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Paulo Locatelli

Literatura

Entrevista

  PASSEIO NOTURNO

Kalliane Sibelli

Poetisa mossoroense

 

O relógio na parede

é um grilo furando a noite,

ofertando os grãos da vida

no seu compasso de foice.

 

Passeio em seu colo raso

meu ouvido de aprendiz:

melodias suicidas

despencam como frutos

no fogo da travessia.

Mas todos em casa dormem,

enquanto insisto em ouvi-las.

 

 

  AMBIGUIDADE

Vera Rocha

Poetisa (Natal/RN)

 

Vazio

espaço aberto e fechado

vago

na procura de preencher

meu vazio

vagando

preencho espaços

de meu vago

e vazio momento

 

 

  POSSO ESCREVER OS VERSOS   

  MAIS TRISTES ESTA NOITE

Pablo Neruda

Sócio da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró

 

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

 

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis, e às vezes ela também me quis...

 

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.

A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

 

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

 

Como para aproximá-la meu olhar a procura.

Meu coração a procura, e ela não está comigo.

 

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nós, os de então, já não somos os mesmos.

 

Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.

Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.

É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.

 

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,

minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

  CASA PARTIDA

Maria Rizolete Fernandes

Socióloga e poetisa (Natal/RN)

 

Tento segurar a casa

mas na sala parte-se o quadro

da luta desigual.

A ata tirada da reunião no quarto

escorregou sob a cama.

A passeata que da cozinha partiu

pela avenida

desfez-se na primeira esquina.

 

Desço a escada espio

a rua vazia qual inútil geladeira

 

Se pelo menos os livros

na estante segurassem...

 

A televisão transpira sangue

e campanha eleitoral.

Acompanho o toque inexistente

do mensal telefone.

Ouço a mudez do toca-disco

sem rotação.

Sirvo uma bebida em taça sem borda

sem forma, sem brinde

 

Resta o (des)conforto do banheiro

a umedecer o ímpeto...

 

Subo a escada e espio a alma vazia

a cama esquecida

em paralisia.

 

 

 MORENA XXIII

Lindomarcos Faustino

Sócio da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró

 

Morena um dia irei provar

Teu corpo de santidade,

Seremos um só corpo

E jurarei fidelidade.

 

Morena para te somente

Irei guardar os meus versos,

Pois em te encontrei

Toda beleza do universo.

 

Morena neste mundo

Só no teu sorriso encontrei alegria,

Pois você é tudo que tenho

Até nas minhas poesias.

 

 

 MOSSORÓ

Carlos Eduardo

Poeta mossoroense

 

Mossoró, terra de gente

corajosa, batalhadora e

prestativa.

 

Terra que enfrentou e

Expulsou lampião.

Um povo sem medo

De proteger suas terras.

 

Um povo humilde,

Solidário, acolhedor.

 

Povo que sofreu

Na época da escravidão.

Lutou, batalhou e conseguiu

A sua liberdade.

 

Mossoró foi a primeira cidade

A lutar e a conseguir

Acabar com a escravidão no Estado.

 

No dia 30 de setembro

Mossoró comemora

O fim da escravidão e

Libertar os escravos.

 

Mossoró primeira cidade do Estado

A libertar os escravos e

A expulsar Lampião.

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Mossoró-RN, de 2005