OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Memória da arqueologia acreana (VI)

As pesquisas realizadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira no Acre, entre os anos de 1977 e 1980, resultaram no registro de 70 novos sítios arqueológicos e abriram um enorme campo de estudos e trabalho. Um dos resultados mais imediatos dessas pesquisas foi o de despertar a atenção e o interesse de alunos e professores da Ufac acerca do conhecimento da pré-história da região. Começava assim a história da formação da primeira arqueóloga acreana.

Indianas Jones amazônicos

Depois de quatro anos de pesquisas de campo a equipe de arqueólogos do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) passou a se dedicar à exaustiva tarefa de analisar todo o material coletado nos sítios arqueológicos acreanos. O que, aliás, é um aspecto pouco considerado pelo grande publico quando o assunto é arqueologia. Normalmente se associa a imagem dos arqueólogos à clássica figura do pesquisador aventureiro que em meio a muitos perigos descobre tumbas de faraós e grandes civilizações perdidas no pó dos tempos. Surgiu dessa imagem grandes filmes de aventura como, por exemplo, a série Indiana Jones, que segundo se conta foi inspirada nas histórias de Percival Fawcet, um aventureiro inglês que percorreu diversas regiões do Brasil, inclusive o Acre e o norte da Bolívia, em busca de um fantástico mundo perdido, até encontrar a morte nas florestas do Xingu.

Na verdade essa imagem aventureira e romântica dos arqueólogos não corresponde às dificuldades características do pesado trabalho desenvolvido pela arqueologia em busca de informações científicas sobre a pré-história humana. Se, por um lado, o trabalho de prospecção e escavação de sítios arqueológicos envolve muitas horas de trabalho árduo debaixo de sol, removendo grandes quantidades de terra, sem descuidar do meticuloso controle e registro de todas as etapas da pesquisa. Por outro, no laboratório os arqueólogos precisam limpar e preparar adequadamente cada diferente tipo de vestígio arqueológico para só depois realizar analises minuciosas seguindo metodologias próprias a cada tipo de material (cerâmica, ósseo humano ou animal, restos vegetais, artefatos de pedras, etc.). E só depois de cumpridas todas essas etapas, que normalmente se estendem por anos de trabalho, os arqueólogos reúnem informações suficientes para começar a interpretar e compreender a ocupação pré-histórica de cada região estudada.

Portanto, se somarmos as dificuldades descritas acima com outras como conseguir verbas para o desenvolvimento de pesquisas científicas num país como o Brasil ou proteger os sítios arqueológicos da ação de vândalos, colecionadores e contrabandistas. Fica claro que não é exagero afirmar que o trabalho do arqueólogo se caracteriza por 99% de transpiração e 1% de inspiração. Por outro lado, é necessário admitir também que a arqueologia é um campo de trabalho extremamente fascinante e importante, especialmente numa região como o Acre onde a presença de diversos povos indígenas é muito relevante para a formação social e cultural da sociedade local.

O sítio Los Angeles

Três anos depois da realização das pesquisas do IAB o então professor do curso de história da UFAC Ruy Duarte levou seus alunos para visitar um dos sítios arqueológicos mais importantes dentre aqueles já identificados no Acre, o sítio Los Angeles. Este sítio faz parte de um grande conjunto de sítios com estruturas geométricas de terra localizado entre Rio Branco e Xapuri, ao longo da BR-317 e se caracteriza por um circulo de cerca de 250 metros de diâmetro muito semelhante aos outros sítios deste tipo que vem sendo descobertos desde 1977, mas com uma característica peculiar: possui uma enorme quantidade de material arqueológico diversificado, desde muita cerâmica de decorações e formas muito variadas, até lâminas de machado e seus subprodutos confeccionados a partir de blocos de piçarra. Ou seja, com essas características o sítio Los Angeles tem uma configuração perfeita para atrair a atenção de leigos e curiosos: um grande circulo de terra com trincheira e muretas muito visíveis e características e grande quantidade de material arqueológico superficial.

Durante os anos de 1983 e 84, portanto, segundo as informações que obtive, aconteceram pelo menos três excursões de alunos do curso de história da UFAC ao sítio Los Angeles. E em meio a festa dos alunos, felizes por estar livres da aridez das salas de aula, foi coletada grande quantidade de material arqueológico, uma parte do qual se encontra desde então sob guarda do Museu da Borracha. Entretanto, outra parte deste importante material acabou parando nas casas dos alunos como se fossem souvenirs de uma grande aventura. O que, em ultima instancia, nos serve como alerta para os perigos de uma atividade turística em sítios arqueológicos se realizada sem os devidos cuidados.

Por outro lado, duas outras conseqüências, dessa vez positivas também resultaram destas viagens ao sítio Los Angeles. A primeira é que entre os alunos que participaram destes “trabalhos acadêmicos” estava a estudante de história Mauricélia Souza (que era mais conhecida como Celinha), que ficou completamente fascinada com a possibilidade de trabalhar com arqueologia. E a segunda boa conseqüência destes acontecimentos foi o convite para que o Dr. Oldemar Blasi, do Museu Paraense, viesse ao Acre para efetivar uma missão de pesquisa do Los Angeles que também serviria para capacitar alguns professores e alunos da UFAC.

Novas escavações e vocações

Em 1984, o Prof. Oldemar Blasi veio para o Acre e coordenou um trabalho de formação de professores e alunos que utilizou o sítio Los Angeles quase como um sítio-escola. Neste trabalho foram realizadas algumas sondagens na área do Los Angeles em que se confirmou a extraordinária importância deste sítio para o contexto pré-histórico acreano. E nesta atividade, entre outros estudantes, lá estava novamente Mauricélia Souza, que além de aluna do curso de história, era também funcionária do Museu da Borracha.

Infelizmente os resultados deste trabalho não foram publicados e não sabemos ao certo a extensão das informações coletadas pelo competente Prof. Oldemar Blasi, apesar de muitas das características deste trabalho ainda estarem muito vivas e presentes na memória de diversas pessoas que dele participaram. Mas uma coisa é certa, este trabalho foi essencial para despertar em Mauricélia uma vocação irresistível para a arqueologia, apesar dela também se revelar como uma excepcional pesquisadora na área da história. Definitivamente não tinha mais jeito, a “Celinha” foi fisgada pela arqueologia e não mais podia trilhar outro caminho o que modificou completamente seu destino e também o meu, como veremos nos artigos a seguir.

Um ano mais tarde, em 1985, a equipe do IAB ainda retornou ao Acre. Desta vez para aprofundar a pesquisa de outro sítio arqueológico extremamente importante, o sítio Prosperidade, localizado no vale do Juruá, que havia revelado um pacote arqueológico muito extenso e profundo com grande quantidade de material cerâmico muito diversificado. E apenas três anos depois, em 1988, Mauricélia Souza iria para o Rio de Janeiro estagiar no IAB e se capacitar como arqueóloga. Exatamente no ano em que o Prof. Ondemar Dias e a Profª Eliana Carvalho, coordenadores do trabalho de análise e interpretação do material arqueológico coletado no Acre, publicaram o primeiro trabalho sobre os sítios com estruturas geométricas de terra, mas isso já é assunto para o próximo artigo.


Mauricélia Souza (à direita) e Malu Uchoa no sítio Alto Alegre (RB)
servindo como referencia para suas impressionantes estruturas de terra

 

 
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Rio Branco-AC, 1 de julho de 2007
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