OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 


O orgulho metafísico e o Brasil

Ainda hoje não nos livramos, nós estudantes de filosofia, da inveja que nos causa a ingênua defesa da verdade atemporal que se fazia antes de Kant! Era tão mais fácil, apreensível e comunicável o orgulho daquelas verdades saídas literalmente do nada, era mais cômodo erigirmos as nossas verdades de nossas escrivaninhas sem conhecer o mundo, sem pressupor nenhum “outro”, fazendo da “nossa imagem” (espero que não seja preciso explicar as aspas) um modelo para todas as épocas e todos os povos, protegendo a imagem que temos da “verdade”, do “bem” e do “belo” de toda a corrupção do tempo e de toda a variação no espaço, na medida em que as inscrevíamos numa instância metafísica (seja o mundo inteligível, seja o intelecto divino), nos valendo apenas e tão somente daquela escada de cordas, daquele instrumento poderoso e invejado que se chama lógica.

Não é de admirar que ainda tentemos começar ingenuamente de uma análise simplesmente formal como se, dessa forma, fosse possível se livrar da empiria, do desvio subjetivo. Mas, falando francamente, é ainda possível (supondo que realmente tenha sido possível e que não tenha sido apenas uma vã pretensão) partir ingenuamente de problemas “essenciais”, fornecidos pela lógica? Em outras palavras, é possível acreditar que da “forma” sempre se constituirá uma “matéria”? E que a filosofia trata de “todos os lugares” e por isso não deve se preocupar “com lugar nenhum”? Não seria auto-depreciativo e anti-producente invejarmos a matemática e acreditarmos ainda, depois de todos os séculos XIX e XX, que tudo que nos cerca é acidental e sem importância? Ou não seria essa a ilusão inconsciente que se deveria inferir da despreocupação com o que nos cerca, do desprezo em relação ao lugar em que os textos são lidos, desprezo expresso no silencioso orgulho dos “universais”? Mas crer em tal estado de coisas não seria já um juízo em relação à filosofia que adquire uma cor sem pátria, que se detém diante de problemas artificiais que não “devem” levar à sério o tempo e o lugar? A universalidade vista por esses orgulhosos leitores nada mais é do que uma forma de poder se sentir, de boa consciência, não pertencendo...

Mas de onde vem essa necessidade de não pertencimento? Primeiro, de uma experiência comum e corriqueira cuja necessidade de desqualificação era resultado de um projeto colonial: a coroa portuguesa foi sempre muito ciosa da sua tarefa de submeter e colocar ao seu dispor todas as energias das populações e terras de sua majestade e, para tanto, evitava a circulação das idéias “libertárias e revolucionárias” como autonomia, liberdade, mas, por outro lado, sempre permitiu que circulassem as idéias que fossem inúteis e inaplicáveis no Brasil, pois, dessa forma, ficaria evidente o caráter incompleto, atrasado e defeituoso das coisas, no Brasil.

Apenas coisas e idéias inúteis devem aportar no Brasil! O sentimento de não se levar à sério, de se irritar com o fato de que as “nossas” idéias mais queridas não servem para nada no Brasil, de que somos apenas uma imitação de um modelo e, portanto, nada que se possa e se “deva” levar à sério é sem dúvida um sentimento que impregna, para o melhor e o pior, para o bem e o mal, muitas manifestações da cultura brasileira.

Noel com a sua irônica interpretação tímida e a frase “o Brasil vai ter valor” ou ainda com o seu elogio invertido em que o Brasil é visto como um violão “que toca em falsete e só não têm braço, fundo e cavalete”, Gilberto freire que deixa de fora e desqualifica tudo que não seja branco e senhor ou negro e escravo e, por esse motivo, considera as condições históricas do mestiço no Brasil como não-condições que, pela carência a que foi submetido, não poderiam produzir uma raça e apenas uma sub-raça e com isso valorizou a afro-descendência, mas desvalorizou o Brasil mestiço e indeterminado são todas expressões desse sentimento antigo e recorrente a todas as nações, povos e mentes colonizados: os “dominados” devem querer ser o que os “dominadores” são e, ainda mais, nunca conseguir sê-lo de fato.

Não seria mais filosófico perguntar pela origem e justificativa desse “ponto de vista” e assim fazê-lo “desaparecer”. Como, “desaparecer?” Perguntam vocês horrorizados. “Essas idéias trouxeram o progresso e elevação que nos permitirão e permitiram atingir a autonomia, portanto, esse desaparecer é retrógrado e perigoso...”. Mas por que? É apenas a má interpretação que pretendemos que desapareça, não a ciência que nasceu na Europa, nem o estudo da ciência e muito menos a educação. Apenas se deve notar que essa indeterminação só é devida a uma carência de um ponto de vista mais adequado.

 

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 2 de julho de 2006
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