Tribuna do Norte, que se deixe perecer simplesmente um
jornal que durante 112 anos - ainda que tenha tido, como tudo o que é humano,
seus erros e falhas - se fez credor de 'relevantes serviços à vida, ao povo, à
cidade de Mossoró e ao próprio Rio Grande do Norte'. Principalmente nesta hora
em que a comunicação massiva - acrescentaríamos - ameaça duramente a identidade
das cidades brasileiras".
***
A reabertura, marcando a 5ª fase,
aconteceu em 1985. O também médico Laíre Rosado Filho, diretor presidente desde
então, recebeu as ações do primo Rosado Cantídio e fez com que, após a enchente
daquele ano, O Mossoroense voltasse a circular, desta vez dirigido por
Eder Andrade de Medeiros, que permaneceu na função até 1987.
Lembro-me
que em 1985 a enchente do rio Mossoró inundou boa parte do centro da cidade. O
andar térreo da sede do jornal, que fica a poucos metros do leito do rio, foi
inundado. De nada adiantaram as paredes erguidas nas portas para lacrá-las. As
antigas coleções de O Mossoroense que estavam guardadas no prédio foram
destruídas.
Na administração de Eder Medeiros, o diretor presidente do
jornal, Laíre Rosado, comprou, em Recife, o primeiro terminal de vídeo
denominado Forma Composer, substituto das máquinas eletrônicas ET-125 que, por
sua vez, haviam substituído as linotipos, nos quais os digitadores compunham as
matérias datilografadas na redação.
Depois de Eder veio Emery Costa,
1987 a 1989, em cujo período administrativo foi implantado o segundo terminal
Forma Composer. A década de 80 é o ponto culminante da informatização dos
jornais brasileiros. Os grandes, desde a década anterior, já experimentavam a
manipulação de textos por meio dos terminais de vídeo.
Após Emery Costa,
sucederam-se os seguintes diretores: José Walter da Fonsêca (1989), Cid Augusto
(1989 a 1991), Pedro Almeida Duarte (1991) e Valney Moreira da Costa (1992).
Na administração de Larissa Daniela da Escóssia Rosado Andrade, de 1992
a 1998, foi comprada uma segunda impressora offset, modelo ATF Chief 25.
O jornal ganhou grande impulso em sua informatização, com a compra de
computadores PCs e impressoras a laser. A partir de 1995, a diagramação e a
redação também foram informatizadas.
O primeiro microcomputador
empregado na redação do jornal foi um XT, utilizado por mim para digitar
matérias policiais. Laíre Rosado quem o levou. De início, houve reação dos
redatores, que preferiam as velhas máquinas de escrever.
O marco mais
importante desse período foi a democratização da linha editorial. Sem perder
suas características políticas, O Mossoroense, graças ao esforço que
envolveu desde os proprietários aos servidores mais humildes, ampliou os seus
horizontes, abrindo espaços cada vez maiores para pessoas de outras correntes de
pensamento.
Com a saída de Larissa, o jornal passou a ser administrado
pelo professor José Cristóvão de Lima, tendo Alvanilson Medeiros Carlos na
gerência e o jornalista Pedro Carlos como diretor de redação. Nesta última
gestão, vieram novos avanços no campo da informática, com a instalação de
microcomputadores avançados em todos os setores do jornal.
Na década de
90 começaram as transformações que a grande imprensa já sofria desde 1985, com a
prática de um jornalismo mais técnico.
O dia 7 de dezembro de 1997 marca
a última mudança no formato do jornal. O Mossoroense, de standard, voltou
ao formato de 32cm x 47cm adotado em décadas passadas. O projeto foi elaborado
pelo jornalista Pedro Carlos, então editor, e pelo diagramador Paulo César
Rodrigues.
Em 24 de agosto de 1999, O Mossoroense deu um
importante passo na sua trajetória, que foi a inauguração de sua página na
Internet, possibilitando a leitura diária de suas notícias em várias partes do
mundo.
De certo modo, o jornal nunca saiu das mãos dos Escóssias, pois
Maria Lourdes Bernadeth da Escóssia Rosado, esposa do deputado federal Vingt
Rosado, um dos novos acionistas, quando da compra a Lauro em 1975, é filha de
Augusto, neta de João da Escóssia e bisneta de Jeremias da Rocha.
Atualmente, o controle acionário do jornal pertence a Laíre Rosado Filho
e sua esposa Sandra Maria da Escóssia Rosado, que é filha de Vingt e Lourdinha.
Também n'O Mossoroense tem Luiz Cavalcanti Filho, no departamento
pessoal, que é filho de Dulce Escóssia e neto de João da Escóssia.
Dos
descendentes de Jeremias da Rocha há alguns nomes ligados à imprensa: os
advogados Lauro da Escóssia Filho e Carlos Eduardo Melo da Escóssia criaram o
Escóssia - Informativo Municipalista, com periodicidade mensal e tiragem
de cinco mil exemplares. Carlos Eduardo também é titular de uma coluna semanal
no Diário do Nordeste, de Fortaleza.
Fernanda da Escóssia, caçula
de Lauro Filho, casada com o jornalista Mário Magalhães, é repórter da Folha
de São Paulo, o mais importante jornal do País.
Ex-gerente do jornal
da família, Lauro da Escóssia Neto não mais milita na área, mas tem se revelado
excelente ficcionista. Ele é o único descendente dos três fundadores de O
Mossoroense: trineto de Jeremias e de José Damião e tetraneto de Ricardo Vieira
do Couto.
Marco Antônio Correia da Escóssia, neto de Augusto da
Escóssia, filho de Juliano Escóssia, é jornalista formado pelo Centro de Ensino
Unificado de Brasília (Ceub).
Por O Mossoroense passaram grandes
nomes da intelectualidade e do jornalismo do Estado. Hoje, ele é um jornal com
administração, redação e diagramação completamente informatizadas. Apesar da
idade, é jovem nas idéias e crê no culto ao passado como único meio de planejar
o futuro. Como sempre, enfrenta dificuldades financeiras, mas tem fôlego para
lutar por mais algumas centenas de anos pelos "interesses do município, da
província e da humanidade em geral". |
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