OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Dia de mulher

Todo dia é dia de índia. Assim como todo dia é dia de mãe, de filha, de sogra e até da cunhada mal-amada. Imagine só! Todo dia é dia também de lembrar a avó, Maria, a minha sertaneja arredia que, nalgum dia, houve por bem dizer de mim ser bom filho, bom irmão, bom pai, bom esposo, com algum exagero, claro, talvez, quem sabe, por ser dela o neto predileto. Ah!... E quanto orgulho sente esta embevecida alma xapuriense, lavada e enxaguada nos tonéis da emoção...

Pois bem. Dia desses, em Xapuri, conversava com um seleto grupo de umas cinco ou seis moças, mais ou menos contemporâneas minhas, e elas me falaram de poucas e boas. Vieram à baila assuntos picantes, sim. Aquele, como todos os dias, era também mais um dia de mulher. Somos ainda bem jovens e cheios de vida e de graça, da graça que Deus nos deu. E eu, ali parado, introspectivo, um tanto ensimesmado, apesar da cerveja, muito mais ouvi que falei. E já não disse o Confúcio que se há dois ouvidos e uma boca é para que ouçamos bem mais que falemos? E assim foi... Elas tagarelaram mais que araras no barreiro em plumas multicoloridas. Bom de participar. Melhor de apenas ouvir. Afinal, em meio a damas de tão fino trato, nenhum cavalheiro que se preze há de se comportar como um fanfarrão despudorado.

Então, dentre mil e tantas conclusões próprias de uma tarde ébria, fizeram elas algumas observações sobre os inimagináveis patamares alcançados pelas mulheres ocidentais a partir da década de 1980... É claro que, segundo prego por este mundão afora, as mais belas em meio ao belo sexo devem, sim, andar de nariz empinado e sequer olhar para o imbecil e inepto que não tem inteligência suficiente para fazer a abordagem de forma a expor alma simpática e formação esmerada. Sede mais cuidadosos, homens de Deus! As divas do nosso tempo já se mostram bem mais inteligentes que muitos poetas de bordel que habitam entre nós. (E pensar que um dia a bondosa Emília Sampaio grudou em minha testa angelical um cartaz imaginário onde se lia: conquistador barato! Pode?)

As feministas lutaram, sim, e muito, às vezes em companhia e com o apoio de homens que, como eu, buscam fazer com que elas não se sintam superiores nem inferiores, mas, tão somente, diferentes daqueles que compõe o gênero oposto.

Nas duas ou três últimas décadas, a humanidade rejubilada viu que as mulheres são, realmente, mais organizadas. A visão mais abrangente do todo as faz mais capazes de estabelecer distinções entre dados e fatos. A atenção, o poder de concentração e o esmero são marcas preponderantes. A senadora que é ministra, quando sob o brilho das luzes da mídia, tinge-se de uma luminosidade indescritível que encanta a todos e se faz sempre muito pertinente no que é, no que diz e vice-versa. A presidente loura da corte suprema é outra que muito bem se sobressai acima da média de homens e mulheres eficientemente inteligentes.

Na escola pública, as novas gerações de moças que cursam o ensino médio evoluíram tanto que, hoje, oitenta por cento delas - pelo menos nas terceiras séries do ensino médio onde tento ensinar o bom uso do Português - têm notas e participação melhores que as dos homens. Certamente, o João, o Alfredo, o Lucas, o Emerenciano e o Pedro Paulo, dentre tantos, em futuro já bem próximo, hão de esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque posto que não se esforçam na busca dos melhores dias que todos querem, menos eles, os meus alunos crassos... Ah, coitados!

Mas é preciso que as mulheres modernas não vistam a alma feminina com esta fleuma e esta arrogância que têm maculado a feminilidade de algumas. A sabedoria poderia vir de um diálogo bilateral onde as razões de ambas as partes fossem levadas em consideração. Talvez os homens tenham levado a Humanidade perdida por caminhos tão tortuosos porque não tinham a sensibilidade das mulheres. Que elas sejam, então, mais amáveis e mais amadas, principalmente, pelos cavalheiros que, como eu, ainda lhes rende homenagens, ainda lhes afasta a cadeira para que a musa sente primeiro no restaurante ou no boteco. Que elas sintam que por trás de cada bom pajem há sempre a esperança de um parceiro sensível que lhes abrirá a porta do carro num gesto que significa muito mais cortesia e singeleza que subserviência... Tudo isso, sem ter que observar, ao pé da letra, o que disse o Vinícius de Moraes no Samba da bênção.

Senão é como amar uma mulher só linda; e daí? Uma mulher tem
que ter qualquer coisa além da beleza. Qualquer coisa de triste,
qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade.
Um molejo de amor machucado. Uma beleza que vem da tristeza de
se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão.
Com muito mais amor e muito mais carinho desse sempre, sempre teu amigo e amante, poeta pulsante e carinhoso, esteta denso e terno, cortejador e feliz.

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 1 de abril de 2007
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