OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


Eles não dizem nada

Prefiro a música à política. Ouvindo músicas, vendo a atuação sedenta da mídia, assistindo coisas terríveis na política e nos poderes, sinto que os pensantes jovens estão percebendo tudo. E que os velhos praticantes do avesso continuam dizendo nada. Muitas vezes me ocorre, lamentavelmente, a sensação de que tudo está dentro de uma tal normalidade conveniente, ou de que está tudo comum nos noticiários, nos palanques, nas intenções. Se não fosse o sentimento enraizado de não aceitar tanta coisa inaceitável, tudo isso passaria, como quase tudo passa. Mas não dá para emudecer, por exemplo, ao ver comportamentos e ações que se dirigem para a intenção de acumular, de se dar bem, de gente que só vê o mundo como um lugar para ganhar. E é ainda de mais grito, mais dissonante, ver gente que faz isso e aquilo, mas só considera inaceitável isso e aquilo feito pelos outros. O aquilo deles, passa. O isso deles, foi só vaidade, é só poder.

Enquanto os homens exercem seus podres poderes, peço permissão a Caetano para aproximar o meu cantar vagabundo àqueles que prezam pela alegria do mundo, indo mais fundo. Gente que vende e compra gente que se vende e se compra. Gente que só cria notícia do outro, do que ainda não pagou, do que ainda não depositou, do que ainda não se associou. Será que vai? A maquiagem é o preço do que se mostra, é o preço para governar, é o preço para se segurar. Isso nem todos podem ver, vários e vários nunca vão saber. E para muitos nem interessa, nem há tempo, nem há meios, sequer de comunicação. A notícia, antes trabalhada, dirigida, pode ter feito um candidato perder aquele debate, aquela eleição, junto com a camiseta do bandido exibida como voto condenado. Porém, uma contribuição bem atual pode salvar a pátria, vai pagar a dívida, garantir o investimento, burlar o financiamento do desenvolvimento, assegurar o disfarce do envolvimento. O que era pago para ser dito, também vale para ser encoberto. E o trabalho da notícia continuará sendo criado, enquanto os homens exercem seus podres poderes, enquanto morrer e matar de fome, de raiva e de sede, são tantas vezes, gestos naturais.

Prefiro a música à política. Penso nisso e escuto a música dos Engenheiros do Hawai. Igual aos rapazes da banda, a gente também presta atenção no que eles dizem, os caras inconseqüentes do poder, da política e da mídia, mas eles não dizem nada, nada. E, às vezes, lamentavelmente, a gente chega até a achar normal. Se tudo passa, como diz a música, talvez passem por aqui uns ventos de simplicidade, que cheguem varrendo e sigam limpando as ambições. E passem, deixando a certeza de que ser um simples cidadão é suficiente, é bem aceitável e é bem mais fácil. Isso talvez mostre que nem toda forma de poder é uma forma de morrer por nada, como cantam os rapazes. Assim, até as músicas poderão passar sem isso tudo que vemos, sem aquilo tudo que nos escondem. Até lá, eu prefiro a música à política. Por isto, ouço Cazuza: “a tua piscina está cheia de ratos, as tuas idéias não correspondem aos fatos, o tempo não pára”. E vou desligando, vendo o futuro repetir o passado, vendo um museu sem grandes novidades.


Quintais e rios, lua e amor na chuva

José Augusto Fontes

Quintais de Rio Branco, do Acre, de toda uma vida, quase bosques, com mato dançando, vento dando volta em mangueira, galinha ciscando no pé da laranjeira, menino fazendo arte abaixo da cumeeira, cabeça na biqueira, aparando a água do mundo e o quintal seguindo lá para o fundo, adiante das cajazeiras, esnobando o fim do mundo. Por aqui, não há quem não conheça um bom quintal, de barro batido, de grama, capim, de chão puro. Mais além, há quem passe a vida em grandes edifícios, sem nunca acordar e andar num quintal, ver frutas crescendo, ouvir o bom-dia dos pássaros, sentir o cheiro de árvores, capim, orvalho, quem sabe, uma horta doméstica, um curió orquestrando o local. Por aqui, há até quem tenha um igarapé, um rio, passando por trás do seu quintal, até por dentro, que tal?

Presta atenção, menino, cupuaçu a gente só come quando cai, graviola dá o ano todo, manga espada não corta ninguém, só a fome. Bota leite no jerimum, amassa bem, é o que tem, brincar de peteca não dá camisa a ninguém. Escorrega ladeira, sobe com a jaca, quando enjoar, a gente faz um doce. Presta atenção, este ano não teve alagação. Entrou setembro, ipê roxo é mais bonito, o amarelo também é pau d’arco, no chão tudo é tapete. O quintal do seu menino se acaba no rio. Será? É tudo. Um rio no quintal. Tá passando peixe, minhoca n’água. Em Rio Branco, o Acre no quintal. Em Sena, o Iaco e o Caeté, que beijam o Purus e este abraça Manoel Urbano. Em Xapuri e Brasiléia, o Acre, que na princesinha devora o Xapuri e segue banhando quintais até na Bolívia. O Môa e o Juruá se enroscam e Cruzeiro deixa acontecer. São águas que também dançam em terras peruanas. Quintal não tem fronteira. E aqui não tem moleza, a realidade é dura e grandiosa, igual castanheira.

Do ponto de vista dos rios, o quintal é a praia. Aí feijão-de-corda e melancia fazem a magia de sair da areia e formar um jardim, um grande canteiro, outro quintal, e a água vai passando, lambendo, levando o batelão, além do estirão, ôpa, lá vem um tronco de samaúma, desvia, presta atenção, não vai tirar o prumo da embarcação. Olha lá em cima, as filhas do seu João.

Se a vida passasse como rio, a gente vivia muito. Rio finge que passa mas só vive ali. Andando de barco a gente via, num banquinho de madeira, as moças sentadas, apreciando o rio, de dentro do quintal, ao lado do pé de algodão, seguindo com os olhos, lá embaixo, o salão, tem sucuri, presta atenção. Passa o barco, perde-se o barulho do motor, os olhos, os quintais, a mata e o rio refletem outra cor. A lua sai e torna na mesma hora, a lua é soberana, os bichos sabem, os peixes esperam, caçadores e pescadores também. Qualquer dia desses, vou caçar uma lua assim para brilhar dentro dos olhos de quem quero bem. Ela tem olhos de cacimba, mas eu mergulho bem.

Há tanta coisa para contar dos quintais de cá, conversa para sobrar, lua, estrelas, orvalho, sol nas fruteiras, sons e cheiros. Encontros e o lugar para estar só. Mamãozinho com mel. Água de coco, doce e gelada. Lá vem a Mariquinha, por detrás da ingazeira, viu periquito verde, vem faceira, a gente adivinha o que ela ganhou na capoeira. Quintal tem cada coisa.

Estamos saindo dos rios, voltamos para a cidade, no quintal lá de casa tem um coqueiro que já era velho quando nasci. No quintal ao lado tem a pitangueira da dona Maria, que ficou, e a velha não está mais ali. Num quintal adiante fizeram dois quartos, derrubaram o limão galego e o genipapo, nunca mais fizeram lambedor nem tomaram licor. Capinaram o hortelã e desnortearam a plantinha rameira. Mexeram até com a galinha poedeira. Que Galo nada, o povo de lá torce é pelo Juventus. Penso que a velha está na pitangueira, porque uma representa a outra. A pitangueira ficou para passar por coisas assim. E para lembrar a velha. Outras marias e pitangueiras vão nascendo ao redor, pode ser melhor?

Lá no quintal do seu Raimundo tem um campinho, lá no fundo. Vamos fazer a cerca? Se não me escolher, levo a bola, acaba a pelada. Menino, pega no cabo da enxada, arranca macaxeira, que liseira, o pagamento não sai segunda-feira, não me seca a pimenteira. Vai lá no quintal, lá tem ovo da região, aquela cana caiana ainda não é tempo, não. Vê se tem limão. Vai olhando, perto daqueles buritis e das touceiras de açaí. O outro time vai sair, parece que nossa cerca não emplaca, não. Levanta a cabeça, depois daquele mamoeiro tem uma roseira e muito agrião.

Do ponto de vista da floresta a cidade é uma clareira. Quase moramos no quintal dos bichos, cuja casa é o mato. Eles não querem saber de quintais. Seu quintal vai até onde a flecha do último índio alcançar. Índio quer dançar? Cada um no seu lugar. Muita conversa ainda vai rolar, dos quintais há muito o que falar, assunto não vai faltar. Debaixo da castanhola, a gente joga umas pedrinhas de dominó, toma uma cervejinha. Agorinha é quase hora de namorar. A arrumação já foi feita. Logo mais, se for São João, uma festa, um arraial, pode ser no teu quintal?

Os pés de jambo estão em fila, um pé-de-vento traz a próxima chuva. Na goiabeira, algo doce se anuncia. Do meu quintal, vejo a cabeça do mundo sendo lavada. É hora de namorar. A chuva trouxe lábios de fruta doce. Bem-te-vi com olhos-de-alfazema. Mãos de creme de maracujá, chegam pra cá. Ontem, vi a lua-cheia em teus olhos. A lua grávida muda os olhos de remanso. Isto basta para fazer chover. Um bem-querer que não quer outro assunto. Vamos passar outra chuva juntos, plantei uma paixão em teu quintal.

 

 

 
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Rio Branco-AC, 1 de outubro de 2006
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