OPINIÃO
   VARAL DE IDÉIAS

Marcos Afonso

 

Nossas
mentes brilhantes...



O que você vê nesta foto?

Crianças e adolescentes comuns que saíram da escola para estudar e depois voltarão para suas casas, assistirão TV e navegarão na internet?
Acertou em parte.

Se você pudesse adiantar o tempo, veria na foto dois químicos de alta complexidade, um físico quântico com especialização na engenharia de aviação e naval, um expert em mitologia grega, romana e nórdica, uma estudiosa da dramaturgia clássica e erudita, um poeta muito famoso, pintores e desenhistas revolucionários, um radialista singular, historiadores renomados, além de gramáticos e preciosos tradutores de Shakespeare do inglês para o português.

Sim. Eles existem.

Moram em Rio Branco e estudam nas escolas públicas do Acre.
Eles fazem parte no Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/S, ligado à Secretaria de Educação do Estado.

Há dois meses, eu chegava na Biblioteca da Floresta Marina Silva, quando o Edegard de Deus, seu coordenador, me disse eufórico: “Toma, Marcos, você vai adorar isso!” E me entregou umas folhas de papel. Tratava-se de um pedido do Núcleo de Altas Habilidades para expor as pinturas e desenhos dos seus alunos na Biblioteca. Entusiasmei-me e comecei a articular um encontro inicial, sem imaginar muito a experiência maravilhosa que iria viver.
Numa tarde quente de maio, dirigi-me à sede do NAAH/S, um modesto prédio de esquina, próximo à igreja Santa Inês.

Fui recebido com muita gentileza pela equipe de 15 professores, orientadores e psicóloga, responsáveis pela educação de qualidade que oferecem.

Mas me enchi de alegria quando conheci os alunos com altas habilidades, os “superdotados”.

A sala não era nada extraordinária: uma grande mesa, computador, quadros e papéis nas paredes.

Inicialmente, os alunos ficaram meio tímidos.

E eu, meio desesperado, fui garimpando a minha experiência de professor para ter um diálogo franco e aberto com eles.

Quando consegui a confiança, quando eles perceberam que ali não estava um qualquer que só deseja “admirar” com pieguice suas inteligências, eles se soltaram.

A sensação de conversar com eles é especial. Você está olhando para crianças (alguns adolescentes), mas ouvindo vozes cultas, teses profundas e bem elaboradas, uma conversa de adultos acadêmicos.
E são muitos sérios.

Estudam duro (e de forma prazerosa) as suas “especialidades”, como eles gostam de dizer.

Mas também riem, se divertem, amam as novidades, são extrovertidos (por vezes até demais, quase não deixando você falar). Afinal, são crianças. A diferença é que são crianças muito, muito, inteligentes.

Nunca imaginei que discutiria filosofia clássica grega com o Júnior, de 10 anos, super vivaz, e que sabe quase tudo de Mitologia, e que está querendo agora se aprofundar nas civilizações Inca, Maia e Asteca.

E também não percebi que por detrás do sorriso singelo da Luara, 12 anos, se escondia uma química de alta complexidade: outra vez que fui ao Núcleo vi, num canto da sala, uma lousa completamente cheia de cálculos indecifráveis, enormes e, à frente dela, estavam Luara e Michele. Elas se “divertiam” com Química de eletricidade, coisa que se aprofunda na Universidade. Aliás, a Michele, 12 anos, também gosta de biografias. Ela acabou de ler sobre Santos Dumont e está mergulhando na vida de Plácido de Castro, e é apaixonada pelo desenho do Pica-pau na TV, que agora “está mais correto, não destrói tanto as árvores”.

Depois, conheci o Bruno Pacífico, que tem cara de cientista mesmo. Ele simplesmente quer ser físico e saber tudo sobre aviões e navios. Seu sonho é ter seu próprio avião (talvez construa um). Enquanto não pode, já é membro da Associação Acreana de Aeromodelismo, e “voa” todas as tardes de sábado.

A Alice,é sensibilidade pura: seu mundo é a dramaturgia. Enquanto o poeta Oziel vai se preparando para um Concurso Nacional de Poesia, a ser realizado em Brasília.

Falando nisso, o Núcleo de Altas Habilidades já tem um super star: o Orleans Mota, que participou do “Soletrando” um programa de TV em rede nacional, representando o Acre (e olha que ele se “especializa” em Química e História!).

O Marco, a Talita e o Geovani são os principais artistas plásticos. Seus trabalhos são impecáveis. Estudam com o pintor Rivas Plata, freqüentam a Usina de Artes João Donato e o Marco até já fez sua primeira exposição profissional na escola de inglês Wizard, que tem convênio com o NAAH/S.

Nesta última sexta-feira (30 de maio), no auditório da Biblioteca da Floresta, ministrei uma Oficina sobre o tempo e o espaço para eles. Todos os professores e algumas mães participaram.

Foram oito horas de palestra em dois turnos, (com uma fala do Francisco Carlos, coordenador do Clube de Astronomia Gama Hidra do Acre).

Como professor, posso dizer que foram as oito horas mais interessantes que tive nos últimos meses. E me rebolei para dar conta. Sabia que as mensagens deveriam ser bem dadas, sob o risco de algum deles me corrigir (o que eu adoraria!).
Eles foram elegantes...

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Rio Branco-AC, 01 de junho de 2008
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