A MODA FORA
DA MODA


Texto: Tiago Velasco
Foto: Juliana Araújo





A palavra “moda” para muitos tem uma conotação pejorativa. Serve para falar que fulaninho não tem gosto próprio e segue tudo aquilo que é massificado pelos meios de comunicação. Conceitos à parte, há uma turma de estilistas jovens que foge da obviedade: desde a criação das suas peças, que incorporam elementos da cultura contemporânea, passando pelo ponto de venda, que pode ser um ateliê para receber compradores como se estivessem em sua própria casa ou o mundo colorido, mas virtual, da internet, por meio de sites, fotologs e suas variantes. Resultado: roupas cheias de estilo para públicos distintos. Tem roupa bacana para recém-nascido e trajes para as mulheres entre 20 e 30 anos que querem vestir-se como a própria avó – que fique bem claro: quando a senhorinha ainda estava no auge dos seus dezoito anos.

Percebendo que estilo não tem idade, Roberta Vasconcelos, Ana Carolina Pinheiro e Vinicius Panisset criaram a Mini Humanos, uma marca de roupas infantis do Rio de Janeiro. “Achava o mercado de roupas infantis muito lugar-comum: tons pastéis, bichinhos, ‘fofolete' demais... É muito traumático ver fotos de quando éramos pequenos com roupa de marinheirinho”, explica Roberta, que decidiu que sua coleção iria vestir o filho do João Gordo (cantor do grupo Ratos de Porão e apresentador da MTV). Resultado: camisetas, macacões e bodies estampados com dragões, referências à pop art e ao universo roqueiro, que inclui um David Bowie estilizado e capa de disco dos Rolling Stones.

Com a boa receptividade, a Mini Humanos alugou uma casa para receber lojistas e compradores em um clima mais informal. Depois, com a chegada de duas marcas de amigos que passaram a produzir no mesmo lugar, o ponto foi batizado de Nosso Ateliê. Segundo Roberta, as marcas são complementares, já que a Beijeosapo é feminina e a Urbanóide, masculina. Ou seja, a mulher do cliente Urbanóide, compra Beijeosapo e veste o filho de Mini Humanos. Nesse caso, o ateliê dividido serve para aumentar as vendas e diminuir os custos.

As estampas com temática da música pop também aparecem nas curitibanas KINK! e Rinoceronte Glam, ambas do escritório Bubblemen Studio de Criação Yeti, que além da moda também trabalha com design, arquitetura e publicidade. “As duas marcas têm forte influência da música. A KINK! nasceu com influência de bandas como Velvet Underground, The Stooges e Beatles; já a primeira coleção da RG tem mais influência do glam rock de 70, de bandas como The Who, Kinks, T-Rex, Marc Bolan, Gary Glitter, Roxy Music e Sweet”, revela o sócio Roberto Paulo Fiedler.

As estampas das camisetas da KINK! e da RG não são peças de marketing de bandas, como as antigas e essenciais camisetas de grupos de rock. Quando adolescentes, no colégio, a camiseta de banda servia também para identificar os jovens de gostos musicais diferentes. Esse fator agregador (ou desagregador, depende do ponto de vista) já ajudou o estudante carioca Gaian Veloso, 16, a conhecer pessoas “várias vezes”. Segundo Gaian, ele ficou amigo do baixista de sua banda (Pinhead), Henrique Romualdo, 17, por causa das camisetas que este segundo usava.

Se a música não está “estampada” nas peças de roupa, ela pode estar na “alma” das criações. As três marcas cariocas da publicitária Ana Bandarra e do músico Edu Vilamaior (baixista do Canastra e da Big Trep) – Lady Luck Jewelry, Voodoo Doll, Gato Caolho – só existem graças ao rockabilly. Ana se define como uma retro addicted (algo como uma viciada em coisas antigas) e se sente atraída por tudo dos anos 40 e 50. “Meu barato é fazer as coisas exatamente como eram na época. Quero fazer um biquíni com sutiã pontudo e parte debaixo enorme, mesmo que a peça seja vendida só para uma pessoa”, diz Ana, que encara a criação das roupas e acessórios como uma diversão.

A música é apenas uma das referências culturais do nosso cotidiano que serve como fonte inspiradora para a moda. A marca pernambucana Maria da Silva até cogita, um dia, fazer coleções com referência da música local, mas, por enquanto, elas estão colhendo os frutos da boa receptividade de público e crítica da coleção baseada no trabalho do artista plástico pernambucano Gilvan Samico.

Outro local em que as artes plásticas convivem muito bem com a moda é no Sim, Por Favor, um misto de loja, bazar, brechó, figurino, pesquisa e produção de moda que funciona em São Paulo desde julho. A idéia é incentivar e promover moda e arte, unindo um estilista a um artista plástico. Ou seja: a cada lançamento, as sócias Nora Trench, Maíra Gadelha e Débora de Sá convidam um artista para expor suas obras e presenteá-las com uma pintura (itinerante) no muro da entrada da loja.

Nosso Ateliê (Mini Humanos + Urbanóide + Beijeosapo) – Rio de Janeiro

Este ateliê, em uma casa de vila, é para toda a família. Toda (a) família estilosa. Ou você acha que qualquer pai vestiria seu pequerrucho de menos de um ano com um macacãozinho preto com as inscrições “Punk rock” e “Heavy metal”? Roberta Vasconcelos, da Mini Humanos, resume bem: “Eu vejo pelos meus clientes que as mães dos mini humanos podem vestir Beijeosapo e os pais vestir Urbanóide.” O Nosso Ateliê recebe clientes com hora marcada.

O que não sai do som: Pato Fu, Morcheeba, David Bowie, Moby, Rolling Stones, Adriana Partimpim, Elvis Presley, Placebo, U2 e Beatles.

Mini Humanos – Roberta Vasconcelos, Ana Carolina Pinheiro e Vinicius Panisset – www.minihumanos.com.br

 

Urbanóide – Fábio Guimarães e João Mendonça – urbanoidewear@gmail.com

Beijeosapo – Ivy Tinoco e Juliana Almeida – beijeosapo@gmail.com

 

Maria da Silva – Recife

A pernambucana Germana Valadares e a carioca Rita Azevedo resolveram montar um ateliê diferente para expor as roupas e acessórios (sandálias e bolsas) da coleção da marca delas, a Maria Rita, cujo ponto forte são os bordados, que estão em quase todas as peças – vestidos, saias estampadas, sandálias tingidas de fogo, sol e folha. É lá que elas recebem lojistas, clientes e interessados em conhecer suas criações. Mas não são apenas as roupas da atual coleção que atraem quem vai ao ateliê. Instalado no oitavo andar de um edifício, pode-se ver, da varanda, o encontro dos rios Capibaribe e Beberibe com o oceano Atlântico.

O que não sai do som: Todas as músicas dos consagrados Tom Jobim, Chico Buarque, João Gilberto e Elis Regina.

Ateliê Maria da Silva – Rua da Aurora 1035, 82, Boa Vista

Maria da Silva – Germana Valadares e Rita Azevedo – germanavaladares@gmail.com ou ritaazevedo@gmail.com

 

Bubblemen Studio de Criação Yeti (KINK! + Rinoceronte Glam) – Curitiba

É uma empresa que engloba moda, design, arquitetura e publicidade. “Trata-se de uma proposta de vanguarda, pois queríamos unir o que gostamos de fazer com a possibilidade de atender um público bem diverso”, explica o sócio Roberto Paulo Fiedler. Na Bubblemen, a moda fica por conta das marcas KINK! e Rinoceronte Glam, que têm camisetas com estampas que remetem à cultura pop e buttons. A KINK! tem uma cara mais pop/retrô; já a RG é inspirada nos bichos de plástico das lojas de 1,99. Na sede da empresa, os clientes podem conhecer as coleções.

O que não sai do som : Kraftwerk, New Order, Iggy Pop, Joy Division, Roberto Carlos, Cachorro Grande, Beatles, Paul Van Dyk, Ladytron e Underworld.

Bubblemen Studio de Criação Yeti – Rua Des. Isaías Bevilaqua, 999, Mercês

Bubblemen Studio de Criação Yeti – Luiz Paulo Jeller Piazzetta, Fabz e Roberto Paulo Fiedler – www.kink.com.br e www.rinoceronteglam.com.br

 

Lady Luck Jewelry + Voodoo Doll + Gato Caolho – Rio de Janeiro

As três marcas assumem uma estética dos anos 40 e 50 embaladas pelo baixo acústico e os topetes do rockabilly. As coleções, inspiradas nos teddy boys e pin ups , contam com ícones do estilo, como bijuterias confeccionadas com dados, baralhos e cerejas (Lady Luck Jewelry), roupas femininas de estilo pin up (Voodoo Doll) e camisas de boliche (Gato Caolho). A sócia das marcas Ana Bandarra revela sua paixão por antiguidades: “Coleciono objetos das décadas de 40 e 50, discos, roupas de banho, lingerie, revistas, móveis...” Mas as grifes não viveriam sem a modernidade: o principal canal de venda é a internet.

O que não sai do som: The Clash, Reverend Horton Heat, Straycats, Brian Setzer - Orquestra e trio, The Cramps, Squirrel Nut Zippers, Janis Martin, Wanda Jackson, Rosie Flores, Country Classics, Punk 77.

Lady Luck Jewelry + Voodoo Doll + Gato Caolho – Ana Bandarra e Edu Vilamaior - www.ladyluck.tk , www.gottarock.com/voodoodoll.htm e www.fotolog.net/rockin_wear

 

Sim, Por Favor (multimarcas) – São Paulo

“O Sim, Por Favor é um núcleo de moda atuante em diversos campos (loja, bazar e brechó; pesquisa e produção de moda; figurino).” Assim, o trio de sócias Nora Trench, Maíra Gadelha e Débora de Sá define o espaço delas, que incentiva e promove moda e arte, unindo sempre um estilista a um artista plástico. O público vai desde os vizinhos do bairro, incluindo o pessoal da MTV e da ESPN, até estudantes de moda à procura de um espaço para exibir suas criações. Elas também já andaram vendendo as primeiras peças da marca delas, a Por Que Não?, que atualmente está parada mas promete voltar à plena força no início do ano que vem.

O que não sai do som: Paris Combo, Tangologue (Ryota Komatsu), Hurtmold, M. Takara, Brigitte Bardot, lounges em geral, White Stripes, David Bowie, Björk e Axial.

Sim, por favor Rua Bruxelas, 200, Sumaré

Sim, por favor – Nora Trench, Maíra Gadelha e Débora de Sá - simporfavor@gmail.com

 


Rio de Janeiro - RJ - (21) 3435.5091 e 3435.5092
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