OPINIÃO
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Flávio Loureiro *

 

O esforço comovente

O esforço que a grande mídia faz para conter a debandada de apoios de partidários da candidatura Alckmin em direção a de Lula , que já vem ocorrendo, e manter acesa a esperança naqueles setores ditos formadores de opinião de que uma virada do candidato tucano-pefelista é possível, chega a ser comovente. Para isso, surgem os articulistas de sempre. Aqueles que muitas vezes tão íntimos e identificados com a campanha de Alckmin, se sentem à vontade para sugerir mudanças e ênfases na sua estratégia de campanha.

A despeito de estarem corretas ou não as várias pesquisas até aqui divulgadas, por diferentes órgãos e metodologias, todas têm identificado a cada vez mais remota possibilidade de haver um segundo turno na disputa presidencial - conclusão que eu prefiro chegar após a abertura das urnas em 1º de outubro - a partir da constatação da crescente popularidade do governo e do presidente da República, que busca a reeleição. Algumas registram algum crescimento da campanha do tucano, ao mesmo tempo em que, quase na mesma proporção, uma queda na candidatura de Heloisa Helena. Vale lembrar que há algumas semanas as pesquisas registravam, e algumas continuam a fazê-lo, justamente o contrário.

Na medida em que a própria mídia é obrigada a divulgar o isolamento político visível do ex-governador de São Paulo, na disputa presidencial - pode-se tudo no jornalismo, menos brigar com os fatos -, quanto mais Lula e o governo crescem no gosto popular, mas se recorre aos colunistas políticos, estes com liberdade para a interpretação dos fatos, que exercem à luz não necessariamente deles (os fatos), mas na maioria das vezes dos seus desejos e identidades ideológicas. Quando coincide com os fatos, tanto melhor. Algo que para eles é permitido, já que são pagos para emitirem as suas próprias opiniões, mas que é complicado para um repórter fazer, já que o papel fundamental deste é relatar o que ouve e o que vê, embora o que mais tem se lido atualmente são reportagens editorializadas, principalmente nos jornais que têm alguma repercussão nacional.

Como a manipulação do noticiário é evidente, e já registrada pelo Observatório da Imprensa, quando coteja o tratamento das manchetes e matérias que se referem ä candidatura de Lula às dedicadas à do ex-governador de São Paulo, e identifica que as primeiras são majoritariamente negativas e com as segundas ocorre exatamente o contrário, e como os editoriais representam a posição dois jornais sobre determinado assunto, não há isenção e pouca gente lê, apela-se, então, para a suposta neutralidade dos colunistas, em geral bastante competentes na arte de escrever de forma concisa e direta, através de pequenas notas e/ou artigos.

Um bom exemplo desse comovente esforço é a coluna de Merval Pereira, em O Globo, publicada no dia 31 de agosto, com o sugestivo título: “Ainda com fé na virada”. Merval, para quem não conhece, é um experiente jornalista, que antes de se tornar colunista ocupou todos os principais cargos de direção de jornalismo nas Organizações Globo. Enfim, por muito tempo foi o responsável pela preservação da linha editorial da empresa, que expressa naturalmente uma posição ideológica, nas suas redações. Essa biografia, a despeito da sua reconhecida competência profissional, é auto-explicativa.

No seu artigo, a partir de informações obtidas junto à equipe de campanha do ex-governador de São Paulo (não são citados os nomes das fontes ouvidas), Merval é porta-voz de uma análise que mantém acesa a esperança de uma virada na campanha presidencial em favor do candidato tucano-pefelista. Algo que contradiz todas as pesquisas realizadas, publicadas e registradas na justiça eleitoral, como manda a legislação. E que, pasmem, contradiz o seu artigo publicado no dia anterior, onde passa um verdadeiro “pito” em Alckmin e no tucanato não Serrista, com autoridade e intimidade. Estranho, não é mesmo?

Primeiro são divulgados estudos e pesquisas cuja fonte, apesar de anônima (ninguém assume o seu conteúdo), é declaradamente ligada a uma determinada candidatura. Segundo, se publica informações que em qualquer campanha normalmente são guardadas “a sete chaves”, para não dar munição ao adversário. Terceiro, não há nenhum contraditório, nenhuma fonte que possa contraditar as assertivas produzidas pelos marqueteiros anônimos. Portanto, malgrado a incredulidade marota e “neutra” que o colunista expressa ao longo do artigo em relação às informações que divulga, ele, em si, é mais um libelo de sobrevida ao candidato tucano. Algo assim: “não percam a esperança, pois há uma luz no fundo do túnel. Depende apenas de HH não desabar...”.

O que, a meu juízo, atende a algumas necessidades eleitorais. A principal é a de manter as tropas tucano-pefelistas mobilizadas e evitar a debandada de parlamentares, prefeitos e governadores, que já está se verificando. A outra, não menos importante, é sinalizar para parcela do eleitorado que a candidatura de HH ainda tem um papel importante a cumprir e não pode ser abandonada.

Longe de analisar o comportamento de qualquer profissional da imprensa, muito menos o de Merval Pereira, que, como qualquer colunista, deve ter total liberdade de expressar o seu ponto de vista - apesar de, com raras exceções, só serem mantidos em seus espaços aqueles que mediam sua opinião com a linha editorial dos órgãos onde atuam, quando não a reproduzem literalmente -, esse artigo tem a humilde pretensão de alertar os incautos das sutilezas das manipulações de informação e, nunca é demais insistir nesse tema, a serviço de que interesse e de que lado está a maior parte da mídia no processo eleitoral em curso.

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 2 de setembro de 2006
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