| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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A Pré-história Acreana V (O caso dos sítios geométricos) Um dos clássicos escritos por Leandro Tocantins se chama “O rio comanda a vida” e essa lógica tem sido considerada como uma verdade fundamental e geral para todos os amazônidas. Entretanto para compreender o “Grande Aquiri” é preciso sair de dentro dos grandes rios, verdadeiras estradas de água, que caracterizaram a formação do Acre brasileiro e varar por caminhos outros que ainda hoje jazem ocultos no interior da floresta, conhecidos apenas pelos povos que aqui habitam há milhares de anos.
Nos caminhos do Grande Aquiri (I) Toda a história do Acre foi até aqui contada a partir do povoamento das terras acreanas através dos rios, caminhos fluviais, que permitiam que embarcações de tamanhos diversos viessem do Nordeste, de Belém, de Manaus e outros portos ainda mais distantes trazendo gentes e levando daqui o cobiçado ouro negro. Eu mesmo me apoio fortemente nesta versão da história para explicar porque os brasileiros chegaram e ocuparam o Acre antes de bolivianos e peruanos. “Pela lógica geográfica os brasileiros tinham os rios a seu favor enquanto que os últimos tinham que atravessar diversos rios para chegar por terra à região das seringueiras e do caucho, o que fez com que os brasileiros aqui se estabelecessem pelo menos 15 anos antes dos bolivianos e peruanos”. Mas, conforme começamos a ver no artigo passado, para compreender o Acre mais antigo e profundo em que viveram os povos pré-históricos temos que olhar pras histórias que contam dos caminhos, inúmeros, que cortam o interior das florestas acreanas. Varações e varadouros que interligavam os rios acreanos estabelecendo ligações insuspeitas à nossa história e punham em contato povos do Juruá, do Purus, do Madeira, do Beni, do Ucayale e tantos outros que constituíam o que passamos a chamar de o “Grande Aquiri”. E para compreender corretamente essa outra história, não precisamos nem recorrer às conjecturas de um hipotético passado pré-histórico. Na verdade a importância dos varadouros e varações também foi muito relevante para o período histórico do povoamento acreano. Algumas vezes de maneiras verdadeiramente surpreendentes.
O comércio do gado boliviano e os seringais acreanos É muito comum pesquisadores de diferentes especialidades abordarem a questão da pecuária no Acre como um fenômeno característico dos anos setenta do século XX. Talvez isso aconteça pela proeminência que esta atividade econômica adquiriu neste período e as graves conseqüências dela advindas como a luta dos povos da floresta, o surgimento de lideranças como Chico Mendes e a realização dos “empates” para evitar a derrubada da mata e a implantação de pastos na região. Nada mais ilusório. A pecuária teve inicio nas terras acreanas bem antes. Um século antes, pelo menos. E este tem sido um tema muito pouco abordado na historiografia acreana. Na verdade, a pecuária no Acre teve inicio quase simultaneamente à exploração da seringa em larga escala, que se deu a partir de 1880. É que com a implantação de enormes seringais que absorviam a mão de obra de dezenas, às vezes centenas, de trabalhadores um dos principais problemas a ser resolvido era o do abastecimento de “carne verde”, como se dizia na época. A questão consistia basicamente em que os seringalistas não queriam que os seringueiros roubassem tempo da extração de seringa para estar dentro da mata caçando. Além disso, o fornecimento de carne para os seringueiros pelo barracão do patrão também era importante para garantir os altos lucros dos seringalistas. Por isso logo se estabeleceu na região a importação, pelas casas aviadoras que abasteciam os seringais acreanos, de carne enlatada produzida pelas indústrias inglesas ou, como alternativa, a importação de charque do Rio Grande do Sul e da Argentina. Entretanto este tipo de abastecimento trazia sérios problemas à saúde dos seringueiros e por conseqüência à sua produtividade. Uma das principais doenças registradas no Acre no final do século XIX e inicio do XX era o beribéri. Uma enfermidade caracterizada pela ausência de alguns nutrientes em uma alimentação baseada em produtos enlatados. Seria irônico, se não fosse trágico: em plena Amazônia trabalhadores morrendo pelo consumo de comida enlatada! Mas logo os seringalistas, pelo menos os do vale do rio Purus-Acre, encontraram uma solução para o problema. Havia na região o conhecimento de caminhos muito antigos que levavam até o norte da Bolívia por onde seria possível trazer gado criado em campos do rio Beni. E foi apenas uma questão de tempo para que se estabelecessem rotas comerciais fixas entre bolivianos e brasileiros, antes mesmo de explodirem os conflitos conhecidos por Revolução Acreana. Basicamente essas rotas comerciais bolívio-brasileiras começavam nos campos que existiam ao longo do rio Beni de onde o gado era transportado por barco até a confluência do Beni com os rios Madre de Dios e Orton. A partir desse ponto os “ganaderos” bolivianos iniciavam uma longa caminhada - que dependendo da rota escolhida tinha que atravessar o Abunã, o Rapirrã, o Xipamanu e outros rios e igarapés da fronteira entre os territórios bolivianos e aqueles ocupados pelos brasileiros - através das densas florestas que maltratavam demasiadamente os animais e os homens que os conduziam. Por isso esse gado chegava às terras acreanas muito magro e sofrido. Como forma de valorizar esse produto transportado às custas de tantos sacrifícios se estabeleceu então a pratica de “invernar” esse gado nos “Campos da Natureza” que existiam na terra firme entre os rios Iquiri e Acre. Aliás, a existência destes “Campos da Natureza” no Acre é outro assunto de grande importância e que também será assunto desta série de artigos. Depois que o gado boliviano se recuperava da longa e dura caminhada e ganhava peso nesses “Campos da Natureza” era então vendido a peso de ouro para os seringalistas que por sua vez vendiam “carne verde” (fresca) ainda mais cara para os seringueiros, aos quais não sobrava outra alternativa senão pagar aquilo que lhes era imposto. Caminhos do poder Para se avaliar a importância que este comércio passou a ter em fins do século XIX para a economia acreana, basta dizer que este foi um dos motivos que levou Neutel Maia a deixar de ser um seringalista comum e se tornar um comerciante através da abertura da firma Nemaia e Cia. Isso se deu, entre outros motivos, graças ao fato que o seringal Volta da Empreza (tempos depois transformado em Rio Branco, capital acreana) estava na ponta de um destes caminhos antigos e Neutel assim pôde estabelecer sociedade com o português Amadeo Barbosa que, por ter vindo da Bolívia, possuía contatos comerciais com os “ganaderos” bolivianos do Beni. Assim Neutel e Amadeo abriram – por traz da fileira de casas que já se estendia no povoado da Volta da Empreza, às margens do rio Acre - um grande campo que recebia e distribuía o gado boliviano. Um comércio altamente rendoso e que teve uma importância ainda não corretamente avaliada pela historiografia acreana. Isso explica, por exemplo, porque Neutel Maia ficou ao lado dos bolivianos durante a Revolução Acreana. Como pode também explicar em parte a grande importância econômica que o rio Acre tinha frente aos outros rios da região. Fato este que possibilitou, entre outras coisas, que os seringais do rio Acre tenham estabelecido absoluto predomínio sobre toda a região, a ponto de fazer com que o futuro território, depois Estado do Acre, recebesse o nome deste pequeno rio e não de outros rios (como o Purus e o Juruá) teoricamente maiores e mais importantes. Ou seja, talvez seja possível afirmar que se não fosse pela presença destes caminhos antigos, e do comércio de gado estabelecido através deles, hoje morássemos no Estado do Purus e não no do Acre. Sem mencionar que por trás do assassinato do Plácido de Castro também estavam questões ligadas a esse comércio de gado boliviano, mas isso é assunto para ser tratado em outra ocasião. O leitor pode então estar se perguntando: mas o que isso tudo tem a ver com os sítios arqueológicos com estruturas de terra geométricas que são muito mais antigos que todo esse contexto histórico? E a resposta é fácil. Hoje estamos apenas introduzindo o conhecimento acerca desses caminhos utilizando um contexto histórico bem difundido. Na próxima semana veremos no artigo “Nos caminhos do Grande Aquiri (II)” que essas varações e varadouros que ligavam o Acre à Bolívia e ao Peru não só existiam desde o início do povoamento histórico do Acre como são ainda mais antigos e precisam ser considerados para explicar as conexões e relações étnico-culturais da nossa pré-história. Até lá. |
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