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Milton Marques
MÁRCIO COSTA
BRUNO VIANA
Como novo reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), o médico Dr. Milton Marques de Medeiros já tem traçado seu plano de gestão para seus quatro anos de mandato. Na entrevista desta semana, o reitor fala de sua trajetória política dentro da universidade, desde as primeiras especulações de seu nome para o cargo até os planos para a próxima eleição; de como escolheu a equipe e como pretende trabalhar; dos investimentos que espera para o desenvolvimento da pesquisa e da pós-graduação na universidade; e de como pretende articular a oposição para contribuir na gestão.
Entre outras declarações interessantes, o médico-professor-reitor conta que não tem interesse em permanecer no cargo por oito anos, como seu antecessor. Acompanhe:
Como surgiu o processo de articulação para que seu nome fosse cogitado para concorrer ao cargo mais importante da Uern?
Há muitos anos, o meu nome vinha sendo lembrado para as eleições da Uern. Eu recebia na minha própria residência algumas lideranças da Universidade, estudantes, servidores e mesmo professores, meus colegas, para que eu aceitasse ser candidato à Reitoria, mas eu sempre tive dificuldade em aceitar por causa de muitos compromissos já assumidos. Mas, na última eleição, eu me dispus, principalmente porque foi uma vontade do Fórum de Diretores da Universidade. Aos poucos, meu nome foi ganhando um certo respaldo, entre os estudantes, professores de Direito, de Medicina, e eu percebi que tinha receptividade. Depois, recebi o apoio do reitor Walter Fonseca, que foi extremamente importante. Foi com essa soma que acabei me tornando reitor da Uern.
Quais foram as principais vantagens e dificuldades do processo eleitoral?
Eu acho que o fator mais favorável foi o estilo de campanha, que teve um nível muito alto. Tivemos a oportunidade de ter como concorrentes dois grandes candidatos, o professor Tebas (Ednaldo Tibúrcio) e a professora Arilene Medeiros, que pensavam como nós, que as discussões de campanha deviam ser levadas da maneira mais civilizada possível. Esse fator foi muito importante, porque, se compararmos com outras campanhas políticas, até mesmo as da Uern, não houve injustiças. Nós batemos na bola, não na canela dos adversários, essa foi a regra do nosso jogo. Como ponto negativo, eu destaco o início da campanha por causa da turbulência causada devido a falta de definição dos candidatos. Houve alguns que não se concretizaram, sendo apenas candidatos a candidatos. Eles deram algumas entrevistas à imprensa que nos fez pensar que teríamos uma disputa muito acirrada, que se desviaria para o lado pessoal. Mas, felizmente, contra os fatos não há argumentos, a verdade sempre aparece. Tivemos uma boa campanha.
E quais foram os critérios na hora de escolher a equipe técnica da gestão Milton Marques?
Eu sempre tive o pensamento soberano de que uma universidade se pauta por méritos. Claro que temos que levar em conta os direitos humanos, a democracia, o respeito coletivo, a liberdade, mas me parece que dentro da comunidade acadêmica, o mérito é indispensável. Aqueles que se apresentarem com mais qualidade, disposição de serviço, liderança, aqueles que se dispuserem a ser forças vivas da Universidade, deveriam ser convidados para compor nossa administração. O critério foi esse. Tanto que esquecemos todos os baques políticos passados, não fizemos nenhuma escolha política. Nossas conversas foram muito francas, a Universidade está precisando de valores para alcançarmos a consolidação da Uern que tanto buscamos. E para isso, precisamos da ajuda de todos os integrantes da comunidade, sem exceção. Os convites feitos aos membros da nossa equipe foram nessa direção.
Mas grande parte da equipe provém da gestão Walter Fonseca. Isso não deve dificultar a criação de um estilo próprio do senhor?
Não, porque eu vejo de duas formas. Primeiro, porque a presença de pessoas que compuseram a equipe anterior não está muito na primeira linha. Eu diria no segundo ou terceiro escalão. Veja bem, dos 12 que compõem as pró-reitorias, chefias de gabinete e suas assessorias, só se repete o pró-reitor de Administração. Todos os outros foram modificados. E ainda mais, os dois pró-reitores que eu considero mais importantes, o de Ensino e o de Extensão, são novatos, que são as professoras Glaudionora Silveira e Ana Maria Morais. O outro ponto que vejo é que isso depende do estilo que se pretende implantar. Se os pró-reitores e assessores da gestão anterior se adaptarem ao nosso estilo, serão muito bem-vindos, porque são bons. A Universidade não cresceu por acaso. Os valores existiram para que ela ganhasse a projeção que tem, e nós não podemos abrir mão desses valores. Pensamos onde estavam os valores e buscamos mantê-los, mas deixamos muito claro que é uma nova gestão que se inicia e tem que ser respeitada. Sinceramente, eu acho que nossa equipe está muito bem preparada.
Desde o tempo da campanha eleitoral, o senhor tem um discurso que pede a participação da oposição no desenvolvimento da Uern. Até que ponto a ala oposicionista da Universidade pode interferir na administração?
Nós temos um período de transição na Reitoria a cada quatro anos. Se nós analisarmos bem, veremos que, destes quatro anos, três e meio são dedicados à administração e apenas meio ano de política de sucessão, uma disputa de liderança. Então por que não convidar a todos para participar, independente do que aconteceu no período eleitoral? Vamos homogeneizar e dar atenção a esses três anos e meio à administração, porque agora, nós não temos oposição. Estamos todos juntos por uma só causa, que é o bem da Universidade. Nós temos esse raciocínio. Quando chegar pertinho da sucessão, uns seis meses antes, cada grupo vai para seu lado e começa a disputa de lideranças mais uma vez. Porque, se nós já formos pensar em política agora, discriminando a oposição, nós estaremos prejudicando a Universidade. É o meu pensamento e eu sei que muita gente entendeu isso também.
Professor, mas o que muda agora com a gestão Milton Marques?
Eu diria que temos que nos preocupar com a consolidação da Universidade. A Uern se expandiu, está presente em quase todas as regiões do Estado, ela praticamente duplicou. Nós precisamos fazer uma análise profunda de como a Uern está hoje, desde as estruturas físicas, equipamentos, recursos humanos, etc. Quando falo em recursos humanos, falo dos nossos técnicos e dos nossos professores, sejam eles especialistas, mestres ou doutores. Nós temos que encontrar uma fórmula de manter nossos mestres e doutores na Uern. Nós também temos o compromisso de criar novos cursos de mestrado e doutorado, porque nós perdemos, recentemente, um mestrado. Temos que correr para compensar o tropeço.
A publicação científica é considerada baixa na Uern. Existe algum plano voltado para o incentivo à produção e divulgação?
Realmente, nós estamos com a produção baixa, e o Ministério da Educação (MEC) reconheceu isso. Como já identificamos isso, vamos trabalhar para consertar. Nesse sentido, há três viés importantes. O primeiro é fazer com que haja uma consciência nos nossos mestres e doutores de que é preciso produzir mais e melhor. O que acontece é que, quando chegam na Universidade, os professores são chamados a muitos trabalhos e acabam se sobrecarregando, impedindo que eles se dediquem à produção. E isso já é o segundo ponto. Nós temos que trabalhar para deixar os professores mais aliviados e disponíveis para trabalharem sua produção. E o terceiro ponto é uma articulação entre os professores mestres e doutores que nós precisamos fazer para discutir formas de a Uern se destacar no campo técnico-científico, não só no social. Eu acho que unindo essas três ações, nós conseguiremos alcançar nosso objetivo. Mas também temos que lembrar que não só isso, como tudo o que pensarmos, está atrelado aos recursos da Universidade. Vamos procurar desenvolver essa atividade na Uern, mas adaptados ao nosso orçamento.
A Uern implantou, há pouco tempo, o curso de Comunicação Social, e, como o senhor milita há algum tempo na imprensa, deve conhecer a importância desse curso para Mossoró. Quais são os planos para o desenvolvimento desse curso?
O curso de Comunicação é de fundamental importância para a comunidade de Mossoró. Eu lembro-me muito bem que em 1969 o professor João Batista Cascudo, que era reitor à época, pensou em instalar o curso de Enfermagem em Mossoró. Antes, quem trabalhava como enfermeiros eram pessoas que tinham aptidão e se empregavam aleatoriamente. Eu, como diretor de hospital, comecei a perceber a diferença nos profissionais depois da implantação do curso. Como eu tinha o hospital (Casa de Saúde São Camilo de Lélis) antes e depois da faculdade de Enfermagem, percebi o quanto é diferente trabalhar com profissionais que têm formação. Eu imagino que o mesmo vai acontecer com o curso de Comunicação. Acredito que, com o tempo, vai melhorar bastante a qualidade do jornalismo em Mossoró. Eu não tenho nenhum receio de dizer que estarei muito empenhado em desenvolver este curso na Uern. Primeiro, porque a cidade e a região precisam mesmo, o curso não foi implantado por estar na moda. Segundo, porque eu tenho uma certa identificação com o curso. Eu falo "eu" para simplificar, mas esse é o pensamento da Universidade. A Uern tem compromisso com a Comunicação. Nós vamos estar trabalhando para estruturar o curso, mesmo que tenhamos que usar laboratórios particulares ou distantes da Universidade. Estamos preocupados em melhorar o ensino e a aprendizagem, mas estaremos sempre de olho no nosso orçamento, porque não dá pra fazer tudo que se deseja. Agora mesmo foi inaugurada a rádio. Hoje, a Uern tem condições de instalar e manter a rádio, mas para um canal de televisão, nós teremos uma certa dificuldade. A cidade já tem alguns laboratórios particulares, que não são de excelente qualidade, mas já nos servem. Quem sabe não se faça um convênio inicial e, no futuro, tenhamos nosso próprio laboratório? Nós daremos muita atenção a esse curso porque é importante para a sociedade mossoroense.
Uma das marcas da última gestão foi a expansão da Uern, que chegou a vários lugares do Estado. Mas alguns núcleos estão passando por dificuldades estruturais por causa das restrições orçamentárias. Qual será a fórmula para enfrentar esse grande desafio?
Primeiro, nós vamos trabalhar em um mapa da situação da Uern, faremos um diagnóstico de como está cada núcleo. Depois, tentaremos sensibilizar nossa chancelaria (o governo do Estado) para a promoção dos núcleos. Nós sabemos que é desejo da governadora Wilma de Faria fazer com que a Uern esteja presente em todas as regiões do Estado. E até agora só faltam as regiões do Agreste e do Trairi. No Seridó, que só tem um curso, ela pretende ampliar a Universidade. Com essas três regiões, pode-se dizer que a Uern estará presente em todo o Estado. Se houver sintonia entre a Reitoria e a chancelaria, que é nosso fornecedor de recursos, conseguiremos facilmente nossos objetivos. Mas eu tenho a esperança de que estamos no caminho correto porque a chancelaria está se mostrando interessada em seguir essa política.
O senhor inicia uma gestão de 4 anos favorecida para que chegue aos 8 anos. O senhor acredita que sua contribuição para a Universidade deve lhe possibilitar a reeleição? O reitor Milton pensa em 8 anos de mandato?
Eu penso nos quatro anos. Mas nós temos que saber diferenciar o plano de gestão do plano de desenvolvimento institucional. Nós temos que trabalhar a gestão nos quatro anos, mas queremos convidar toda a comunidade acadêmica, as forças vivas da Universidade a contribuir com o plano de desenvolvimento da instituição, que tem uma visão muito maior, de 10, 12, 15 anos, o máximo que pudermos fazer. Nós queremos que esse plano seja bem sucedido, mas eu estou trabalhando no plano administrativo em cima de quatro anos. Queremos trabalhar para promover o desenvolvimento neste período e, em seguida, entregar a Universidade aos nomes que a comunidade indicar.
Dentre esses nomes não poderia estar o do dr. Milton Marques?
Isso só será decidido depois dos três anos e meio que eu lhe falei, quando outros nomes forem apresentados. Mas eu me dou por satisfeito com um mandato de quatro anos. Meu projeto é contribuir com a Uern neste período e transformá-la em uma "tábua de trampolim" mais flexível possível que se projete para o futuro. É isso o que eu quero.
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Mossoró-RN, de 2005