| OPINIÃO | ||
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Paula Pimenta * |
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Apegada crônica Sou apaixonada. Desse jeito mesmo, verbo ser e não estar. Geralmente, paixão é ligada a um estado transitório, uma chama, um sentimento que passa, mas isso não se aplica ao meu caso. Acho que já nasci assim, apaixonada por tudo e por todos à minha volta. E não consigo viver de outra forma, sem gostar demais e sem querer tudo o que amo por perto. Digo isso, porque outro dia, conversando com uns amigos, veio à tona um assunto sobre o qual eu venho pensando há algum tempo: o apego. A doutrina buddhista prega o desapego como forma de libertação e meio para se alcançar a felicidade. Devemos aproveitar as coisas enquanto elas estão conosco e depois deixá-las partir, sem mágoas. O que eu disse aos meus amigos e repito aqui é que acho isso muito bonito na teoria, mas inaplicável na prática. Até considero louvável da parte de quem consegue ter essa abnegação e vive cada dia como se fosse o único, sem se importar se amanhã terá aquilo que tem hoje, sem se preocupar em manter o que já obteve. Mas eu não vejo como não ser apegada a cada coisinha que tenha o menor valor sentimental para mim. Uma vez, roubaram o som do meu carro e todos os meus CDs que estavam no porta-luvas. Se eu seguisse a tal doutrina, pensaria apenas: “Vão os anéis e ficam os dedos. Era apenas um bem material, que façam bom proveito.” Mas eu – apegada que sou – até chorei e ainda hoje fico um pouco triste ao me lembrar do tal acontecimento. Pode ser fácil praticar o desapego para quem é muito rico, mas eu trabalhei muito pra comprar aquele CD-player. E cada um dos CDs que me roubaram tinha uma história, alguns eu ganhei de presente, outros comprei por gostar muito, e outros eu havia passado horas gravando... impossível ser desprendida em uma situação dessas. Mais um caso: outro dia comentei que eu amo meu celular. Depois fiquei pensando que o menino deve ter me achado uma boba fútil. Mas eu realmente amo esse celular, claro que não o amo com o mesmo amor que amo minha mãe, mas sim porque ele foi presente de uma amiga querida, porque eu queria há muito tempo um celular que tocasse mp3 e tirasse fotos, porque eu adoro quando toca aquela música linda que eu escolhi especialmente pra tocar quando ele me liga... se o roubassem, certamente eu iria ficar triste. Sei que existem outros celulares iguais, mas eu gosto é desse, com o cheirinho do meu perfume que já está impregnado nele, com o elefantinho que eu comprei na Bélgica dependurado do lado... não tem jeito, sou uma apegada crônica. Em se tratando de pessoas, o problema cresce. Sofro por antecipação só de pensar que posso ficar sem as pessoas que amo. Morei em Londres no ano passado e um dos motivos mais fortes para a minha decisão de voltar para casa foi a ausência dos meus pais. Eu ficava de lá imaginando que eu devia estar perto deles enquanto eu posso, que daqui a um tempo aqueles dias de distância não seriam mais por opção e que nesse momento que eu posso estar com eles, devo aproveitar ao máximo. Já me disseram que isso é o correto a se fazer, curtir tudo que posso agora, mas depois, com a inevitável morte, desapegar. Mas continuo achando impossível. Depois vêm as lembranças. E não existe ninguém mais apegado a elas do que eu. Talvez por isso eu viva com minha máquina de retratos para cima e para baixo, para poder registrar um pouquinho dos momentos felizes e eternizar as minhas recordações. Sou apegada à minha família, aos meus amigos, ao meu amor, aos meus cachorros, às minhas coisas. Sou apegada porque gosto de tudo demais, porque se eu pudesse congelava momentos em que sou feliz, para poder revê-los repetidas vezes e tentar também repetir aquela felicidade. Sou apegada ao que já vivi e aos sonhos que tenho e ainda quero viver. Doutrina nenhuma, por melhor intenção que tenha, me fará mudar esse jeito de ser. Ela pode até evitar que se sofra algum dia, mas a enxergo como uma espécie de anti-depressivo, que te impede de sentir tristeza, mas que também não te deixa sentir a felicidade em sua plenitude. Desapegar pode até prevenir sofrimentos, mas previne também emoções fortes. E é assim que eu gosto de viver. De sentir tudo intensamente. De amar o máximo que eu posso. Se isso me trouxer tristeza em algum momento, me apegarei a ela também, viverei todo o sofrimento até que ele se extinga por si só e eu me apegue apenas à doce memória do quê ou de quem eu já tive algum dia. * Autora do livro de poemas “Confissão” |
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