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PASSEIO NOTURNO
Kalliane Sibelli
Poetisa mossoroense
O relógio na parede
é um grilo furando a noite,
ofertando os grãos da vida
no seu compasso de foice.
Passeio em seu colo raso
meu ouvido de aprendiz:
melodias suicidas
despencam como frutos
no fogo da travessia.
Mas todos em casa dormem,
enquanto insisto em ouvi-las.
AMBIGUIDADE
Vera Rocha
Poetisa (Natal/RN)
Vazio
espaço aberto e fechado
vago
na procura de preencher
meu vazio
vagando
preencho espaços
de meu vago
e vazio momento
POSSO ESCREVER OS VERSOS
MAIS TRISTES ESTA NOITE
Pablo Neruda
Sócio da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
CASA PARTIDA
Maria Rizolete Fernandes
Socióloga e poetisa (Natal/RN)
Tento segurar a casa
mas na sala parte-se o quadro
da luta desigual.
A ata tirada da reunião no quarto
escorregou sob a cama.
A passeata que da cozinha partiu
pela avenida
desfez-se na primeira esquina.
Desço a escada espio
a rua vazia qual inútil geladeira
Se pelo menos os livros
na estante segurassem...
A televisão transpira sangue
e campanha eleitoral.
Acompanho o toque inexistente
do mensal telefone.
Ouço a mudez do toca-disco
sem rotação.
Sirvo uma bebida em taça sem borda
sem forma, sem brinde
Resta o (des)conforto do banheiro
a umedecer o ímpeto...
Subo a escada e espio a alma vazia
a cama esquecida
em paralisia.
MORENA XXIII
Lindomarcos Faustino
Sócio da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró
Morena um dia irei provar
Teu corpo de santidade,
Seremos um só corpo
E jurarei fidelidade.
Morena para te somente
Irei guardar os meus versos,
Pois em te encontrei
Toda beleza do universo.
Morena neste mundo
Só no teu sorriso encontrei alegria,
Pois você é tudo que tenho
Até nas minhas poesias.
MOSSORÓ
Carlos Eduardo
Poeta mossoroense
Mossoró, terra de gente
corajosa, batalhadora e
prestativa.
Terra que enfrentou e
Expulsou lampião.
Um povo sem medo
De proteger suas terras.
Um povo humilde,
Solidário, acolhedor.
Povo que sofreu
Na época da escravidão.
Lutou, batalhou e conseguiu
A sua liberdade.
Mossoró foi a primeira cidade
A lutar e a conseguir
Acabar com a escravidão no Estado.
No dia 30 de setembro
Mossoró comemora
O fim da escravidão e
Libertar os escravos.
Mossoró primeira cidade do Estado
A libertar os escravos e
A expulsar Lampião.
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Mossoró-RN, de 2005