OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Dos sonhos da ciência (ou, nos incluam fora dessa)

A pesquisa arqueológica na Amazônia foi desenvolvida desde seus primórdios principalmente por arqueólogos norte-americanos, que impregnaram os resultados obtidos nas pesquisas com suas perspectivas de desenvolvimento teórico e até hoje permanecem dominantes na reconstituição da pré-história amazônica. Essa singular trajetória deixa claro como a própria ciência muitas vezes induz a distorções, também bastante graves, ao ser utilizada prioritariamente para afirmar determinadas linhas teóricas que se pretendem hegemônicas no cenário científico.

“A arqueologia amazônica no século XX caracteriza-se por uma orientação teórica exclusivamente norte-americana” É assim que André Prous, em seu excepcional trabalho “Arqueologia Brasileira” (UNB, 1992), começa a descrever as etapas de desenvolvimento das pesquisas arqueológicas nesta região. Uma realidade incontestável e que infelizmente ainda pode ser aplicada até os dias de hoje. Digo infelizmente, não por qualquer traço de xenofobia implícita ou explicita. Mas pelos resultados advindos dessa realidade que muitas vezes é completamente dissonante em relação às expectativas dos povos amazônicos que habitam a região, desde há muitos milhares de anos passados.

Como já vimos em artigos anteriores, a pesquisa arqueológica na Amazônia foi insipiente até o final dos anos 40. Só a partir deste período a realização de pesquisas na região do baixo Amazonas pelo casal Clifford Evans e Betty Meggers possibilitou o desenvolvimento de uma teoria geral para o processo de ocupação pré-histórica da imensa floresta. Uma nova teoria que partiu dos pressupostos estabelecidos pelo antropólogo J. Steward de que “os indígenas amazonenses estavam no estágio socioeconômico ‘marginal’, ou seja, da ‘floresta tropical’, não tendo possibilidade de ultrapassá-lo em razão das pressões ecológicas negativas” (Prous, 1992, pag.427).

Esta linha teórica foi, desde então, desenvolvida pelo pioneiro trabalho de Betty Meggers e se consolidou com a publicação do clássico “Amazônia: A Ilusão de um paraíso” (USP, 1987). Assim Meggers passou a abordar a Amazônia sob o prisma da “Ecologia Cultural”, em um momento que o movimento ecológico mundial era ainda pouco difundido (a esse respeito observe-se que o livro de Meggers foi publicado no Brasil apenas um ano antes do assassinato de Chico Mendes).

Segundo essa linha de interpretação a pré-história amazônica deve ser definida através das características ambientais que possui desde o fim da ultima idade do gelo que marcou o término do Pleistoceno e o advento do Holoceno (que cobre os últimos 10.000 anos). Assim o ambiente amazônico - dividido entre duas grandes regiões: as restritas áreas de várzea ao longo dos principais rios e a imensa área de terra firme - teria determinado duas grandes modalidades de ocupação. Nas várzeas teria sido possível o desenvolvimento de sociedades extensas, numerosas, que se não chegaram a alcançar o nível de civilização, estiveram muito próximas disso, chegando a constituir grandes “cacicados” (também chamados de “chefias”) que reuniam milhares de habitantes e assim possuíam grande poderio bélico. Enquanto que as condições ecológicas das áreas de terra firme - que constituem a absoluta maioria das terras da região amazônica - não permitiram o desenvolvimento de formas mais avançadas de sociedade, limitando os grupos humanos a alcançarem, no máximo, o nível tribal, seminômade, de organização que Prous chama de ‘marginal’ ou de ‘floresta tropical’ no trecho acima citado. Configurou-se assim o que muitos gostam de chamar de “determinismo ambiental”. Ou seja, o meio-ambiente amazônico teria determinado o desenvolvimento das sociedades aqui surgidas e impediu que elas alcançassem o mesmo nível complexo de organização das sociedades pré-históricas da América Central (Olmecas, Maias, Aztecas, etc.) e dos Andes (Tiawanacu, Incas, Chibchas, etc.).

Sem aprofundar aqui as características da teoria proposta por Meggers e seus pressupostos fundamentais, o que escaparia aos objetivos deste artigo, é fundamental assinalar que essa perspectiva teórica permeou o PRONAPABA (Programa de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica) e todo o desenvolvimento da pesquisa arqueológica no Brasil desde então. Assim, toda uma geração de arqueólogos brasileiros seguiu a linha de interpretação proposta por Meggers completando-a com os novos dados obtidos pelas escavações e pesquisas realizadas durante este longo período.

Mais recentemente, a partir dos anos 90, outra pesquisadora norte-americana, essa com sobrenome ilustre, Anna Roosevelt passou a contestar o trabalho de Meggers e a lutar com todas as armas possíveis para a desconstrução de tudo o que já se havia estabelecido para a pré-história amazônica.

Segundo Roosevelt a ocupação da Amazônia e a presença de povos ceramistas na região é muito mais antiga do que se pensava, as áreas de terra firme podem ter abrigado povos com um nível de desenvolvimento muito maior do que o até aqui suposto e o desenvolvimento cultural da região foi alcançado independentemente e não por influencia das civilizações meso-americanas ou andinas.

Para alcançar seus objetivos Roosevelt se especializou em afirmar o exato oposto do que Meggers estabeleceu, muitas vezes sem se importar se os dados nos quais se apóia são consistentes ou não. Desde então ambos os lados da disputa, aparentemente de caráter científico, tem se empenhado numa luta fratricida onde vale tudo, de dedo nos olhos a chute na canela. E como era de se esperar, lá se vão os arqueólogos brasileiros e latino-americanos no geral, seguirem novamente os passos dos norte-americanos e se digladiarem na defesa de uma ou outra linha teórica de interpretação.

Seria cômico se não fosse trágico, assistir o empenho com que arqueólogos de todas as cores e origens buscam informações para confirmar as teorias de Meggers ou de Roosevelt. Aproximam-se, assim, ambos os lados em disputa, da realidade que tratamos no artigo da semana passada, quando vimos como a busca de notoriedade fácil pode revestir com uma aparência científica o que no máximo é um exercício de imaginação. É compreensível, afinal a maior realização de um cientista parece ser alcançar a hegemonia absoluta na interpretação de uma determinada área do conhecimento.

Entretanto devemos nos perguntar: não deveria ser a pratica científica exatamente o oposto? Ao invés de procurar dados que confirmem o que pensam, não deveriam os cientistas desenvolver interpretações orientadas pelos dados disponíveis e em consonância com as realidades locais? Infelizmente parece que a vaidade acadêmica é por demais preponderante para que essa pergunta possa encontrar uma resposta satisfatória.

E o que isso tudo tem a ver com a arqueologia acreana? É importante ressaltar que todo o desenvolvimento da pesquisa arqueológica no Acre foi feito sob a orientação da escola de Betty Meggers, mas ultimamente começam a surgir tentativas de reinterpretação da pré-história acreana baseadas na escola de Anna Roosevelt. Diante disso vale repetir que essa situação seria cômica senão fosse trágica. Até quando os arqueólogos que atuam na America Latina vão se limitar a macaquear as orientações emanadas dos sempre poderosos norte-americanos? Até quando o subdesenvolvimento econômico também será expresso por nosso subdesenvolvimento científico?

Dito de outra forma é preciso afirmar claramente que a pesquisa acerca da pré-história acreana não precisa ser expressão da luta entre os seguidores de Meggers e de Roosevelt. O conhecimento de nossa pré-história é por demais importante por outros motivos que não o de glorificação das escolas norte-americanas. O Acre, como típico integrante da grande bacia amazônica, possui em seu tecido social e cultural a expressiva presença de diversas etnias indígenas que desempenharam (e ainda desempenham) relevante papel na trajetória histórica acreana. O Acre precisa sim do desenvolvimento de pesquisas arqueológicas sérias, não para tomar partido pró A ou B, mas para colaborar com a construção de uma sociedade mais consciente de suas origens e afirmar a possibilidade de desenvolvimento de um caminho original diante desse mundo globalizado e pasteurizado dos padrões ocidentais.

Ou seja, não é importante nesse momento discutir se foi possível o desenvolvimento de sociedades complexas na área de terra firme que hoje pertence ao Acre, porque essa discussão seria apenas reflexo do embate teórico norte-americano. É importante, isso sim, qualificar a ocupação pré-histórica acreana pelo que ela pode revelar sobre os processos milenares de ocupação da região e inter-relação com povos de outras áreas da Amazônia e dos Andes. É preciso, mais que nunca, fazer com a pré-história acreana o que acontece com o conhecimento histórico, uma construção teórica e empírica capaz de consolidar a consciência e a trajetória acreana no mundo ao longo dos tempos. Usar a pré-história acreana para posiciona-lo diante do atual embate teórico-conceitual da arqueologia amazônica é muito pouco, porque o conhecimento profundo do Acre, com toda sua milenar tradição de fronteira, de luta e de resistência, é fundamental.

 

 
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Rio Branco-AC, 2 de setembro de 2007
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