OPINIÃO
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Selvino Heck *

 

 

“Eu quero é trabalhar”

Cidade de Floriano, Piauí, primeiro semestre de 2004, reunião à noite com cerca de 100 moradores no salão de um bairro pobre deste município distante uns 300 quilômetros da capital, Teresina. Fui convidado para explanar o Programa Fome Zero do governo Lula e as políticas sociais em andamento. Como sempre faço, depois de uns 15 minutos de exposição, abriu-se a conversa entre todos os presentes. Quase no final, mais de uma hora depois, uma senhora de seus 50 anos se levanta e pede a palavra: “Gostei muito de suas palavras, acho certo o que o presidente Lula está fazendo, mas quero lhe dizer uma coisa que quero que o senhor leve pro presidente. Eu não quero esmola. Eu quero é trabalhar. Eu sei cozinhar, sei lavar e passar roupa, sei cuidar de uma casa. Se qualquer um aqui de Floriano quiser me dar um emprego com salário no final do mês, eu vou escolher é trabalhar e ganhar o pão com o suor do meu rosto. Nós aqui da comunidade não queremos depender toda vida de uma ajuda do governo.”

De tantas reuniões e encontros na vida que a gente esquece, esta senhora sempre me vem à mente, ela de pé, no lado direito do salão, falando com energia e autoridade o que lhe passava no coração. Só tive que concordar com ela e dizer que o objetivo era esse mesmo: garantir renda e trabalho, mas a primeira coisa, a mais urgente, embora emergencial, era garantir a comida a todos os brasileiros e brasileiras.

De então até hoje, 2006, são 11 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família, uma das ações do Fome Zero, são mais de 5 milhões de empregos criados em todo Brasil, e um conjunto de políticas melhoraram a vida do povo brasileiro mais pobre. Mas não sei se aquela senhora de um bairro pobre de Floriano tem seu sonhado emprego, se não continua dependendo de uma ajuda mensal do governo.

O que se exige no momento é exatamente isso: construir as chamadas ‘portas de saída’, garantir políticas emancipatórias para as famílias. O objetivo não deverá ser mais acrescentar números e sim a cada ano fixar metas prevendo a diminuição dos benefícios de transferência de renda.

Para isso, é necessário implementar, o que está sendo discutido e começando a ser feito, um conjunto de ações de caráter redistributivo que propiciem o crescimento da participação dos trabalhadores na apropriação da riqueza gerada no país. Faz-se necessário dar prosseguimento a uma política de trabalho e emprego que proporcione substantivo aumento da renda obtida pelo trabalho, tanto dos que estão empregados quanto, e principalmente, dos que estão desempregados. Afinal, como diz o professor Márcio Pochmann, da UNICAMP: “No Brasil, o rendimento do trabalho corresponde a 36% do PIB (Produto Interno Bruto) e os 64% a rendas e patrimônios. Nos Estados Unidos, essa proporção é inversa.”

Uma política de trabalho e renda deve reconhecer que o mundo do trabalho no Brasil é heterogêno e diversificado. Assim a renda poderá ser obtida por meio de relações de trabalho diversas, seja através do trabalho como empregado, seja o autônomo, incluindo micros e pequenos empreendedores, assim como o trabalho associado ou cooperativado, a economia solidária.

Está aí um desafio para os próximos anos. A senhora pobre de Floriano não passa mais fome. Mas ela quer e precisa mais que isso: dignidade, amor próprio, auto-estima. E isso acontece, superada a falta de comida, com trabalho e renda próprias. Desenvolvimento com distribuição de renda deve ser o centro da política do próximo governo.

* Assessor Especial do Presidente da República

 
 
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Rio Branco-AC, 2 de agosto de 2006
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