| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
||
A BR-364, outra vez. A estrada está naqueles dias de bloqueio. Carro não vai, carro não vem. Ônibus pára, passageiro desce, anda, sobe e segue, do lado de lá do problema. Motorista de caminhão com carga de frangos antes congelados reza por uma nevasca na Amazônia, para não perder tudo; produtos com data e hora apenas esperam o tempo passar; valores, bens, interesses, cidadãos e vergonhas, seguem esperando. Aliás, nem seguem. Moradores de Extrema, Nova Califórnia, Vista Alegre do Abunã, Fortaleza do Abunã e das adjacências destas vilas reclamam, reivindicam, querem ser gente, querem ser vistos, querem demonstração de alguma dignidade. Mas a região, há muito tempo, parece terra de ninguém. Melhor, parece terra de gente para ser esquecida, largada. E além das pessoas lá, muitas outras que precisam e até dependem da estrada, vivem sendo maltratadas, desrespeitadas, vistas com olhos de depois de amanhã. O tema é do momento, mas o problema é antigo. Já escrevi neste espaço sobre a estrada e sobre aquela região. No e-mail do jornal e no meu, chegaram várias mensagens de leitores que se identificaram com o pedido de providências. Dentre eles, gente de muito longe que já utilizou a estrada e não gostou; gente de perto que ali queria investir e desistiu; gente daqui mesmo, que utiliza a estrada para transporte disso e daquilo, de pessoas e de bens, de carros a uvas, de combustíveis a remédios. As pessoas das vilas não escreveram, mas lá mesmo me falaram dos vários problemas, das diversas necessidades, do total abandono. Rondônia parece que não os quer, nem por adoção. E nós? Agora, outra vez, o amor pelo Acre vai ser um bom discurso. E como tudo continua na mesma, reproduzo alguns trechos do texto anterior. “Anos atrás, por inércia e profundo sono, o Acre perdeu as cidades de Extrema e Nova Califórnia para Rondônia, quedando quase mudo no processo que tramitou no STF. Ali, naquele pedaço amazônico, o Acre já havia feito vários investimentos e o dinheiro público restou também perdido, desnorteado. O Acre, na ocasião, sequer se dignou a apresentar uma defesa ampla e com bons argumentos em causa tão significativa. O povo daquela região visivelmente nos preferia, mas foi olvidado. Ainda que fosse para não perder de tudo, nem mesmo houve proposta para dividir os interesses (Extrema para Rondônia, Califórnia para o Acre, por exemplo). E pressão efetiva inexistiu, técnica, política ou lógica. Vasto dinheiro dos impostos e do FPE (que também é do povo e para o povo, em tese) ficou no meio das filigranas, perdido no vasto manancial madeireiro daquela região e hoje trafega em várias depressões existentes na estrada, exatamente por ali. Agora, o limite entre Acre e Rondônia está no meio do nada, sem qualquer rio, igarapé, morro, montanha ou acidente geográfico que o indique (em regra, os limites são assim verificados). Contudo, há uma grande placa de boas-vindas. E logo depois, vários buracos, depressões e perigos. Um trecho que é vergonhoso, como vergonhosas foram nossas perdas naquela região. E para que não continuem as perdas e as vergonhas, aqui vai nossa mensagem de cidadão e usuário eventual da estrada, mensagem que tem também o som da voz de outros tantos usuários: autoridades, acordem! No caso das cidades de Extrema e Nova Califórnia, já demos com nossos burros nas águas do Abunã e a madeira (e também o Madeira) ficaram para lá. O amor à causa do Acre...? Não se viu. Sequer houve o mínimo argumento de, ao menos, dividir os limites, sem perder as estribeiras. Perdeu-se tudo, sem que qualquer marco natural demonstrasse a certeza da demarcação imaginária, na linha ilusória em que o Acre foi inserido. Em regra, os limites são vistos em acidentes geográficos (em rios, por exemplo). E Rondônia, então com grande interesse na causa, após ganhar sem grande esforço, as terras, as cidades e as riquezas, esqueceu-se das antigas vilas e da BR-364, sem praticar investimentos nas cidades ou na rodovia, nas pessoas ou nas instituições, gerando bloqueios como o que vivenciamos no momento. Pergunta-se: E o Acre, vai continuar naquele sono profundo? A BR-364, no sentido Porto Velho-RO/Rio Branco-AC, de uns trinta quilômetros após a cidade de Mutum-Paraná e até o porto da balsa na Vila Abunã, é uma estrada inaceitável, incompreensível, desrespeitosa. Só ali, são quase quarenta quilômetros de buracos repetidos e constantes. Aquilo retrata o imenso e amazônico descaso das ‘autoridades’ que administram aquela “rodovia” e que deveriam trabalhar para assegurar a integração e o direito das pessoas, com segurança aos veículos, cargas, bens e serviços e proteção aos interesses, possibilitando trânsito livre e viável. Mais do que descaso, retrata pouca competência e mínima responsabilidade, ao longo de vários anos. Por que o Acre tem que aceitar aquilo? E os que usam a estrada; que pagam IPVA alto; que aqui compram combustível a preço unificado (incrível, mas os postos não têm preços diferentes, inibem a livre concorrência, proíbem a escolha, parecendo que tudo é combinado...) e elevado, talvez, até por causa do frete que tem que ser caro; que pagam na balsa; que são fiscalizados aqui e ali; que não têm voz; como é que ficam? Ou melhor, como é que seguem? Se há demonstração de desinteresse do Governo de Rondônia para com as cidades situadas na continuação do trajeto em referência, o governo acreano pode buscar junto ao Governo Federal a realização de obras que assegurem tráfego livre e seguro no trecho referido, em defesa dos interesses locais e gerais que, a rigor, são evidentes. Urge acordar a ‘autoridade’ do Ministério dos Transportes ou quem quer que seja por acolá ‘responsável’. Por ali passam vários ônibus e carros diariamente, com pessoas que viajam nas mais diversas necessidades, daqui para outros lugares ou de lá para cá. Os veículos vendidos no Acre por ali chegam (com frete e tudo mais caro). Vários bens de interesse público direto e imediato, produtos de necessidade da população, do governo e do estado. Logo, de evidente interesse coletivo e de supremacia. Pessoas que viajam a tratamento de saúde, a negócios ou a simples lazer, são obrigadas ao sacrifício de transitar naquele trecho já quase inviável, que há anos está entregue à irresponsabilidade e a mínimo sentimento de decência. Para não continuar perdendo e dando com nossos burros em águas distantes, nossa gente reclama e pede, enquanto sacoleja. Pra já, pelo menos isso. Seguir até Cruzeiro do Sul o ano inteiro, fica para depois. Afinal, a BR-364 é uma senhora com mais de cinqüenta anos e continua mal resolvida. Não se sabe ao certo, mas há suspeita de que ela esteja esperando tornar-se idosa para poder tomar jeito. Veículos altos, caminhonetes, ônibus e caminhões são obrigados a serpentear na pista esburacada e a usar primeira marcha com freqüência, para não quebrar os carros e poder seguir viagem, sob o signo da revolta e da impotência, num mexe-mexe que sacode a paciência. E os pequenos? Um caso nítido de improbidade, pelos mais diversos motivos, todos óbvios. Se o Governo Federal não enxerga, se o rondoniense não se interessa, vamos agir nós mesmos, no interesse dos acreanos que sofrem, há anos, com aquilo. Se aquelas ‘autoridades’ viajam de avião e pouco sabem sobre o preço das passagens de cá, nós sabemos que o preço do incômodo é caro. O retrato daquilo é vergonhoso. Vamos abrir os olhos e as vozes e falar em nome de quem usa a rodovia, de quem precisa dela e dela depende. É muita gente, por diversos motivos, diretos e indiretos. Por isso, espera-se que esta mensagem atinja os destinatários. Quem puder, por favor, a retransmita. O Acre vai quase estacionando com a questão. Rondônia não se interessa pelo lugar. Pessoas sofrem, lá e cá. Será que não daria para aproveitar o momento e agir? Por sono profundo, ao longo dessa rodovia, o Acre já perdeu Extrema e Nova Califórnia, perdeu as terras, as riquezas naturais e perdeu todos os investimentos ali feitos. Também por isso, a região parece terra de ninguém. Na ausência do poder público, o abandono é permissivo genérico! Não podemos continuar perdendo, precisamos resgatar nossos bons direitos. Aquilo, além dos sofrimentos de quem transita sobressaltado e castigado (sem entender os motivos), nos impõe altos custos de preços gerais, de fretes, de sacrifícios injustificados; impõe incontáveis demoras, repetidos incômodos e os perigos vários de possíveis acidentes. Por isso, essa mensagem tímida e sem-jeito, para pedir a quem possa interceder. Muitos nem se dão conta da extensão do prejuízo. Mas há uma imensidão amazônica de pessoas a reclamar daquela situação. E agora, do meio dessa gente vem a mensagem. Aproveitando o bonito discurso de acreanidade, de amor pelas coisas e pelo povo da nossa aldeia, que é tão atual, usamos esse mesmo amor à causa, pela via das teclas e da internet, de qualquer sinal de fumaça ou até pelos códigos da antiga Radional, para soltar essa mensagem. E ela segue pelos ares e olhos, ouvidos e entranhas, a quem interessar possa, a quem retransmitir queira, a quem realizar consiga”. E no mais, prestigiando o momento da programação de show dos Engenheiros do Hawai em Rio Branco (a banda não veio pela estrada e deve ter chegado bem), reproduzo trecho de uma música interpretada pelo grupo, cuja letra diz que a história se repete, mas é mal contada: “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada, nada, nada, não!”. |
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
|
|