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Pardal acreano Seus inventos inovadores rendem prêmios e patentes, além de já estarem sendo vítimas de pirataria tecnológica |
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A simplicidade e a eficiência são duas marcas fundamentais nos inventos criados pelo empresário Alceste Castro. Utilizando materiais comuns e conceitos óbvios, mas que não são levados em conta por aqueles que acreditam saber de tudo, ele tem surpreendido e inovado nas suas invenções testadas e aprovadas pela Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), que garante cunho científico e orienta o registro de patente aos inventos. No último mês de novembro, uma de suas invenções, a Luz Espelhada, venceu todos os projetos de inovação tecnológica da Amazônia e ficou entre os cinco primeiros do Brasil no Prêmio da Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia e ao CNPQ. Essa é apenas uma de suas várias invenções patenteadas, premiadas e que de tão boas já estão sendo pirateadas por oportunistas e até instituições tidas como respeitáveis. Um conjunto de atribulações marcou a vida desse acreano nascido no dia 9 de setembro de 1951, em Xapuri, de onde seria levado um ano depois para Brasiléia, mais dois para Belém, mais três, voltaram para Tarauacá, rio Branco, por fim, aos 9 anos chegou a Manaus para cursar a quarta série no Colégio Princesa Isabel, depois ginásio e colegial no Colégio Dom Pedro I. “Sempre estudei em escola pública. Em 1969 fiz prova e passei na primeira fase do vestibular para engenharia, estava servindo no Exército, fui mandado em missão militar para Roraima e não pude fazer a segunda fase. Quando saí do Exército, casei e ajudei minha mãe a criar quatro filhos menores. Um deles, Raimundo, é agrônomo, PhD e professor em duas universidades. Ana é formada em letras e línguas dona do colégio Saint Exupéry, nos Campos Elísios, ambos em Manaus”, recorda. Sua volta para o Acre aconteceu ao cuidar do embarque de uma grande quantidade de piche para asfalto, quando conheceu o engenheiro Fernando Moutinho, diretor-presidente do Deracre, que o apresentou ao então governador Joaquim Macedo, por sua vez amigo de seu pai, que atuou no Acre como promotor público. “Lugar de acreano é no Acre!”, enfatiza. Para cá trouxe a A. Castro Comércio e Construção Ltda., que teve como primeira obra a instalação de esgotos na rodovia AC-40, obra então projetada pelo engenheiro Luiz Carlos Vasconcelos e que permanece ativa. Pés no asfalto “Sempre estive atento para o aproveitamento e a eficiência das coisas. Na falta de pedras, a gente lavava piçarra para usar na construção civil e para misturar no asfalto. Notei que a areia que saía e era jogada fora quando a gente lavava a piçarra (laterita) era de ótima qualidade. Mandei amostras à Comara, que aprovou como produto excelente para uso em estradas e demais obras da construção civil”, recorda. “Aquilo que era lixo passou a ser matéria-prima de primeira qualidade, tanto que foi com ela que a construtora Mendes Júnior usinou o asfalto da AC-40 até Plácido de Castro. Nele há 8% de piçarra, 8,2% de piche e componentes. O restante do volume é a nossa areia que antes era jogada fora”, complementa. As sacadas sucessivas de Alceste nas áreas da engenharia mecânica e da construção de estradas, onde sempre gostou de atuar, ganharam novo impulso a partir de 1999, quando, com menos obras e mais tempo para pensar, começou a desenvolver idéias de forma mais elaborada. Aula de geografia Pai de sete filhos, a mãe Maria reclamou que o menor deles estava tirando notas ruins em geografia e pediu que desse uma orientação ao menino. “Peguei os livros, a enciclopédia e ao estudar o assunto descobri que praticamente todas as rochas um dia já haviam sido argila, mas a natureza gasta milhões de anos para isso, então achei que dava para apressar o processo. Fiz umas peças e comecei a testar no microondas. Torrei o aparelho ao passar a noite fazendo uma série de testes seguidos. Maria me proibiu de entrar na cozinha. Entendi que o micro não servia porque secava, mas não tinha a temperatura e pressão necessários para transformar a matéria da argila em pedra.” Dali seguiu para uma olaria, e depois de várias experiências malfadadas conseguiu finalmente - mais que assar - calcinar a argila, mas os técnicos do Deracre não aprovaram a idéia. “Técnicos e especialistas normalmente são muito conservadores, preferem o convencional, aqui que já está consagrado, evitam novidades. Mas nessa época apareceu o doutor Jairo, professor da Universidade do Fundão e PhD em solos, que veio para fazer um trabalho na Funtac e ficou surpreso com a qualidade do material que havíamos conseguido fazer, a nossa Pedra de Barro.” Laboratórios da Universidade de São Paulo (USP) e da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) confirmaram os resultados. A idéia foi apresentada pela Funtac ao primeiro Prêmio da Finep e foi premiada para o Acre na área da inovação tecnológica no ano 2000. Problema de gênio Como dizia Tia Anastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, referindo-se ao genial Visconde de Sabugosa no livro “O Poço do Visconde”, escrito por Monteiro Lobato em sua campanha “O Petróleo é Nosso”, “gênio tem mil idéias e fala de milhões sem ter um tostão no bolso nem um bom anel no dedo”. Alceste, atacado pelo mesmo mal, a falta de dinheiro, e como diz ele mesmo, o medo de endividar-se no banco, só agora está permitindo que viabilize sua fábrica de pedras de barro que será posta em funcionamento nesse verão. “Podemos fazer pedras de barro na forma geométrica que o cliente preferir, sua qualidade está atestada para ser utilizada com segurança tanto na construção civil quanto em estradas e outras aplicações em que se usam pedras. A diferença está em utilizarmos apenas matérias-primas acreanas com nossa pedra sendo vendida a um preço médio de R$ 60 o metro cúbico e a pedra mineral que é trazida de longe está sendo vendida a R$ 160. Além de ter um preço muito mais acessível, vai fazer o dinheiro circular aqui mesmo no Acre”, relatou. Pirataria tecnológica A pesquisa científica que confirmou a eficiência da Pedra da Barro, inventada por Alceste, foi feita pela Funtac numa parceria financiada pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Finep. Através da Funtac, a pedra de barro teve o pedido de registro de marca feito no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no dia 6 de outubro de 2000. O pedido de patente, que tem o número 300220419271, com o registro 000012 INPI - AC, foi feito no dia 6 de novembro do ano 2000. “No ano 2000 eu estava concluindo a construção de uma estrutura metálica para o 7º BEC que então era comandado pelo coronel, homem muito digno e de boa índole, auxiliado pelos capitães Pfeifer e Rui. Falei a ele sobre meu projeto da pedra de barro e ele me pediu que cedesse uma cópia para que tivesse nos arquivos do quartel como possível alternativa para ajudar a resolver a dificuldade de encontrar matéria-prima para as estradas do Acre”, relembra Alceste. Cedida a cópia, logo depois Alceste soube que ela teria sido enviada pelo tenente engenheiro Magalhães a uns amigos para que testassem a idéia no laboratório do Instituto Militar de Engenharia (IME). Logo depois, seria surpreendido com a informação de que a equipe tentou patentear a idéia, recusada pelo INPI por ser idêntico ao projeto apresentado antes pela Funtac. Situação semelhante teria acontecido com a Universidade Estadual do Amazonas (Ueama) cujos técnicos, baseados no projeto que está exposto em site da Finep, a exemplo dos militares, vem realizando palestras e apresentações como se o invento fosse dela, ao mesmo tempo em que tentam convencer empresários locais e investir na construção de uma fábrica, tendo em vista que em Manaus também não há jazidas de pedra para baratear a construção civil. “Tenho colecionado uma série de matérias de jornais e revistas domo número três publicada pela Associação Brasileira de Pavimentação (ABPv) no ano passado, onde militares apresentam a idéia como se fosse deles e ainda colocam foto de uma rua calçada com tijolo, no Acre, para ilustrar a matéria”. Diante dessa situação Alceste está acionando a justiça para requerer seu crédito e direitos sobre a invenção. Miniusinas eficientes Necessitando de energia elétrica em sua fazenda, no ano 2000, Alceste resolveu utilizar a água de um grande açude seu para gerar energia. O problema é que a vazão de água não era suficiente para produzir toda a energia de que ele precisava, então começou a idealizar uma miniusina mais potente. Criando uma pequena parafernália de fios e engrenagens, conseguiu, com uma vazão de apenas quatro polegadas de água, produzir a mesma quantidade de energia que seriam produzidas por 20 polegadas. “Nosso sistema ampliou quatro vezes a capacidade de geração de energia com o mesmo volume de água. Fizemos o registro e pedido de patente e hoje estamos fabricando os geradores na Elemaq, em Sena Madureira. Uma de nossas usinas funciona há seis anos no povoado de Cocamita, na Bolívia, onde abastece de energia 25 casas consumindo 250 gramas de graxa por ano. O custo de instalação de um conjunto desses fica na ordem de R$ 20 mil dólares.” A eficiência do sistema de Cocamita fizeram com que o governo do Departamento de Pando encomendasse mais 40 unidades com capacidades de geração que variam de 10 a 200 Kwa. “Temos apoio pessoal do amigo e governador Leopoldo Fernandez, mas nos preocupa ainda a instabilidade política que vive nosso vizinho país”, admite. Multiplicador de energia elétrica Entre várias outras idéias, nesse momento Alceste se debruça para viabilizar um aparelho que, segundo ele, seria capaz de multiplicar a energia elétrica. O equipamento funcionaria recebendo, por exemplo, 12 amperes de energia que depois de passar pela máquina sairia do outro lado com capacidade dobrada, ou seja, pelo menos 20 a 24 amperes. “Essa é uma idéia que tem sido tentada por milhares e milhares de cientistas em todo o mundo, utilizando tecnologias complicadíssimas e grandes laboratórios. Caso confirmem cientificamente essa minha descoberta - e eu acredito que estou certo -, teremos feito o que até hoje é considerado impossível: multiplicar a energia. Isso contraria a lei da conservação de massa criada por Isaac Newton. Meus testes mostram que sim. Agora é a vez de os cientistas confirmarem na prática a inspiração que recebi de Deus para criar meu projeto Puraquê.” Idéia luminosa Ao ler uma revista trazida por sua esposa chegada de viagem a Belém do Pará, Alceste conheceu o projeto de um cientista russo que iria colocar em órbita um satélite que lá abriria um grande painel espelhado para refletir a luz do sol sobre regiões daquele país, a fim de melhorar a produção agrícola durante o período em que há pouquíssima ou nenhuma luninosidade naquela região. “Vi que, na prática, era apenas um jogo de espelhos, mas não sabia que eles eram capazes de potencializar, ou seja, multiplicar a luminosidade. Tive então a idéia de construir luminárias espelhadas para serem usados na iluminação pública de rua, pátios e armazéns de grande porte. Comprei os espelhos e testei sua eficiência em diversas situações, gostei do resultado e apresentei o projeto para ser testado pela Funtac”. A idéia foi apoiada financeiramente pela Eletronorte, programa Luz no Campo, Agência Estadual de Energia e tecnicamente pela Funtac. Os resultados foram surpreendentes porque utilizando uma lâmpada fria (fluorescente) de apenas 45 watts que economiza energia e, um jogo de sete espelhos, foi conseguida a mesma luminosidade proporcionada por uma lâmpada de 225 watts de mercúrio ou sódio. “Além de gastar menos de um terço da energia, a luminária espelhada não precisa de reator, peça que mais encarece a iluminação pública. Instalamos oito postes com essas luminárias na rua atrás do fórum de Senador Guiomard e a prefeitura de Xapuri agora está querendo fechar contrato para iluminar as ruas da cidade”, esclarece Alceste. Os testes efetuados pelos técnicos da Funtac confirmaram a eficiência do sistema em laboratório e na prática. Assim elas foram instaladas para iluminar o pátio do Shell do Quinari que consumia mais de 8.100 watts de energia elétrica por mês e teve o gasto reduzido para apenas 810. Já nos armazéns do Atacadão Rio Branco que funciona na Estação Experimental, o consumo de energia com a iluminação dos pátios e armazéns que consumiam 29.500 watts por mês, baixou para 5.310 watts. Economia confirmada pelo encarregado geral dos armazéns da empresa, Carlos Gilberto Campos Holanda : “Estas luzes espelhadas funcionam muito bem. Primeiro porque a luz delas é muito clara e limpa, não casa os olhos da gente, também porque economiza muita energia elétrica. Vamos instalar este sistema no restante de todos os nossos armazéns porque é muito bom mesmo”. A idéia foi destaque nacional ao vencer do último Prêmio Finep, na categoria produto, entregue no final do ano passado. “Sem a Funtac estas minhas idéias ficariam na gaveta ou serviria de piada às pessoas, mas nós estamos provando que o Acre tem cabeças para inventar coisas importantes a partir de idéias simples. Neste momento estamos prontos para atender quem quiser comprar nossas luminárias espelhadas”. Sustentabilidade científica assegurada O diretor-presidente da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), César Dotto, reconhece a capacidade criativa de Alceste, que, embora sem um curso superior, vem apresentando soluções simples e inovadoras para velhos problemas. César lembra outros acreanos, como os seringueiros Carlos Pinto, que inventou o Xampu Esperança, e Antônio, que em Mâncio Lima cria fórmulas de sabonetes, óleos trifásicos e outros produtos a partir de produtos da floresta. Essas e outras experiências nas áreas da química, biologia e construção estão sendo igualmente testadas nos laboratórios da Funtac. “Nossa função é realizar pesquisas de tecnologias que estejam mais próximas ao mercado, ou seja, desenvolver produtos que beneficiem a matéria-prima local gerando emprego e renda para a população agroflorestal e urbana”, explicou César. Nesse sentido, somos procurados por pessoas que têm idéias inovadoras, mas precisam de suporte ciêntífico para comprovar sua eficiência prática e assim transformá-la em produtos comerciais que venham beneficiar o Acre.” Exemplos desse tipo de tecnologia são a pedra de barro, a luz espelhada e, por último, o multiplicador de energia (Projeto Puraquê), desenvolvidos por Alceste - os dois primeiros testados e aprovados pela Funtac, sendo que o último se encontra em fase final de teste. Mas a Funtac também testa idéias criadas por inventores de outros Estados, como a do paulista que criou o fogão gerador de energia elétrica, igualmente premiado pela Finep 2006 na categoria inovação, e os produtos da Saboaria da Sibéria, comandada pela dona de casa Carminda, em Xapuri, também premado pela Finep. Vai colocar no mercado, em poucos dias, o repelente de insetos produzidos a partir de extratos naturais da floresta, uma série de géis que combatem a dores reumáticas, contusões e outros problemas utilizando óleos medicinais como andiroba, copaíba, a babosa e outras essências. “Ao apoiar projetos como o fogão gerador de energia elétrica o xampu esperança, a pedra de barro, nós damos sustentação científica que permite o registro e patente destas invenções. Com isso a Funtac consegue dar uma resposta mais rápida e prática que beneficia a sociedade acreana”. Neste momento, a Funtac está desenvolvendo uma metodologia para comprovar a viabilidade econômica e praticidade comercial de fabricação desses produtos, o que será oferecido aos empresários que queiram investir em negócios inovadores para ganhar dinheiro com isso. |
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