| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
Experiências indígenas de pesquisa e registro de conhecimentos tradicionais |
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Na semana passada, estivemos em Macapá para mais uma reunião da Rede de Cooperação Alternativa (RCA-Brasil) cujo tema era “Experiências Indígenas de Pesquisa e Registro de Conhecimentos Tradicionais”. Além de nós duas, viajaram conosco os professores Aldaíso Vinnya Yawanawá, Francisco Teka Katukina, Isaías Ibã Kaxinawá e o agente agroflorestal Josias Mana Kaxinawá. O encontro aconteceu entre os dias 18 e 23 de junho, na imponente Fortaleza de São José de Macapá, e reuniu uma média de 60 participantes, entre professores e pesquisadores indígenas, assessores das organizações integrantes da Rede e representantes de instituições parceiras. A escolha do tema partiu da constatação do recente ‘boom’ de pesquisas que vêm sendo realizadas por indígenas no âmbito dos programas de formação desenvolvidos por essas organizações. Embora, como ficou claro durante o encontro, haja variações na forma como a noção e a prática da pesquisa vêm sendo abordadas nos diferentes programas, o principal ponto em comum é o fato da grande maioria delas estar voltada para o registro de saberes tradicionais. O motivo maior, segundo depoimento dos pesquisadores indígenas, é o fato de boa parte desses conhecimentos estarem se perdendo e daí a urgência em registrá-los. Conforme relatou nosso amigo Ibã Kaxinawá, sua pesquisa sobre os cantos xamãnicos do nixi pae (ayahuasca) surgiu quando ele percebeu que, durante as cerimônias, os cantos tradicionais estavam perdendo espaço para os cantos em português (hinos do Daime). A pesquisa de Ibã gerou frutos e cumpriu sua meta: fitas gravadas e cadernos de letras transcritas passaram a circular por todas as terras indígenas kaxinawá, provocando um movimento de revitalização impressionante. No ano passado, seu trabalho foi publicado em formato de livro, e deu origem também ao projeto “Registro Sonoro das Tradições Musicais Kaxinawá”, cujo primeiro CD será lançado em breve. Por outro lado, ainda, o registro de conhecimentos tradicionais por pesquisadores indígenas parece atender também à uma demanda política pelo reconhecimento e valorização desses conhecimentos também por parte da sociedade envolvente. Como disse o professor João Bosco Tuyuka (AM) durante o encontro: “Para que os brancos valorizem nossos conhecimentos, é preciso, primeiro, que nós os valorizemos.”. Trata-se de movimentos complementares que parecem se alimentar mutuamente; quanto mais fortalecidos culturalmente, maior o reconhecimento externo e vice-versa. Aqui no Acre, é notável o destaque que os Yawanawá passaram a ganhar na mídia depois que começaram a divulgar sua “cultura” para o público mais amplo e, por outro lado, como esse reconhecimento vem repercutindo internamente, reativando redes de transmissão de conhecimentos que andavam adormecidas. Como se sabe, durante séculos as sociedades indígenas em nosso país foram massacradas física e espiritualmente. Como o nome já denota, a sociedade ‘envolvente’ tende a envolver as demais, minoritárias, homogeneizando língua, saberes, práticas. Buscando frear e reverter esse processo, hoje há uma série de políticas e iniciativas voltadas para a valorização e salvaguarda de conhecimentos tradicionais. Nesse contexto, tivemos a oportunidade de presenciar em Macapá, no dia 19 de junho, o lançamento do “Dossiê Wajãpi”, publicação que reúne os estudos que embasaram o registro da Arte Gráfica Wajãpi Kusiwa, em 2002, junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A exemplo dos “nossos” Kaxinawá, e de outros povos indígenas que vivem no Acre, os Wajãpi (AP) são detentores de uma arte gráfica belíssima, repleta de significados. Este é o primeiro caso de registro de patrimônio cultural de um povo indígena junto ao IPHAN, marcando uma nova fase na política de preservação patrimonial brasileira e abrindo caminho para outras iniciativas. No ano passado, no Alto Rio Negro (AM), foi a vez da Cachoeira de Iauaretê. Berço mítico e lugar sagrado dos povos indígenas da região, ela também foi registrada como Patrimônio Imaterial do Brasil, inaugurando o Livro de Lugares do IPHAN. Aqui no estado, onde a representação do IPHAN é muito recente (2005), está em curso a tentativa de dar início a dois processos de registro no âmbito indígena: o da “vacina” do sapo kapun (kampo, kampun) utilizada principalmente (mas não somente) por povos de língua pano, e o do grafismo Kene dos Kaxinawá. Para além da importância do registro em si, importa ressaltar o processo positivo que um tal reconhecimento desencadeia internamente, promovendo uma maior valorização das referências culturais tradicionais e, consequentemente, um posicionamento mais fortalecido desses povos diante da sociedade ‘envolvente’. Esperamos que esse movimento cresça e contribua para a preservação das riquezas imateriais dos povos que vivem nesta terra. A Rede RCA-BRASIL e os intercâmbios A Rede de Cooperação Alternativa (RCA – Brasil) é formada por um conjunto de nove organizações não governamentais indígenas e indigenistas: Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX), Associação dos Povos Timbira do Maranhão e Tocantins – Wity-Catë, Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC), Comissão Pró-Yanomami (CCPY), Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), Instituo de Pesquisa e Formação em Educação Indígena – Iepé, Instituto Socioambiental (ISA) e Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC). A Rede foi criada em 1996 por sugestão da Rainforest Foundation (RFN) que, durante muitos anos, foi a principal parceira das organizações mencionadas acima. Sua atividade principal é a promoção de intercâmbios e a troca de experiências entre as organizações que a integram. Desde o início dos intercâmbios, “parentes” de diversas etnias já vieram ao Acre conhecer os trabalhos desenvolvidos pela CPI-AC e pela OPIAC. Aos nossos visitantes, é sempre motivo de admiração o nível de organização e articulação política do movimento indígena nesta região. Também os “parentes” daqui já viajaram e conheceram diversos projetos desenvolvidos nos quatro cantos da Amazônia brasileira. Em 2002, a visita de dois professores kaxinawá, Edson Medeiros Ixã e Tadeu Mateus Siã, aos Yanomami, resultou na construção de uma enorme maloca, nos moldes da arquitetura yanomami, na Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão (aldeia São Joaquim). Mais recentemente, no ano passado, uma delegação Marubo do Vale do Javari (AM) participou do V Festival de Cultura Yawanawá e, alguns meses depois, uma comitiva Pano do Acre (Yawanawá, Kaxinawá e Katukina) foi recebida na terra dos Marubo. Os Marubo e todos os povos Nawa pertencem à uma mesma família lingüística, a denominada ‘Pano’. Para além das similaridades entre as línguas, esses povos possuem referências culturais comuns. Entretanto, o contato dos Marubo com a nossa sociedade é mais recente e, portanto, eles preservam traços culturais que já se perderam por aqui. Como disse o professor yawanawá Fernando Luis Kateyuve, sua viagem ao Vale do Javari foi como uma viagem no tempo, pois viram coisas que só conheciam pelas histórias contadas pelos mais velhos. Para os Marubo, por sua vez, o intercâmbio foi um reencontro; já não se viam desde que o enorme jacaré que servia de ponte sobre o rio se afundou e, durante séculos, dividiu o seu povo ancestral (mitologia dos povos Pano). A pesquisa no projeto de autoria da CPI-AC A pesquisa na proposta curricular do projeto de educação “Uma Experiência de Autoria dos Índios do Acre” é um espaço para a interação entre as diversas áreas curriculares do conhecimento e um facilitador na capacitação dos professores indígenas. Esta área foi iniciada através da sistematização do conhecimento produzido nas várias etapas de formação dos professores ao longo do Curso de Magistério Indígena. Em 1995, no XV Curso de Formação, foram distribuídos ‘cadernos de pesquisa’ onde os professores passaram a registrar os estudos realizados nas aldeias. A proposta era a de que cada professor elaborasse um roteiro preliminar de pesquisa de acordo à seguinte orientação: tema, objetivo, justificativa, metodologia, cronograma e resultados. Se, por um lado, desde o início alguns professores já se concentraram em um único assunto, outros tiveram maior dificuldade na escolha e delimitação de um tema de pesquisa e seus primeiros cadernos traziam informações variadas e dispersas. Nesses casos, foi ao longo do percurso de trabalho, entre idas e vindas da aldeia para o curso, que os temas de pesquisa foram sendo definidos. Os primeiros roteiros de pesquisa elaborados pelos professores abordavam questões relativas aos processos históricos e práticas culturais como a medicina natural (ervas, cantos, etc.) e a musicalidade relacionada às festas e rituais tradicionais. Nas pesquisas de cunho mais histórico, grande parte das informações registradas estavam relacionadas à vida social no tempo dos patrões seringalistas (“tempo do cativeiro”): o trabalho na seringa, os nomes dos seringais, os diversos patrões para quem trabalharam. Nas pesquisas sobre festas e cantos tradicionais, como os do nixi pae (ayahuasca), por exemplo, encontramos diferentes versões de um mesmo mito de origem, já que levantados por diversos professores. São informações complementares que compõem o pano de fundo mítico em que os rituais acontecem e que justificam os diversos preceitos que devem ser seguidos, tais como as dietas, as condições de preparo da bebida, o momento de se cantar cada canto. O material pesquisado pelos professores indígenas passou, então, a ser organizado através da transcrição das fitas e digitação dos manuscritos trazidos das aldeias. Além das informações mais diretamente relacionadas aos temas de pesquisa de cada professor, os cadernos de pesquisa trazem relatos sobre a história de vida de seu autor, bem como de lideranças e de “velhos” que tiveram importância na trajetória de seu povo. Interessante notar que a maior parte dos professores, desde o início, já chamava a atenção para a importância da relação próxima de parentesco, fundamental para o estabelecimento da confiança necessária entre pesquisador e informante. Outra questão interessante, que já nos primeiros registros surgia como pano de fundo das pesquisas realizadas, diz respeito às condições de transmissão de conhecimento: quem ensina, como e quando se ensina, etc. Embora os “velhos” constituíssem as principais fontes consultadas, durante os cursos de história discutiu-se também a importância do uso de documentos escritos como fontes complementares que auxiliam na geração e fundamentação de idéias. Feito um levantamento prévio dos temas de pesquisa, durante o XIX Curso (1999) cada professor recebeu material de apoio contendo vários documentos correlatos ao seu tema: laudos antropológicos, relatórios de assessoria do projeto, depoimentos e entrevistas, textos de antigos “viajantes”, etc. Durante os cursos, trabalhou-se a leitura e interpretação desses textos através de fichamentos, interpretação de trechos, identificação dos preconceitos subentendidos, etc. Com o passar dos anos, o amadurecimento das reflexões somado à melhor instrumentalização dos professores para a pesquisa, gerou um aumento no número de projetos de pesquisa e de registros histórico-culturais. Em 2001, o volume de informações trazido pelos professores havia aumentado de tal forma que deixou os assessores do projeto sem condições de um acompanhamento e retorno mais imediato, tornando necessária a inserção de um módulo específico nos cursos de formação para se trabalhar as pesquisas. Foi a partir daí que se começou a discutir outras questões de cunho mais epistemológico levantadas pelos professores-pesquisadores, tais como: Para que serve a pesquisa? O que registrar? Para que registrar? É necessário registrar todos os conhecimentos? De que maneira a escrita pode ajudar no fortalecimento cultural? A oralidade vem dando conta da preservação dos conhecimentos? Esses questionamentos desembocaram em reflexões sobre a situação cultural e linguística em que cada comunidade ou povo se encontra gerando ricas discussões. No ano passado (2006) foram publicados os primeiros volumes da série Cadernos de Pesquisa que se propõe a divulgar práticas de registro, sistematização e reflexão desenvolvidas nas pesquisas de cada professor indígena. O incentivo ao desdobramento de outras pesquisas e o seu uso como conteúdo escolar são também objetivos propostos. Cada Caderno expõe o projeto e objeto de estudo de um professor. Os títulos até agora publicados são: Plantas Medicinais - Doenças e Curas do Povo Huni Kuin, de Edson Medeiros Ixã Kaxinawá, Nukun Kene Kena Xarabu, de Joaquim Paulo Mana Kaxinawá e Nixi Pae – O Espírito da Floresta, de Isaías Sales Ibã Kaxinawá. Aos títulos enumerados acima serão somados outros que encontram-se em fase final de elaboração: Costumes e Tradições do Povo Yawanawá, História e Organização dos Kaxinawá do Rio Purus, Shawã Shandipahu – Histórias do Povo Arara e, por último, Ashaninka do Rio Amônea. * Antropóloga, assessora da CPI-AC Espírito da Floresta Isaías Sales Ibã Kaxinawá “O livro Nixi Pae – O Espírito da Floresta, trata das cantigas relacionadas à bebida do cipó, a mais conhecida e usada pelo povo Huni Kuin na festa do pajé ou quando cantamos a música fazendo o trabalho de cura. Tomar cipó significa conhecer como se nasceu, como foi o início. O mundo que a gente recebe dentro da nossa mãe. Porque no nosso mundo o espírito está vivo. A nossa religião é Yuxibu. Ele vai buscar dentro da gente o nosso pensamento e mostra nas canções do cipó o seu segredo, o seu orgulho. Pega aquilo que você pensou e entrega tudo nas cantorias do cipó. Ele vai fundo. O Yuxibu não deixa nada de graça. Yuxibu é a jibóia e o pai dela é Exeika. O meu pai Tuin me explicou a história do cipó. Quando se prepara o cipó, se pinta com urucum o rosto das pessoas, somente pequenos riscos. Depois de tomar cipó, no outro dia, temos que tomar banho com o remédio da mata. Significa guardar e proteger o nosso esprírito da fraqueza nisun. É a cura com o remédio tradicional Eu, professor Ibã Huni Kuin, tenho prazer de mostrar a nossa cantoria do cipó, através da pesquisa que realizei com os três velhos Kaxinawá: Romão Sales Tuin Kaxinawá, Miguel Macário Isketi Kaxinawá e Agostinho Manduca Muru. Ainda estou fazendo esse trabalho, a prendendo a música mais bonita do encanto do cipó. O meu trabalho foi com os pajés, gravei todas as músicas, depois transcrevi e fomos organizando o livro.” (Nixi Pae – O Espírito da Floresta, 2006, p.11) |
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