OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Ayahuasca (V)

Existe alguma ligação profunda do Acre com o Maranhão. Uma ligação que ainda não foi compreendida. Do mesmo modo que não foram ainda entendidas as ligações que o Acre possui com tantos outros lugares insuspeitos. De outra maneira como explicar as muitas facetas que o Acre nos revela, mesmo quando estamos longe, seja em São Luis, seja no Rio de Janeiro, ou Cádiz, na Espanha, ou Beirute, no Líbano, ou Uruburetama. Mistérios que só podem ser explicados à luz da floresta. O texto de ficção abaixo foi o resultado de uma viagem surpreendente a terra do Mestre Irineu, de Daniel Mattos, dos irmãos Costa e de muitos outros que fizeram do Acre o que ele é hoje.

Nas fontes do Maranhão

“Jesus, ô meu Jesus
Poderoso e bom mestre
Daí-nos paz, amor e luz.
Tenha pena das crianças
Que estão dormindo no chão
E por todos nossos erros
Suplicamos teu perdão.”*

Ilha de São Luís, 06 de janeiro de 1901

Todos os dias o menino negro, já quase homem, faz as mesmas coisas. Ao amanhecer caminha pela Rua do Sol com a barriga roncando. Passa na Fonte do Ribeirão e engana a fome da noite com um gole de água não muito limpa. Assim, ele se mistura à multidão incolor que sobe e desce incessantemente as escadas da misteriosa Fonte com suas mascaras aterradoras e sua porta para o subterrâneo. É ali em embaixo, no intrincado labirinto de galerias subterrâneas ocultas abaixo das ruas estreitas de São Luís, que o povo diz morar a Cobra Grande adormecida que um dia ao despertar fará desaparecer toda a cidade num imenso cataclismo.

Independente das lendas, o certo é que a Fonte do Ribeirão é um dos lugares mais movimentados da cidade. Há alguns anos atrás, só se viam negros por aqui. A fonte justificava aglomerações de escravos que eram proibidas e duramente reprimidas pela polícia em quaisquer outras partes da cidade. Mas isso foi no tempo da escravidão. Hoje o que se vê, não são só negros se sujeitando aos trabalhos braçais e sujos da cidade. Agora muitos brancos, especialmente os cearenses fugidos das grandes secas do sertão, compartilham da mesma miséria que cabe por direito aos milhares de negros libertos a pouco mais de dez anos.

Isso significa mais dificuldades para todos. Mesmo jovem e forte, o menino não tem muito o que fazer, porque o trabalho é pouco. Ou melhor, trabalho tem muito, mas não há dinheiro que pague. É tanta gente desprotegida, com fome, sem paradeiro que o muito se torna pouco. É por isso que ele começa seu dia pela Fonte. Ali sempre se sabe da chegada de um novo vapor no porto, do início de uma nova obra do governo, de um carregamento vindo do interior, que demandem braços fortes e ágeis.

Quando o menino consegue trabalho sabe pelo menos que vai poder comer por dois dias seguidos. Mas isso é difícil. Normalmente os chefes dos estivadores não dão trabalho pros muitos jovens que perambulam pelo porto. Eles preferem empregar os homens mais velhos que certamente alimentam outras bocas. Mesmo precisando do trabalho, o menino entende os chefes e não se revolta. Pelo contrário, segue seu caminho oferecendo serviços aqui e acolá. As vezes dá sorte, as vezes não. Mesmo assim não pede nada na rua. Tem vergonha.

Nessas horas, ele sente saudade de casa. Lá na baixada, onde nasceu, ninguém passa fome como aqui na cidade. Sempre se tem uma farinha, uma fruta, um peixe da lagoa ali defronte. Mas nem reclama. Até porque aquele menino esguio e calado parece ter sorte. Muita gente o ajuda.

A negra gorda que mora no Beco da Catarina Mina deixa ele passar a noite entre os caixotes que guarda nos fundos do seu sobrado. Isso é bom porque a policia anda caçando os meninos que vivem nas ruas. Diz o povo que é pra embarcar nos navios da marinha, onde a preço de chibata e ração pouca, aprendem a ser homens. Mas na verdade, aprendem mesmo que a escravidão acabou mais no papel do que na realidade e que homens negros e pobres só podem viver se for no pesado e na peia.

Além disso, o menino conheceu também, em suas andanças pelas ruas de pedra apertadas entre os grandes casarões azulejados da ilha de São Luís, um negro de muito conhecimento. É esse nego de nome Apholinário que explica as coisas da cidade pro menino que a cada dia mais se espanta da grandeza e do mistério desse mundo. Apholinário é esperto como poucos e aprendeu de tudo um pouco na vida. Apesar de que sua predileção mesmo é só beber cachaça de mandioca e contar histórias. Seu prazer é ver, ouvir e contar sobre as vidas e os acontecidos desse povo tão animado, que vive dançando e cantando nas esquinas da cidade tão faminta.

Apholinário só sossega mesmo nos dias em que tem trabalho na Casa das Minas, onde bate tambor. Nessas ocasiões não bebe e passa o dia sério, parecendo concentrado.

E foi exatamente num desses dias, no dia de Reis, que a hora do almoço encontrou Apholinário e o menino empenhados em aplacar a fome no tabuleiro das vendedoras de arroz-de-cuxá, mingau de milho, folhé, manuê, cuzcuz e caruru da Rua das Crioulas. Entre uma mordida e outra os dois ainda encontravam tempo pra conversar.

- É verdade seu menino, essa cidade é mesmo muito antiga, sabe ? Ela tem mais de trezentos anos e é cheia de manias. É por isso que te digo que esse não é lugar pra você. Cê é jovem, precisa sair no mundo e procurar lugares jovens como você.

- Mas foi por isso mesmo que vim pra cá. O meu padrinho me disse a mesma coisa: “Meu filho vá conhecer a vida, aqui as coisas são difíceis, quando enricar volte pra casa.” E aqui estou eu, há mais de seis meses passando necessidade como só.

- É o que estou dizendo. Aqui tem gente demais. Não adianta sua força, sua juventude, sua inteligência. Você não vai conseguir nada de bom por aqui. Tu sabe, tu vê o que acontece nas ruas, o tanto de miséria, de sujeira, de morte que existe nessas esquinas tão enganadoras quanto antigas. Tu precisa de um lugar novo, sadio, onde o seu valor possa lhe valer. Eu ouvi falar que lá nos fundos da Amazônia tem lugar que ainda não tem ninguém, só bugre. É só chegar e pegar quanta terra quiser ou puder. Uma terra rica, cheia de árvores que dão uma borracha que vale como ouro. É um lugar que tem um nome estranho, Acre, e o que não falta é vapor indo pra Belém, no rumo de lá.

Nesse momento os olhos do menino brilharam. Isso podia mesmo ser a solução dos seus problemas. Seu instinto lhe dizia que lá ele bem que poderia ser feliz, e decidiu, ia pro Acre.

Apholinário percebeu o menino pensativo, viu o brilho em seus olhos e sentiu que em pouco tempo não mais desfrutaria da companhia daquele bom menino. Mas, do alto de sua sobriedade vivida, não demonstrou a tristeza que sentia e apenas completou seus pensamentos.

- É isso mesmo seu menino, quem sabe se esse Acre não pode ser o presente que os Santos Reis que regem o dia de hoje, tem para você ?

Obs: Essa história não é de ninguém, mas bem que poderia ser a história de qualquer um dos muitos negros que saíram do Maranhão para misturar seus destinos à história do Acre. Como bem sabem os seguidores das doutrinas do Daime.

*(Trecho da musica “Poderoso e Bom Mestre”, cantador Humberto, Luz de São João, Bumba-meu-boi de Maracanã)


 
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Rio Branco-AC, 01 de maio de 2008
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