| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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A liberdade de estar por conta própria Não há prazer maior do que estar por sua conta e risco! Sem instituições para proteger e se abrigar, sem ter de penhorar a liberdade de consciência, de pensamento, sem ter de desempenhar papeis que ocupem os espaços de pensamento, ou seja, podendo compreender e expressar aquilo que a vista e o intelecto vêem e deduzem (algumas pessoas acreditam que só por que não são vistas fazendo falcatruas não seja possível deduzir que elas façam). A filosofia é e sempre foi a ciência de deduzir o que não se vê ainda (o futuro, por exemplo) ou o que não pode ser visto por um vício de olhar que transforma algo no seu oposto. No “Além do bem e do mal” Nietzsche fala de coisas da Alemanha que ele nunca chagaria a ver, mas que são de uma exatidão assustadora. O holocausto é deduzido, quando ele diz que os agitadores anti-semitas deveriam ser expulsos da Alemanha e que os judeus deveriam ser acolhidos com critério, pois talvez assim fosse possível enxertar um pouco de espiritualidade (que os judeus sempre tiveram de sobra) na nova elite germânica cuja maior qualidade era mandar e obedecer. A figura de Hitler é da mesma forma deduzida por Nietzsche. Ele põe na boca de um patriota a questão de um líder que aguilhoasse a vontade de um povo tornando todo o seu retraimento e vontade de ficar à parte como pecado e pergunta: isso seria grande? “Forte, forte e louco, mas não grande” responde o outro patriota. Apenas essas duas passagens mostram o que fazia, para Nietzsche, a atmosfera da Alemanha prussiana, irrespirável para ele. Mas nós não estamos na Alemanha do antes da guerra e ela é hoje muito mais exemplo a ser seguido na ecologia, nas artes plásticas, no cinema, na qualidade de vida, no significado que tem ser cidadão e gozar das condições de desenvolver suas possibilidades... Mas e no Brasil? Temos um pouco mais do mesmo. É o preço que pagamos por nunca termos tido uma real ruptura. Então ela seria desejável, perguntam alguns. Mas do que estaríamos falando? A quebra das instituições significaria muito mais miséria para os que hoje são miseráveis, os privilegiados ou resistiriam numa carnificina sem precedentes ou simplesmente deixariam o país com o seu dinheiro e privilégios intocados. Mas o que nos tornaríamos então? Nos tornaríamos uma Serra Leoa ou uma Libéria gigantesca, com embrutecimento, retrocesso na cultura na economia, ou seja, trocaríamos de elite e nos tornaríamos um imenso campo de vendetas e mais vendetas por algumas décadas. Ou seja, apenas uma confiança religiosa de que o fogo e a miséria redimem pode estar por trás de um tal desejo insano. Somos ocidente, mas também África, mas também índios e suas infinitas misturas. O que se espera de nós? Que nós possamos ser algo ainda não tentado. A grandeza perdida da África assumindo uma liderança cultural (nem militar, nem imperialista) diante de todo o (não) ser do ocidente. Queremos ser uma África, mas com a consciência de que não existe mais grandeza na violência. Queremos afirmar e enaltecer a nossa formação cabocla, mas com muito mais educação formal e não apenas uma alfabetização apenas estatística. Para nós e nosso futuro temos de inventar o caminho a ser trilhado, pois para nós nenhum dos modelos antigos nos serve e até mesmo nos oprime. Quando vemos os morros cariocas sendo transformado em praça de guerra com disparos de armas de grosso calibre de ambos os lados, nos perguntamos. Isso não é um pouco mais do mesmo? Por que não subir o morro com professores bem pagos, com médicos desarmados, com assistentes sociais que ganhem a confiança e aumente a sensação de segurança e daí quebrando a impressão de que apenas os traficantes socorrem e dão um pouco de dignidade. O que sustenta a criminalidade não são as armas, mas a solidariedade de um povo que se sente ameaçado, desvalorizado, desqualificado por uma sociedade que prefere gastar com armamentos do que com escolas. Mas o que é a educação desde a colônia? Privilégio que distingue e não condição de possibilidade para o “ser mais”, como diz Paulo Freire. Quando dizem que os alunos da USP são privilegiados eu me pergunto: mas eles não são condição de possibilidade para o desenvolvimento intelectual e espiritual do Brasil? Se eles não são utilizados para tal não é por culpa ou decisão deles e sim por uma atitude bem planejada de aumentar os privilegiados que, enquanto privilegiados, defenderiam os mecanismos de exclusão, garantindo o seu prestígio. Essa atitude é uma chave para explicar muito do paradoxo que é um grande contingente de material humano (da FFLCH, por exemplo) preparado e a falta de espaço para compartilhar esse preparo. Aqui não se trata de falar de pessoas e sim de valores que inconscientemente são encarnados por pessoas que muitas vezes são as mesmas que sofrem com esse estado de coisas. |
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Mestre em Filosofia |
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