OPINIÃO
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Sandra Starling *

 

Lições que podem ajudar o PT

Entre uma e outra caminhada, em um parque maravilhoso, perto de meu apartamento, em Brasília, vou curtindo velhas lembranças, pensando antigos problemas, tentando equacionar os novos que surgiram nestes tempos sombrios. A manhã é ensolarada, o ar, muito seco, passarinhos cantam à minha volta. O Parque da Cidade é bonito mesmo: cheio de lagos, onde patos e marrecos disputam os pedacinhos de pão ou o milho jogados pelas crianças. Ali um grupo pratica tai chi chuan; acolá, vejo um casal de velhinhos andando de mãos dadas, devagarinho. Um grupo de corredores quase me atropela, afora as bicicletas, os patins, a suscitar em mim, entre um susto e outro, a inveja de quem os conduz. Lembro-me, entrementes, que fui uma das co-autoras do primeiro Estatuto do PT. Havia três propostas: uma, de Minas Gerais, defendida por mim, no Encontro Nacional de maio de 1980; outra, do então deputado estadual paulista, Marco Aurélio Ribeiro; e uma terceira, oriunda do ABC paulista, e defendida por um sindicalista, famoso è época, conhecido pela alcunha de Osmarzinho. O plenário não tomara conhecimento, em profundidade, de nem uma das propostas e, por isso, avaliei que seria melhor propor uma tentativa de fusão entre elas, o que dependeria de uma delegação ao Diretório Nacional para poder aprovar o Estatuto. Enquanto isso, nós, que defendíamos cada uma das propostas, faríamos parte de uma comissão encarregada de tentar a conciliação. Posta em votação, minha sugestão foi vitoriosa.

Depois que iniciamos nossos trabalhos, pedimos ajuda a Plínio de Arruda Sampaio, antigo militante cristão e socialista, que nos brindou com um verdadeiro achado: a Comissão de Ética, em qualquer nível, jamais poderia ser integrada por quem fizesse parte da direção partidária a que estivesse submetido o filiado sujeito à investigação. Ficava assim preservada a isenção e afastada qualquer ingerência política, quando fosse o caso de punir ou absolver alguém. Hoje, no PT, não há mais essa maneira de proceder: as suspensões preventivas podem ser decidas pela própria Executiva, que atua, assim, cautelarmente, como instância julgadora. Penso que deveríamos voltar a adotar a fórmula anterior.

Um problema que começou a acontecer, lá no início, foi o da profissionalização de dirigentes e funcionários. Lembro-me bem que tínhamos núcleos de advogados, que atuavam de graça em todo momento necessário ao partido ou a algum de seus militantes: grevistas presos pela polícia, ações junto à Justiça Eleitoral – tudo, tudo era feito por militantes, sem qualquer contrapartida. Aí, resolveram contratar advogados. Resultado: ninguém mais aceitou trabalhar de graça... E a prática foi contaminando tudo: os jornalistas, os cartunistas, os que distribuíam panfletos em campanhas, tudo foi sendo mercantilizado...

Outro desafio nunca enfrentado: no início, criticávamos enormemente os políticos tradicionais, que acumulavam mandato atrás de mandato, tornando-se “classe política”. Acabamos fazendo o mesmo. E o que é pior, conforme a situação de vida profissional da pessoa, é claro que fica muito difícil sua volta à vida de cidadão comum. Ou porque perde seu emprego ao assumir o mandato, ou porque experimenta um padrão de vida tão diferente do que tinha antes, que só por milagre aceita deixar de concorrer a um cargo eletivo. E assim por diante.

Qualquer que venha a ser o futuro do PT – que eu espero venhamos a ter ainda – qualquer que seja, repito, esses e outros desafios terão de ser definitivamente enfrentados por nós.

* Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC)

 

 
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Rio Branco-AC, 1 de setembro de 2005
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