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Benedita Enildes de Campos Corrêa * |
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Um encontro com a vida – parte I Este texto nasce de uma forte, difícil e intensa vivência que tive ao acompanhar um amigo que veio a falecer, inesperadamente, há algum tempo, que se tornou uma das maiores escolas da vida pelas quais já passei. Constatei e vivenciei estas palavras dos sábios: “A vida é curta para ser pequena.” Acordei para o fato de que ficamos fora dela por coisas tão banais, pequenas e insignificantes; apegos a tantas coisas supérfluas, que servem simplesmente de estorvos e impedimentos para se viver com alegria bem como para uma partida silenciosa e em paz. A única coisa que fica com alguém ao morrer é o conhecimento de si mesmo, que abre espaço para a compreensão de si, do outro e da vida como um todo. O entendimento é eterno. Esse fica. Nada nem ninguém o arranca de nós. É o que vai ajudar na hora deste grande parto da forma para a não forma: a morte. Ao me dispor a dar o meu apoio incondicional àquele amigo que não tinha nenhuma pessoa de laços sangüíneos ao seu lado, que, repentinamente, ficamos sabendo, através do diagnóstico médico, restava-lhe pouquíssimo tempo de vida, vi o grande e sagrado valor dos pequenos gestos de cuidado, amizade e humanidade, independente de quaisquer ligações familiares. Entretanto, acompanha-lo nos seus últimos dias de vida dentro daquele corpo, confesso que não foi uma tarefa muito fácil. À princípio, senti o peso dessa responsabilidade nos meus ombros. Depois, tranqüilizei-me ao recordar das palavras do meu mestre e grande amigo Kiran Kanakia, durante um satsang com ele na Índia: “Quando confiamos na Vida, Ela toma conta”. “Quando você coopera com a Vida, a Vida coopera com você”. “Diga sim a Vida, aceitando-A como Ela é”. Vi a verdade dessas palavras aparecer na forma de verdadeiros milagres naquele quarto de hospital, lado a lado com cada dificuldade, como também destas outras: “Amor é o remédio”. Procurava transmitir ao meu amigo meu afeto fraterno, através do meu olhar, do meu toque, da minha presença. Segurar suas mãos nos momentos em que ele sentia medo e sofria do mal estar dos efeitos colaterais da forte medicação a que estava sendo submetido, tocar sua testa, seus pés ou outras partes do corpo, onde eu percebia que precisava de mais vida, acalmava seu sistema nervoso, deixando-o mais tranqüilo, lúcido e consciente. Seu corpo respondia de forma surpreendente ao toque das mãos que recebia, carregadas da mensagem de aceitação e acolhida da sua pessoa do jeito que era, com seu lado positivo, fácil de lidar e com seu lado reativo e mais difícil de aceitar. Essa qualidade impressa no toque e no olhar teve uma força de vida, que, de repente, mil palavras e mil medicamentos não conseguem ter. Uma grande integração na minha profissão de terapeuta corporal se deu naquele ambiente de hospital. Foi uma das mais valiosas aulas que a Existência me deu sobre a importância, profundidade e amplitude de um simples toque com a qualidade do humano. O toque que traz uma presença amiga, permitindo a alguém se sentir acompanhado e sair do estado de solidão e desamparo. O toque que reforça e harmoniza a vida, o toque que nos faz sentir que nem tudo está perdido: é possível confiar e esperar pelo melhor, seja lá como for e onde for. O toque que transforma ansiedade, medo e angústia em tranqüilidade e confiança. O toque que ajuda a reorganizar o caos interior, possibilitando-nos enxergar com mais clareza. O toque que nos faz abrir o coração e comungarmos uns com os outros. Não pude deixar de desejar, ardentemente, que todos os contatos entre os seres humanos, em qualquer âmbito, fossem permeados por essa qualidade do vivo, da aceitação, da acolhida e do respeito recíproco de uns pelos outros. Oxalá, que todos ao nascer pudessem ser recebidos neste mundo por uma infinidade de mãos amigas! E que ao partir desta vida, pudessem levar consigo a lembrança e o calor de um adeus dado nem que seja, por uma única mão amiga. Infelizmente, não é essa a realidade, principalmente, a dos hospitais. Vi consternada vários médicos jovens, ainda em início de carreira, gabando-se de sua indiferença diante da morte. Observando tais atitudes, refleti sobre que tipo de formação as Escolas de Medicina proporcionam aos seus alunos. Se a morte for banalizada, que dirá o cuidado com a vida! Vida esta que, de tanto insistir, os “humanos” estão quase conseguindo dizimá-la. E diante da insensibilidade e indiferença de muitos, quantos partem sem ter sequer uma pessoa do seu lado para dizer: “Vá em paz, que Deus o acompanhe”. E quantos nascem sem ter alguém que lhes bendiga e diga: “Seja bem-vindo, viva em paz, seja feliz e que Deus o abençoe por todos os seus dias!” * (Gyan Saraas) – Administradora e Terapeuta Corporal |
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