OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


O fenômeno do futebol

Você sabe explicar a fascinação pelo futebol, sabe dimensionar a magia das Copas do Mundo, sabe compreender a inabalável paixão, sempre renovada? Você expressou opinião, escalou sua seleção, venceu a discussão? Gritou, calou, sentiu a sensação, dançou? Você é o dono da bola, é mais um que tem razão?

O time de todos nós bateu o centro, viajamos, saímos do campo visível, trocamos passes com o Inexplicável dos Santos, a felicidade é agora, era, enquanto a bola corria, enquanto esperanças voavam, enquanto o pensamento transbordava o limite da ilusão, batendo às portas do mundo, dominando no peito os lances dessa magia incomparável, indescritível em palavras, vista em retratos, que ninguém pára de revelar, que não conseguimos deixar de ver, de lembrar, de emoldurar. Nosso jogo parece não parar de marcar, como o Fenômeno.

Você também está tabelando com os sonhos e driblando a emoção? Sabe explicar em detalhes cada jogada, cada gol (feito ou perdido), cada possibilidade? Você também gritou esse grito colorido que voou continentes e mares e aterrissou numa terra verde, com homens correndo, numa aparição em verde-amarelo?

Nossos torcedores conseguem viver melhor a fantasia, mesmo tendo uma realidade exclusiva, já vivida, vencida, nunca esquecida, mas em tempo de ser renovada, reconquistada. Nesses instantes de Copa do Mundo tudo que foi ganho é lembrado, repetido, junto com um escondido jeito de achar pouco, junto com um festejado anseio de querer de novo, e mais, baseado na certeza geral do merecimento absoluto. E o torcedor dentro deste abraça o momento, desfila os olhos, comemora as cores, toma a multidão.

Essa goleada era o que você precisava para ficar realizado, extasiado, esquecido de outras coisas, nem sempre assim alegres? Dentre esses muitos países do futebol, no meio desse grupo maior que o das Nações Unidas, você é da turma campeã, acima de todas? Você é do país do Rei, daquele e deste, você é quase do time?

Que venham jogos e dias, que aconteçam e passem, num passe de gritos e suspiros, que fique o registro, prazer e dor, que fiquem os abraços, há muitos títulos para perseguir. Queremos este, temos outros, continuamos, somos referência, história, realidade, no meio desses campos todos, no meio da ilusão, que de tamanha é quase única, esquecida no peito, driblada, dia-a-dia, quando empurramos pra dentro o grito de gol, quando botamos pra correr alguma derrota, quando invadimos a grande área e caímos na marca do pênalti, sem apito.

Você também quer vencer? É querer coletivo. Vem da raça, do talento, da garra, malícia manhosa. Nasce da vontade de vencer. O mesmo querer leva galeras e quimeras a navegar na vida, e aí querer ganhar como no jogo. Embates, a torcida quer ganhar. Mas a vitória vem de dentro, até da fantasia. Ganhar, perder, é festejar o Fenômeno.

 

 
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Rio Branco-AC, 2 de julho de 2006
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