OPINIÃO
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José Cláudio Mota Porfiro *

 


Ensinar a história

Quase me pediram uma abordagem acerca dos currículos de História em aplicação nas escolas públicas de ensino médio do Acre. Dispus-me a fazê-lo e pensei na qualidade, antes de mais nada, posto que essa republiqueta do EJA não consegue levar muita gente a lugar algum. Onde está a qualidade, inclusive do ensino da língua pátria que não vai além de digressões exacerbadas acerca da literatura tupiniquim?

Está muito clara, até nas entrelinhas, a concepção de história segundo a qual “os homens na contemporaneidade se relacionam com seus eventos e com o passado”. É fartamente recomendado “interrogar acerca do que sucede com as diferentes leituras do passado (...) e as implicações destes diferentes olhares”. Convém a máxima preocupação com as formas sobre como o passado é trazido ao presente. Os agentes da história atual não devem ser enganados por maneiras e currículos que obscurecem a verdade em nome de heróis que surgiram porque as classes dominantes quiseram. É preciso explorar “o aspecto criativo, através da utilização de fontes históricas pelos próprios alunos.”

Depois de muito criticar através de uma argumentação sempre eficiente, Maria Stephanon cita Josep Fontana: “que o ensino da história se converta em instrumento de reflexão crítica que ajude o estudante a melhor compreender a sociedade em que vive”. Assim, chega a autora à tese apresentada para municiar os historiadores e a Academia.

É necessário “o estudo do passado não como algo morto, senão como ‘vida vivida, a que segue vivendo no presente de cada um’; a produção do saber histórico como instrumento de leitura do mundo...” É conveniente “´perceber as impregnações do histórico no vivido, demonstrar como o vivido define a leitura do passado; implica viabilizar efetivamente outra relação de conhecimento nas salas de história.”

“A possibilidade de instaurar outra relação com o conhecimento nas aulas de história supõe produzir ativamente outras organizações curriculares e outras práticas de ensino, em especial aquelas que proporcionem espaço para que os alunos se aproximem da análise da realidade social presente, vivida, concebida como trama de relações complexas. Em oposição aos currículos tradicionais, sugere-se que a análise do vivido se faça acompanhar: a - da compreensão de como se produz conhecimento histórico, reconstruindo os critérios a partir dos quais os historiadores formulam perguntas, problematizam a realidade, elaboram explicações; b – da compreensão dos diferentes processos históricos que, de algum modo, engendram o presente, e, c – da formulação de problemas significativos que constituam temas de investigação coletiva nessas aulas. (...) Relevante é contextualizar a teoria em uma realidade concreta, única e singular que somente cada professor/pesquisador conhece”.

Para exemplificar, poderíamos fazer-nos uma única pergunta para desencadear todo um entendimento acerca do processo histórico por que passam os acreanos: qual é a origem dos nossos bairros periféricos, onde se alastram os mais diversificados problemas sociais?

Poderia o estudo da história introduzir “outras formas de raciocínio, em especial uma outra concepção de tempo, a idéia de movimento. (...) Que o estudo histórico contemplasse a perspectiva de que o tempo é descontínuo. (...) O caráter evolutivo faz parte da leitura humana do real e não de um dado concreto e objetivo. Quanto à idéia de movimento, trata-se de compreender que o social é movimento, e de que essa noção constitui um critério fundamental da explicação científica, uma vez que permite desnaturalizar os fenômenos históricos e sociais, demonstrando que não são imutáveis, tampouco se repetem”.

Em síntese, é preciso repensar a história e os currículos de história levando em conta a perspectiva segundo a qual não é só importante a escolha de novos fatos, mas uma nova relação com esses fatos. Tudo, é claro, sem deixar de levar em consideração que o passado nos cobra o seu conhecimento para que não persistamos nos erros. E que história é essa?

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* Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Pesquisador do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Ufac.

 

 
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Rio Branco-AC, 02 de abril de 2006
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