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LEILANE ANDRADE leilanesandrade@hotmail.com
Dezembro de 1947.
"Tenho quarenta e seis anos,
moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos,
um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e
um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito
medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo
com muitos sonhos, e já escrevi 11 romances. Se chove,
tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades
da chuva. Vou ao futebol, e sofro como um pobre diabo.
Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver meu
clube campeão de tudo. Sou homem de paixões violentas.
Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora
da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo
de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos.
Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador.
Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco
o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como
os outros. E Deus queira que assim continue."
José Lins do Rego
Há exatos 50 anos morreu um dos maiores
representantes da literatura brasileira no estilo romance
neo-realista. Através de suas obras, o paraibano José
Lins do Rego tratou a realidade do Nordeste de uma forma
memorialista, mostrando a decadência dos engenhos de
cana-de-açúcar e todas as suas conseqüências para o
povo da época.
A maior contribuição do escritor foi
chamar atenção para o Nordeste, assim como outros autores
da mesma época o fizeram, caso de Rachel de Queiroz
e Graciliano Ramos. As suas principais obras estão incluídas
no período em que elas eram chamadas de "romance
de 30" ou "neo-relista".
"A chegada da usina trouxe uma
decadência dos engenhos de cana-de-açúcar do Nordeste
entre as décadas de 30 e 45. As conseqüências desse
fato acarretaram mudanças sociais e psicológicas nas
pessoas que sobreviviam dos engenhos ou que, de alguma
forma, estavam relacionadas à cana-de-açúcar",
diz a professora de literatura Milka Patrícia.
O romance neo-realista de José Lins
do Rego caracteriza-se pela abordagem de elementos psicológicos,
regionais e humanos para em conjunto, trabalhar e analisar
o social. Os personagens eram vistos de forma dramática
através de uma análise de seus conflitos existenciais.
A solidão, a pobreza, a loucura e o machismo com a exploração
da mulher são características comuns em seus romances.
Exemplo dessas características é o
Mestre José Amaro e sua filha louca, da obra "Fogo
Morto", que diante dos problemas com o fim dos
engenhos de cana-de-açúcar, acaba cometendo suicídio.
"Antes de ser romancista, José
Lins do Rego era conhecido como um contador de histórias,
onde já se percebiam a oralidade em suas narrativas
ricas em imagens e sinestesias", revela Milka Patrícia.
As principais obras do "contador
de histórias", são: Menino de Engenho (1929), a
primeira a tratar do ciclo da cana-de-açúcar; O moleque
Ricardo (1935) e Fogo Morto (1945). Sendo esta última,
considerada pela crítica como um romance tardio, pois
após outras publicações, José Lins do Rego retoma o
assunto da decadência dos engenhos.
Em 12 de setembro de 1957, aos 56
anos, José Lins do Rego morre, no Rio de Janeiro, no
Hospital dos Servidores do Estado, vítima de hepatopatia.
Obras publicadas
Menino de engenho (1932)
Doidinho (1933)
Bangüê (1934)
O moleque Ricardo (1935)
Usina (1936)
Pureza (1937)
Pedra bonita (1938)
Riacho doce (1939)
Água-mãe (1941)
Fogo morto (1943)
Eurídice (1947)
Cangaceiros (1953)
Meus verdes anos (1953)
Histórias da velha Totonha (1936)
Gordos e magros (1942)
Poesia e vida (1945)
Homens, seres e coisas (1952)
A casa e o homem (1954)
Presença do Nordeste na literatura
brasileira (1957)
O vulcão e a fonte (1958)
Dias idos e vividos (1981)
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