PARA O ALTO E AVANTE


Texto: Hugo Montarroyos
Foto:
Guilherme Moura/Divulgação




Poucos rótulos geraram tantos equívocos e distorções quanto o malfadado “Manguebit”. Quando a geração recifense do início dos anos 90 cunhou o termo para designar toda a nova fomentação musical e cultural de Pernambuco, não imaginava a batalha semântica e ideológica que travaria com a mídia local e nacional. Resultado: toda música pernambucana que soasse nova, inventiva, e que tivesse um pé no maracatu e ousasse cruzar guitarra sambista com cavaquinho distorcido era tachada de Manguebit. “Era até engraçado isso”, conta Cannibal, líder do Devotos, em seu estúdio caseiro no Alto José do Pinho. “Porque a gente sempre teve muito forte aqui no bairro a presença de maracatus e afoxés, e nunca pensou em se apropriar disso para fazer um som diferente, como o pessoal do mangue acabou fazendo”, explica.
Superando rótulos e clichês locais, a Devotos está lançando seu quarto disco, o segundo gravado na casa do vocalista, intitulado “Flores com espinhos para o rei”. Pesado como sempre, o novo trabalho traz um Devotos um pouco mais otimista nas letras.
Quase todas as composições do álbum falam em flores. O bom clima do disco talvez possa ser
atribuído ao momento de renovação pelo qual passa o
Alto José do Pinho.
Com uma nova geração promissora que inclui nomes ainda desconhecidos nacionalmente como Os Maletas (funk metal), D’Miopis (new metal feminino), The Siders (hard rock/grunge), Shure (pop), Ratos e Baratas (grindcore) e The Vox (punk), ente outros, o Alto dá continuidade a um processo que começou no início dos anos 80. E a renovação não se faz presente apenas nos nomes. Apesar de todas as bandas citadas serem influenciadas de certa forma pela velha geração que inclui Devotos, Faces do Subúrbio, Matalanamão e A Ostenta, a maioria delas se limita a imitar os vizinhos apenas na atitude de montar uma banda, pois a sonoridade é completamente diferente da de seus “ancestrais”. E alguns desses nomes já estão de certa forma inseridos no mercado, como Os Maletas e D’Miopis, que participaram da segunda edição da coletânea “Alto-Falante”, produzida pela ONG local de mesmo nome. O CD, lançado em agosto, teve tiragem de mil cópias e foi gravado durante um show no Alto José do Pinho no fim de 2005. A coletânea traz três músicas de cada banda, e logo virará DVD. “A gente ficou muito feliz de ter sido convidada para tocar no ‘Alto-Falante’. Gostamos muito da receptividade do público e do resultado da gravação”, conta a baterista da D’Miopis, Rita Loa, que cita como principais influências Pitty e System of a Down. O grupo tem três anos de existência, e a idade das integrantes varia entre 17 e 21 anos. Além das três músicas registradas, a vocalista da D’ Miopis, Michele, ainda deu uma canja na apresentação da veterana Matalanamão. “Ficamos emocionadas em dividir o palco com bandas que crescemos ouvindo”, conta Loa. Ente os planos para o futuro está a gravação da primeira demo. “Mas antes vamos ao Rio de Janeiro. Fomos convidadas para tocar lá no início de 2007”, comemora.
Outra banda que vem ganhando respaldo local é a Ratos e Baratas, também com três anos de estrada. O caso deles é emblemático, pois mostra os dois lados da moeda quando o assunto é montar uma banda no Alto José do Pinho. “É mais fácil montar uma banda aqui no Alto porque todo mundo ajuda, gosta da cultura rock e dá apoio”, conta o baterista Léo. Mas a Ratos e Baratas acabou constatando que tal facilidade poderia render problemas e acabou radicalizando. “A gente mudou de estilo. Éramos punks e viramos grindcore. Tem muita banda punk aqui”, conclui. Polivalente, Léo também conduz as baquetas da The Siders, banda com sete anos de carreira que faz um paralelo entre o hard rock e o grunge: “Temos feito shows no interior de Pernambuco, que é mais chegado a esse tipo de som.” Tanto a The Siders quanto a Ratos e Baratas devem entrar na terceira edição da coletânea.
Da segunda participaram – além de D’ Miopis, Os Maletas e Matalanamão – os veteranos Devotos, Faces do Subúrbio, Nanica Papaya, Terceiro Mundo e A Ostenta. O critério de escolha das bandas foi simples. Tinha que ser banda do Alto e que estivesse na ativa, fazendo show regularmente. Na próxima, além de mais nomes da nova geração, deve entrar também a velha guarda do bairro, como grupos de samba, maracatu, afoxé e seresta.
A gravação da coletânea é fruto da ação da ONG Alto-Falante. Alheios a qualquer espécie de rótulo musical, em 2002 os músicos do Alto José do Pinho resolveram colocar em prática tudo o que cantavam em suas letras. Adilson Ronrona (vocalista da Matalanamão), Massacre (ex-baixista do Faces do Subúrbio), Peste (baterista do Matalanamão) e Cannibal, entre outros, fundaram a Alto-Falante, que pretendia incluir os moradores no mercado de trabalho através de oficinas temáticas, melhorar a auto-estima da comunidade, captar recursos para a viabilização de eventos culturais e montar uma rádio comunitária. Ou seja, levar informação
e cidadania para os cerca de 19 mil moradores (número estimado por Hamilton Brito, presidente do Conselho
de Moradores).
A Rádio Alto-Falante, instalada nos fundos do mercado público do bairro, conta com caixas de som nos postes da principal rua do Alto e funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h. A programação é a mais variada possível, principalmente se for levado em conta que ali é um reduto punk. “Tocamos música evangélica, samba, Roberto Carlos, música para a terceira idade. Tem de tudo”, conta Adilson Ronrona, que com seu grupo vive um dilema no mínimo curioso. Conhecida em Pernambuco como pornô e por fazer apologia da masturbação (já teve até clipe censurado na MTV), a trupe anda sem tempo para divulgar seu segundo disco – “Quem é o Pai?” – porque não acha brecha na agenda entre um trabalho e outro. “Todo mundo da Matalanamão trabalha em ONG”, explica Ronrona.
Com a criação da ONG, o Alto José do Pinho deixou de ser notícia apenas por causa da música produzida ali. Jornalistas de todo o mundo, antropólogos, pesquisadores e estudantes estão sempre lá à procura de um depoimento, de uma informação, de algo que renda uma tese ou uma matéria.
Outra iniciativa que vem dando certo é o Rocriança, evento que já está em sua quinta edição e que é dedicado aos pequeninos. Trata-se de uma atividade recreativa desenvolvida anualmente com outras ONGs – geralmente num domingo de novembro – nas ruas do Alto. Durante todo o dia acontecem apresentação de teatro, bandas e palhaços. E no fim, além de shows com grupos locais, são distribuídos brinquedos para as crianças.



 

PUNKS EM MEIO AO MANGUE
Apesar de só ter quatro anos de existência, a história da ONG Alto Falante vem de duas décadas. Na metade dos anos 80, um grupo de amigos do Alto José do Pinho, até então um dos bairros mais violentos da capital pernambucana, resolveu juntar-se para ouvir discos de bandas punks da época, como Inocentes e Cólera. Sem maiores perspectivas de trabalho e com o caminho da criminalidade sempre atraindo um amigo ou outro, alguns deles resolveram depositar suas esperanças na música. Nasciam então nomes como Devotos do Ódio, A Ostenta (pop, ainda na ativa), Terceiro Mundo (punk, também na ativa) e B.U. (projeto paralelo de Cannibal, focado no pop dos anos 80). Estamos falando de bandas que expressavam, tanto no som como nas letras, toda a raiva e angústia de viver em um local que era mal visto pelos próprios moradores. “Eu era discriminado no próprio Alto por causa do som que fazia e das roupas que usava”, conta Cannibal. Mesmo com o preconceito, o movimento foi crescendo, bandas ficaram conhecidas e foi aí que se deu todo o imbróglio semântico. “Quando Chico Science estourou, todo som que vinha de Pernambuco passou a ser tachado pela mídia de ‘Manguebit’. E quase nada daqui era”. O equívoco foi de tal ordem que o primeiro show do Devotos (ainda trazendo “do Ódio” no nome) em São Paulo foi um tragédia anunciada. A trupe foi convidada para tocar no Aeroanta (antiga casa de shows daquela capital) na primeira edição do festival Rec-Beat, junto com bandas que rezavam pela cartilha estética do mangue. Resultado: muito punk deixou de ir porque achava que o festival só teria banda com tambor. Tal rótulo teria atrapalhado as bandas do Alto a romperem a fronteira local? “Não chegou a atrapalhar, mas era chato. Enchia o saco ouvir neguinho dizendo o tempo todo que toda banda de Pernambuco tinha tambor”, confessa Cannibal. Fora isso, não incorporar o rótulo ‘Mangue’ acabava trazendo prejuízos. Revista de música de circulação nacional, numa mesma edição, fazia matéria de duas páginas sobre o Manguebit. E o Devotos, que era mais conhecido nessa época, só ganhava notinhas. Quem também sofreu um pouco com o equívoco semântico-ideológico foi o Faces do Subúrbio. “Aqui no Recife, sempre foi tranqüilo, não tinha como dizerem que fazíamos outra coisa que não fosse rap com embolada. Mas quando a gente ia tocar em São Paulo era um inferno”, lamenta o rapper Tiger, que cansou de explicar para jornalista paulistano que seu som não era manguebit. “Passaram a achar que toda banda de Recife seguia a linha de Chico
Science”, diz Tiger.
Foi aí que veio o “marketing involuntário” do Alto José do Pinho. Se Recife era a terra do manguebit, o AJP ficaria conhecido como uma cena à parte. Faces do Subúrbio e Matalanamão começaram a despontar, e os olhos da mídia se voltaram para o morro, outrora só procurado pelos cadernos policias dos jornais. Nessa mudança de perspectiva, o Faces do Subúrbio foi fundamental para a consolidação de um novo olhar lançado sobre aquela região. Grupo de rap surgido em 1992, o Faces trilhou um caminho diferente, despejando embolada no hip hop. A mistura rendeu um convite para girar o mundo e uma indicação ao Grammy Latino com o segundo álbum, “Como é triste de olhar”. A originalidade da batida e o peso das canções – uma banda completa toca com os rappers Tiger e Zé Brown – servem de base para letras que falam das dificuldades de quem se acostumou a ser cotidianamente discriminado, seja em seu bairro ou em sua cidade. Em 2005, por conta do Ano do Brasil na França, o Faces acabou indo tocar em Paris. “Foi bem legal tocar para um público que não conhecia a gente”, conta Tiger. A banda tocou dois dias em uma casa com capacidade para 600 pessoas. “Lotou nos dois dias, o público gostou da nossa proposta de misturar embolada com rap. Foi ótimo.” Ironia das ironias, a primeira banda do Alto José do Pinho que conseguiu tocar no exterior hoje tem dificuldades em fazer shows em sua cidade. “Atualmente, estamos parados, sem fazer shows. Adotamos essa postura porque tinha produtor ganhando em cima da gente”, conta o guitarrista Oni. A banda está trabalhando na divulgação de “Perito em rima”, disco independente lançado no ano passado. “Já temos algumas composições novas, em breve deveremos entrar em estúdio. Mas ainda estamos concentrando forças para divulgar o ‘Perito em rima’ em outras capitais”, informa o guitarrista.

ESNOBANDO A TV
A relação das bandas do Alto José do Pinho com a mídia beira a esquizofrenia. Um exemplo recente de como os músicos de lá exigem ser tratados com respeito aconteceu em um caso envolvendo Cannibal e a Rede Globo. “Somos uns neguinhos muito bestas mesmo”, diverte-se o músico. O motivo dos risos foi o que ele chama de um equívoco da produção do programa “Central da Periferia”. “Só com a gente mesmo. Quem não quer aparecer na Globo?”, pergunta Cannnibal, contando em seguida como foi o caso: “Duas semanas antes da estréia do ‘Central da Periferia’, que seria rodado em parte no Alto José do Pinho, a produção ligou para convidar o Devotos para participar do programa. Era uma coisa meio bizarra, queriam colocar a gente no meio de umas bandas de brega. Mas consegui me desvencilhar disso e topei participar.” Uma semana antes de o programa ir ao ar, novo telefonema para Cannibal. “Era a produção dizendo que não ia dar para a gente aparecer no programa. O tempo estava estourado e eles disseram que infelizmente a gente ia ficar de fora”. Cannibal ligou para Cello (bateria) e Neílton e avisou que eles não iriam mais participar. Na semana em que o “Central” estrearia,
a produção ligou, segundo Canibal, pedindo desculpas.
“Aí eu disse que não queria mais. Nem consultei os meninos da banda. E disse que não explicaria o motivo pelo telefone. Eles que viessem em casa para saber o que houve”, orgulha-se Cannibal, que acabou, sim, recebendo uma visita do pessoal daquele canal de TV. Última cena do episódio: “Expliquei para eles que tinham nos tratado como produto descartável, que nos trataram de maneira desrespeitosa e que por conta disso não apareceríamos no programa. Tudo bem, era a Rede Globo, uma tremenda vitrine, passa em vários países. Mas me senti desrespeitado. A gente perde muita coisa por ser assim.”
E ganha muita coisa justamente por ser assim também.

 


 

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