EDITORIAL
Se você nunca foi a Goiânia, não sabe o que está
perdendo em termos de rock. Uma matéria não será
suficiente para dar esta idéia. Mas que o texto de Marcos Bragatto
pode ajudar, ah, pode. Muito. Conversando com alguns dos sujeitos que
puseram a cidade no mapa roqueiro do país, ele abre para todos
nós um pouco da história do lugar que muita gente chama
de “a Seattle brasileira”. Para quem acha estranha a comparação,
vale a explicação: foi da gelada Seattle que saíram
as bandas que mudaram, coisa de dez anos atrás, a face do rock.
Na linha de frente, estava o Nirvana. Caiu a ficha? No caso da nossa
própria história, não há exatamente uma
banda capitaneando tudo. E isso é bom. Quer dizer que a cena
é rica como um todo. Leia a matéria, leia a matéria...
A maneira nova como os artistas lá na região centro-oeste
estão encarando o trabalho é determinante. Não
querem tocar/ficar só na garagem. Uma nova mentalidade está
no ar. E chega aos palcos. De lá e de outras praças, como
Fortaleza e Uberlândia – onde cobrimos eventos recentes
e comprovamos que as pessoas estão preocupadas, sim, em exercitar
manifestações artísticas, mas... de forma organizada,
profissional, séria e diversificada. Em vez de reclamarem da
falta de dinheiro, arregaçam as mangas e trabalham. Tocam e trabalham.
Divertem-se e tornam viável a produção musical.
É assim mesmo que tem que ser.
É sempre bom quando surge gente inquieta, querendo mudar. Manter
a inquietação, no entanto, nem sempre é fácil.
Ezequiel Neves parece ter conseguido. Basta ler o pingue-pongue com
ele para entender por quê. Boas histórias não faltam
a este veterano. E por falar em inquietação, nesta edição
a gente traz uma pitada de ficção. Além de ter
colaborado com um texto sobre o Cravo Carbono, do Pará (outra
cidade que tem dado o que falar, em matéria de música),
Caco Ishak nos mandou uma dose de literatura. Com uma linguagem, digamos,
cortante e referências capazes de agradar roqueiros e “doidos”
de um modo geral, o escriba contribuiu para fazer desta uma edição
inquieta.
Inquieta e plural: Bárbara Rosa escrevendo sobre moda, Henrique
Inglez trocando idéias com Sérgio Dias para saber sobre
como vão ficar – e se vai mesmo ficar – os Mutantes,
Pedro De Luna dando suas dicas de quadrinhos... De volta de Rondônia,
Tiago “Tacacá” Velasco contando um pouco da história
da viagem que fez para cobrir um festival lá em cima; e também
Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, dividindo – num artigo –
um pouco do que se passa em sua cabeça.
A todos, um abraço inquieto,
Adilson Pereira
P.S.: O CD desta edição é uma coletânea de
bandas inquietas, vindas de... Adivinhem!